Adoção

TJ-RS lança nesta sexta campanha por adoção de crianças mais velhas, com doença ou grupos de irmãos

Objetivo é encontrar um lar para cerca de 600 crianças e adolescentes do Estado que acabam sendo preteridos 

14/10/2016 - 05h50min | Atualizada em 14/10/2016 - 10h50min
TJ-RS lança nesta sexta campanha por adoção de crianças mais velhas, com doença ou grupos de irmãos Mateus Bruxel/Agencia RBS
César tinha 12 anos e morava em um abrigo quando foi surpreendido por Rose. Hoje, mãe e filho são pura sintonia Foto: Mateus Bruxel / Agencia RBS

A conversa teve de avançar alguns minutos até que Rose Schroeder conseguisse ver o rosto do menino. Envergonhado, César, então com 12 anos, mantinha a cabeça baixa. A técnica em enfermagem, também encabulada, apresentou-se, falou de sua casa e de sua família. O garoto, vivendo havia cinco anos em abrigo em Campo Bom, alegrou-se ao ouvir o relato sobre a numerosa turma de animais de estimação: os cachorros Scooby, Marlon, Mel, Moni e Mirna e a tartaruga Letícia Mariana. Pretendente à adoção, Rose especificara no cadastro que queria um menino entre seis e 12 anos, "sabendo que viria um de 12". Saiu do primeiro encontro temendo que ele não tivesse gostado dela, mas logo saberia que nascera ali a relação que tanto desejava: a de mãe e filho. 

César personifica um dos perfis chamados de difícil colocação, tema da campanha Deixa o Amor te Surpreender, que a Coordenadoria da Infância e Juventude do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul lança nesta sexta-feira. Atualmente, cerca de 600 crianças e adolescentes se encaixam nessa descrição no Estado: a destituição da família biológica já ocorreu e eles estão aptos para serem adotados, mas são preteridos por terem idade mais avançada, doenças e deficiências ou por integrarem grupos de irmãos. À medida que o tempo passa, as chances de encontrarem um lar ficam cada vez mais remotas.

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O propósito da iniciativa do Judiciário é informar e sensibilizar a população em geral e fazer um trabalho de aproximação, em encontros que já vêm sendo realizados, com os pretendentes já habilitados. A maioria dos pais em busca de filhos adotivos procura recém-nascidos ou crianças nos primeiros anos de vida, e a ideia agora é expor a realidade local e buscar uma flexibilização desse perfil almejado.

Ao mesmo tempo, serão concentrados esforços nos procedimentos de busca ativa — em sondagens, verifica-se se os futuros pais aceitam crianças com características próximas àquelas especificadas no cadastro. De acordo com a coordenadoria, não chega a 2% o percentual de pessoas que manifestam disposição para adotar crianças acima de 10 anos.

— Para quem quer recém-nascido ou até três anos, que é a maioria, demora mais. Quem topa esse perfil mais difícil tende a conseguir adotar mais rapidamente — afirma Andréa Rezende Russo, juíza-corregedora e coordenadora da Infância e Juventude.

Solteira, Rose, hoje com 53 anos, identificou uma vontade tardia pela maternidade, cerca de cinco anos atrás. Após encaminhar os papéis de habilitação, conheceu um menino que acabou desistindo de ficar com ela depois de uma breve temporada juntos, por conta de um irmão que deixara para trás. Desanimada, a técnica em enfermagem quase desistiu de seguir adiante, mas resolveu tentar uma segunda vez — e então surgiu César, atualmente com 14 anos, afastado dos pais biológicos por negligência. Quando o filho se mudou para a casa da nova mãe, em Canoas, um acordo foi estabelecido.

— O que temos que ter é respeito e confiança. Você tem de confiar em mim, e eu tenho de confiar em você. Me conta tudo que você estiver sentindo — pediu Rose. — Você nunca mais vai sair daqui — garantiu.

César morava em um abrigo havia cinco anos quando foi surpreendido pela adoção. Habituado à convivência com as outras crianças acolhidas, com quem brincava e dividia afazeres domésticos, imaginava que ficaria por lá até completar a maioridade. Adaptou-se rápido e feliz à nova rotina — dois irmãos da técnica em enfermagem moram na mesma residência. Dias depois de se instalar, o garoto já chamava Rose de mãe. E fez uma cobrança, alertando-a a respeito de algo que ela ainda não havia percebido:

— Por que você não me chama de filho?

A sintonia agora é tão intensa que quem observa os dois costuma apontar semelhanças, na aparência e no comportamento.

— Ai, tá igual a tua mãe! — diverte-se a tia Mara Goreti da Rosa Oyarzabal ao flagrá-lo repetindo o trejeito de Rose ao mexer o café na xícara.

Os deveres do adolescente incluem dedicação total aos estudos — está cursando o 7º ano do Ensino Fundamental — e cuidados com os cães. Afetuoso, ele não economiza beijos e abraços: agradece por receber "amor, carinho e paz". Rose se orgulha ao constatar que "as coisas deslancharam rápido".

— Acho que estou fazendo um bom papel, um papel que nem reconhecia em mim. Mudou a minha perspectiva. Agora tem um sentimento que eu não sabia que tinha — explica ela. — Antes eu não sabia que ia gostar tanto de uma porcaria dessas — brinca, e ambos caem na gargalhada.

