The New York Times

Exposição mostra trabalhos de Pierre Gouthière

Por: The New York Times
30/12/2016 - 21h03min | Atualizada em 30/12/2016 - 21h04min

Nova York – Em algumas áreas do mundo das antiguidades, Pierre Gouthière é considerado um dos maiores artistas decorativos franceses do século 18. Para a maior parte das pessoas, ele é pouco conhecido. mas isso pode mudar com "Pierre Gouthière: Virtuoso Gilder at the French Court" (Pierre Gouthière: dourador virtuoso na corte francesa), uma exposição rara e suntuosa de mais de 20 objetos, na Frick Collection.

A exposição é um estudo do ultrarrefinamento com o qual a arte, o artesanato e a invenção conspiram para brilhar. Ela apresenta o homem que levou uma arte menor a um novo patamar nas últimas e decadentes décadas do chamado Antigo Regime. Charlotte Vignon, curadora da Frick, que organizou a exibição, escreve no catálogo que aquela foi uma época em que as chamadas artes menores eram mais representativas da elite da sociedade e de seus valores do que a pintura contemporânea.

Não sendo nem pintor, nem escultor, nem sequer ourives, Gouthière (1732-1813) foi um mestre cinzelador e dourador, uma função relativamente modesta. Ele fazia e frequentemente desenhava elementos de bronze fundido usados para decorar móveis, aparadores de chaminé e vasos valiosos feitos de cerâmica e pedra. Trabalhar o metal envolvia a incisão delicada e o detalhamento do bronze antes da douração, que usava um amálgama de pó de ouro e mercúrio.

Filho ambicioso e talentoso de um mestre seleiro em Bar-sur-Aube, na província de Champagne, Gouthière chegou a Paris bem jovem e começou a trabalhar com artesãos que aprimoraram suas habilidades e o apresentaram a clientes importantes. (Após a morte de um dourador que havia sido seu patrão, Gouthière se casou com sua viúva, o que lhe trouxe vantagens.)

Ele acabou se tornando o profissional mais procurado da época, um dos poucos cujo nome era listado com suas obras em catálogos de leilão. Em seu período áureo, especialmente a partir do final da década de 1760 até o início da década de 1780, teve patronos como Luis XV e Luis XVI e membros de destaque de suas cortes. Era uma época em que a elite francesa fazia encomendas de objetos de luxo, mesmo que nem sempre as pagasse, como se não houvesse amanhã. E não houve mesmo: a Revolução Francesa viria em apenas alguns anos.

As decorações douradas que Gouthière adicionava a objetos diversos aprimoravam sua beleza e também sua capacidade de refletir a luz, algo importante antes da eletricidade. Ele fez bases e capitéis de um colorido requintado e texturizado para antigas colunas escavadas em Roma; suportes folheados de vasos de granito ou alabastro; as bases, bordas e outros complementos que deixaram as já deslumbrantes cerâmicas chinesas ainda mais extraordinárias. Um exemplo é o par de bancos de jardim esverdeados com cobras douradas enroladas no topo e bases que engenhosamente incorporam os assentos, além de três harpias.

Também fez objetos totalmente dourados, mas em geral, as peças mais marcantes são combinadas com pedra ou cerâmica.

Gouthière explorou os contrastes excitantes de acabamentos foscos e luminosos em toda a sua obra. A função das áreas mais brilhantes, como pontos de destaque em uma pintura, era criar um efeito de luz impressionante, destacar as extremidades dos chifres retorcidos de uma cabra ou brotos do loureiro contrastando com as folhas. Esse último aparece em um par de vasos de alabastro especialmente bonito; os ramos de louro fosco, moldados em forma de alças, são tão reais que deveriam balançar ao vento; há também a atraente simplicidade das papoulas.

Os contrastes em superfícies douradas atraem o olhar, revelando o léxico ilustrado de técnicas, padrões, símbolos e motivos. A complexidade se baseia em um tipo de narrativa e também dá inteligência e integridade ao trabalho de Gouthière. As formas naturais vão do realista ao estilizado e o abstrato ou do totalmente dimensional ao alívio dos ornamentos entalhados.

Essas progressões aparecem mais ricamente em uma mesa de canto de mármore azul turquesa que é uma de suas obras-primas e, tendo pertencido anteriormente a J. Pierpont Morgan, foi adquirida por Henry Clay Frick, para seu futuro museu, em 1915.

Diferentes motivos decorativos envolvem as pernas afiladas, que se assemelham a obeliscos invertidos; os ramos de hera em espiral magicamente envolvem duas hastes no entablamento, mas as folhas também se sobrepõem, como aconteceria na natureza. Elas são divididas por um tipo de medalhão vivo, um rosto jovem e pensativo sem gênero determinado, coberto por cachos, adornado com pérolas e videiras e enquadrado por tranças. É uma das mais belas peças da exposição.

A fama de Gouthière não evitou seus problemas financeiros. O Duque de Aumont e a Duquesa de Mazarin, dois de seus mais importantes patronos, morreram no início da década de 1780, ainda lhe devendo uma grande quantidade de dinheiro. Sua situação ficou mais precária por causa dos imóveis: a compra de um grande terreno em Paris, onde começou a construir uma oficina, e duas casas, usando uma sucessão assustadora de empréstimos. Foi forçado a entregar o imóvel e, em 1787, a declarar falência.

Nessas circunstâncias, as peças douradas de Gouthière são como loucuras portáteis feitas para o prazer e a distração de pessoas que acreditavam ter privilégio e dinheiro infinitos.

Essa exposição exemplar revela uma realização artística singular e obras não somente de um virtuosismo deslumbrante, mas de verdadeira gravidade emocional; ela pode também se parecer um pouco com uma orquestra de câmara de Nero afinando suas harpas quando Roma começa a arder.

Informações sobre o evento: "Pierre Gouthière: Virtuoso Gilder at the French Court", até 19 de fevereiro na Frick Collection, Manhattan, Nova York; 212-2888-0700, frick.org.

Por Roberta Smith

 






 
 
Zero Hora No jornal Zero Hora você encontra as últimas notícias sobre esportes, economia, política, moda, cultura, colunistas e mais.