The New York Times

Estilista organiza grupo criativo sob medida 

10/10/2016 - 16h27min | Atualizada em 10/10/2016 - 16h27min

Milão – Um edifício milanês de Luigi Caccia Dominioni de meados do século passado, situado em um bairro residencial tranquilo e tradicional dos Milano Bene, os membros ricos e conservadores da sociedade, pode ter pouca semelhança física com o loft prateado de Andy Warhol em Manhattan, conhecido como a Fábrica.

Mas o estilista italiano Arthur Arbesser criou nesse espaço, alugado de um amigo e compartilhado com o fotógrafo finlandês, Henrik Blomqvist, uma espécie de versão do século 21 da Fábrica, onde seus membros trabalham, tocam e criam juntos.

"Esta é uma cidade dominada por famílias tradicionais, mas eu criei uma família alternativa", disse Arbesser.

Em um mundo da moda cada vez mais fluido, esse bem pode ser um modelo para o futuro do design italiano. "Uma telefonema de cinco minutos com alguém que o estimula intelectualmente é muito melhor do que uma pesquisa no Google", disse Marco de Vincenzo, estilista amigo de Arbesser.

Embora os grupos de design italiano radicais dos anos 50 e 60 – como o Superstudio e o Archizoom e, mais tarde, o Memphis – tenham sido bem documentados, a ideia desses coletivos na moda é relativamente nova para Milão. Como escreveu em um e-mail Franca Sozzani, editora da Vogue italiana, isso faz de Arbesser um "novo agregador".

Quanto ao grupo... bom, seus membros estavam todos lá no apartamento bebendo em uma agradável noite de domingo, em setembro.

Mariuccia Casadio, real discípula da Fábrica de Warhol, escritora e curadora de arte contemporânea, chegou vestindo uma malha de Arbesser com um motivo de flecha e o cabelo cor de lilás. A modelo russa Nastya Shershen, uma das muitas musas do estilista, usava shorts de corrida e carregava a filha de um mês de idade, Chloe.

Dorian Stefano Tarantini, empresário de uma boate punk que agora é o estilista conhecido como Dorian Gray, estava de couro preto. Ele tem sua própria linha de streetwear sofisticada, a Malibu 1992, e compõe a música do desfile de Arbesser. Estava com Ilenia Corti, designer de joias de fala suave, cabelos negros, com uma linha estranha de criações chamada Vernissage, sentada no sofá Superstudio Sofo recém-comprado por Arbesser.

Ilenia criou uma coleção de joias para Arbesser que foi exibida durante seu desfile. "Ela também está sempre presente na cena noturna milanesa", sussurrou Arbesser.

Ao lado havia Fabio Cherstich, diretor responsável por uma produção chamada "Figaro! Opera Camion" que se apresenta na traseira de um caminhão em Palermo, na Sicília. Arbesser disse que era um grande fã de ópera na sua infância em Viena: "Eu comprava um ingresso de pé por, sei lá, 20 xelins, e ficava três horas em pé guardando meu lugar".

E havia Selva Barni, uma morena elegante que fez a curadoria de uma exposição no Palazzo Reale, "Ho Visto Un Re", que apresentou o trabalho de Arbesser.

O porteiro chefe da fábrica é o arquiteto Luca Cipelletti. Ele leva o grupo para passeios sazonais em um reconhecimento arquitetônico por Milão para descobrir suas estruturas perdidas. Arbesser e Cipelletti se conheceram anos atrás quando o arquiteto insistiu que o estilista visse seu projeto mais recente: a reforma dos antigos estábulos militares construídos no século XIX na área do que agora é o Museo della Scienza e della Tecnologia Leonardo da Vinci.

Convertido em um amplo salão de exposição, o espaço inclui uma passagem com mais de 79 metros de comprimento que será a nova entrada do museu e foi a passarela de Arbesser.

"É um pouco assustador. Olho para aquela coisa enorme e acho que seria melhor desfilar em uma garagem abandonada, como uma pequena marca. Quer dizer, a Gucci poderia desfilar lá", disse Arbesser em casa.

Cipelletti, que convenceu o diretor do museu a rejeitar propostas de grandes casas de moda, garantindo que Arbesser ficasse com o espaço, disse que não havia motivo para as preocupações do amigo. "O trabalho de Arthur se encaixa. Falamos a mesma língua visual, apreciamos as mesmas linhas brutalistas e as camadas do tempo. Não dá para esconder e transformar em outra coisa."

"Luca é o último dos perfeccionistas. Às vezes eu só digo: 'Dá um tempo'", respondeu Arbesser, acrescentando que houve uma época em que o arquiteto o incentivou a buscar um nível de perfeição que achava ser incapaz de conseguir.

Aos 34 anos, Arbesser ainda é considerado um jovem estilista pela indústria. Ele se mudou para Milão depois de se formar na Central Saint Martins, em Londres; começou criando roupas femininas na Armani, onde ficou sete anos antes de começar a trabalhar por conta própria, em 2013.

Seus modelos limpos – alfaiataria inspirada em uniformes, malhas geométricas e estampas peculiares – podem parecer casuais e improvisados, mas é meticuloso em sua busca por inspiração. Foi isso que disse seu amigo, o crítico Marco Sammicheli, enquanto descansava em uma cadeira da sala de jantar. "Para obter progresso é preciso cruzar fronteiras, sair da zona de conforto", disse ele.

Como, por exemplo, ir para a casa de veraneio em Portofino que Cipelletti divide com Paola Clerico. (Sua aparência sofisticada desmente sua curadoria um tanto subversiva, que se concentra em instalações feitas para locais específicos, como o "Case Chiuse", metáfora italiana para bordel que se traduz literalmente por "casas fechadas", uma iniciativa que apresenta obras de arte em espaços privados.) Ela fica na "outra Portofino" – e longe de ser badalada, está situada em uma colina íngreme e arborizada acima da belíssima baía, aonde muitas vezes eles vão para recompor as energias e preparar projetos futuros.

"Lá em cima é só você e os javalis. A última vez que ficamos lá, uma senhora muito charmosa vestindo calças cargo e uma camiseta apareceu e foi só depois que saiu que descobrimos que se tratava da Duquesa de Westminster [Natalia Grosvenor]", disse Arbesser.

O estilista admite achar o mundo da arquitetura e do design mais fácil de navegar do que a multidão da moda. "Eles tendem a ser mais humildes, mais abertos", afirmou. A exceção é o parceiro de Arbesser há mais de dez anos, Fabio Giglio, que conheceu em um clube noturno durante o Salone del Mobile em Milão e que tem uma semelhança surpreendente com o personagem Kramer de "Seinfeld".

"Ele é médico especialista em transplantes de medula óssea em um hospital universitário na cidade, mas também é muito bom em relações públicas", conta Arbesser. E é por isso que Giglio assume o papel de distribuidor de prosecco e castanha de caju antes do jantar.

"Acho que ele gosta da mudança de cenário de vez em quando", disse Arbesser. Especialmente porque, embora cheia de criatividade, nenhuma foto da noitada acaba no Instagram.

 






 
 
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