César emenda de pronto:

— Eu sou o amor da tua vida.

Os interessados em adotar crianças mais velhas ou adolescentes, ou que tenham alguma doença ou deficiência, além de grupos de irmãos, precisam se preparar para essa convivência. Segundo a assistente social Angelita Rebelo de Camargo, da Coordenadoria da Infância e Juventude, o ideal é que os pais sejam flexíveis, estando dispostos a promover alterações na rotina, e possam tolerar frustrações. Questões relativas à história pregressa do filho, como em qualquer caso de adoção, devem surgir no dia a dia — como são crianças maiores, a verbalização ocorre com mais facilidade.

— Pode haver uma idealização muito grande de um projeto de vida para essa criança ou adolescente, e qualquer coisa que fuja desse projeto a pessoa não suporta. Queremos chamar a atenção para a adoção de difícil colocação, mas queremos também que as pessoas reflitam — diz Angelita.

A assistente social destaca que o início da relação pode ser desafiador para todos. É comum os filhos se sentirem inseguros, com medo de serem rejeitados, e por isso precisam de um reforço afetivo dos pais.

— É uma entrega para o outro como a de qualquer pai ou qualquer mãe que se dedica a essa função — acrescenta Angelita.

Priscila encantou a família Nunes

Paralisia cerebral e queimaduras não foram impeditivos para os pais, que adotaram a menina (D) em 2014   Foto: Félix Zucco / Agencia RBS

Depois de seis anos de tratamentos para engravidar, os professores Josiane, 35 anos, e José Filipe Nunes, 36 anos, de Guaíba, resolveram interromper as tentativas e dar início ao processo de habilitação para adotar uma criança. Não colocaram nenhuma restrição quanto a doenças ou deficiências — estavam dispostos a aceitar o filho com qualquer eventual limitação, como se fosse em uma concepção natural.

— Se você gerasse e viesse uma criança especial, a gente ia devolver para quem? — comentou José Filipe, determinado.

Logo o casal foi chamado para conhecer Priscila, então com nove anos. Além de uma paralisia cerebral grave, a menina havia sofrido queimaduras de terceiro grau nas pernas durante um incêndio provocado por uma vela na casa da família biológica. Ao observar fotos, antes mesmo do primeiro encontro, pai e mãe já estavam apaixonados pela filha.

— Sabe uma criança que fala com os olhos? — conta Josiane. — Pensei: "Será que eu vou dar conta?"

Priscila vive com os Nunes desde setembro de 2014. O começo foi conflituoso — a garota levou um tempo até aceitar Josiane como mãe. Hoje com 11 anos, ela tem uma agenda cheia: frequenta aulas de balé e teatro, faz equoterapia, é acompanhada por profissionais das áreas de fonoaudiologia, fisioterapia e psicopedagogia. A melhora é significativa: Priscila toma menos remédios, aprendeu a engatinhar e a dar alguns passos. Apesar de continuar dependendo de uma sonda, já consegue ingerir alimentos pastosos. Priscila não fala, emite sons, mas os pais a compreendem. Com problemas de adaptação na primeira escola onde foi matriculada, a menina hoje é aluna da própria mãe no 2º ano do Ensino Fundamental em outra instituição. Os colegas, na faixa dos sete anos, voluntariam-se para empurrá-la na cadeira de rodas.

— Eles a receberam muito bem. Ela é uma criança muito cativante — diz Josiane, que em sala de aula é chamada de "profe" pela filha.

Priscila foi a primeira a chegar, mas já não é a única. Após a adoção, Josiane engravidou — a gestação foi descoberta pela menina, que botou a mão na barriga da mãe e simulou estar embalando um bebê. Letícia está com um ano e dois meses.

— Acho que me entreguei tanto como mãe para a Priscila que as coisas aconteceram — acredita Josiane. — Mas precisava encontrar a Priscila para depois ter a Letícia. Não consigo me imaginar sem a Priscila. Ela nos ensina a cada dia.

José Filipe costuma reagir com naturalidade aos comentários de quem exalta a iniciativa do casal em aceitar uma criança com deficiência.

— As pessoas acham que fizemos muito. "Olha o que vocês fizeram", dizem. Não fizemos nada. Só queríamos um filho — explica o pai.

Além da sensibilização
Reflexões importantes a serem feitas sobre o processo de adoção:

— Informe-se sobre a existência de grupos de apoio à adoção em sua cidade ou região. A participação nos encontros permite que os pretendentes se preparem para a chegada do filho "real", sem idealizações. A criança ou o adolescente adotados têm uma história prévia, indissociável deles, e a nova família terá de aprender a lidar com isso. As reuniões ajudam a manter o assunto em pauta enquanto os futuros pais aguardam pela chegada do filho.

— Na impossibilidade de frequentar as reuniões de grupos especializados, procure ler bastante sobre o tema ou buscar ajuda profissional especializada.

— Não mude o perfil de criança ou adolescente desejado apenas para tentar acelerar o processo de adoção.

— No caso de casais, é fundamental que os dois parceiros estejam em sintonia sobre o que desejam fazer.

— Não confunda: adoção não é boa ação ou caridade. Adotar é uma outra maneira de ter um filho.

Fontes: Rosi Prigol, presidente do Instituto Amigos de Lucas 

 






 
 
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