The New York Times

A cada gole, detentos saboreiam uma segunda chance

Por: The New York Times
12/01/2017 - 23h02min | Atualizada em 12/01/2017 - 23h02min

Lecce, Itália – Um de seus primeiros alunos foi um jovem que ele havia prendido quatro anos antes. Outros foram condenados por assalto à mão armada, tráfico de drogas e associação criminosa com a máfia. As salas de aula são equipadas frugalmente, com janelas protegidas por barras verticais e horizontais, embora uma delas tenha pinturas coloridas cobrindo as paredes.

Mas nada disso dissuadiu Marco Albanese, policial há 19 anos e sommelier treinado há cinco, de ensinar a um grupo dedicado as refinadas técnicas de desconstrução do buquê de um Chardonnay ou de servir um vinho raro.

Albanese, de 43 anos, é instrutor de um programa inovador, na penitenciária de Lecce, que ensina detentos a serem sommeliers. Os cursos são parte de um programa que visa passar novas competências profissionais aos presos, além de ajudá-los a desenvolver uma ligação com a região, conhecida pelas suas variedades da uva Negroamaro.

A iniciativa foi adotada com entusiasmo pelos alunos, que degustavam vinhos brancos na tarde da minha visita. Foi também uma revelação para Albanese.

"Eu pude ver o aspecto humano deles quando estavam fora de seu contexto. E não tive que manter a mesma distância, agora que era seu 'professor'", disse Albanese, que trocou seu uniforme policial pelo paletó azul e gravata de sommelier para a aula.

E acrescentou: "Eles também merecem uma segunda chance e é importante que saibam que as instituições acreditam que podem ser educados para uma vida diferente".

Em oito aulas, o grupo de 30 homens e mulheres, que frequentam classes separadas, aprendeu a provar, escolher e servir vinhos locais.

"Esperamos ensinar o valor social do trabalho e a preciosidade de seu próprio território, para que mais tarde possam escolher trabalhar aqui, já tendo a habilidade certa definida", disse Rita Russo, diretora da penitenciária de Lecce, a maior na região da Apúlia. Os presos também podem estudar para conseguir diplomas de ensino médio, aprender a cultivar tomates, ter aulas de teatro ou de alfaiataria.

A aula começa com uma apresentação de slides sobre a história do vinho, explicando como ele era bebido pelos antigos gregos, e apresentando os alunos aos ancestrais romanos dos sommeliers modernos na Itália. Em uma mesa da escola, coberta com uma toalha cáqui, havia copos de vinho prontos para o uso. Três garrafas – uma de Chardonnay, uma de Primitivo e outra de Negroamaro – estavam sobre a mesa ao lado.

Albanese então se dirigiu aos prisioneiros, que se sentavam de frente para ele em banquetas e anotavam as temperaturas nas quais diferentes vinhos têm que ser servidos e como devem ser armazenados em caves. Para encerrar, deu uma dica que agradou a plateia.

"Lembre-se, mesmo que Trump seja um dos convidados do jantar, ainda assim, o Papa tem que ser servido primeiro. O clero vem em primeiro lugar, antes mesmo de chefes de Estado", disse ele, em meio a sorrisos. Os prisioneiros, cujas identidades estão sendo protegidas pela prisão, não foram autorizados a dar entrevistas ou a tirar fotos para este artigo.

Roberto Giannone, que trabalha para a associação local de sommeliers, demonstrou então como abrir uma garrafa, eliminando o invólucro que cobre o gargalo com três cortes, inserindo o saca-rolha e, suavemente, retirando a rolha.

"Depois disso, use um guardanapo para mostrá-lo aos clientes. É uma maneira fácil de ser educado e evitar objeções", disse ele.

Desde a década de 1970, o sistema penal italiano vem se dedicando a reeducar os detentos. No entanto, a falta de fundos para a reabilitação, além da superlotação crônica, significa que milhares de deles não fazem muita coisa durante o dia todo.

Isso fez surgir a ideia de alguns programas inovadores de reabilitação, incluindo um restaurante dentro de uma prisão de segurança média próxima de Milão, em que o trabalho de garçons e cozinheiros é feito pelos detentos, mas acredita-se que a aula de sommelier na prisão Lecce seja única na Itália.

"Claro, cursos de sommelier não podem ser considerados um tratamento, mas educam os presos e criam uma interação social, o que é muito importante", disse Georgia Zara, líder de um programa na Universidade de Turim que oferece mestrado em Psicologia Forense e Criminologia.

As aulas também oferecem uma "ponte entre a cadeia e o mundo exterior, por isso é um pequeno investimento que pode reduzir o risco de reincidência", disse Georgia.

Gianvito Rizzo, de 53 anos, é diretor executivo da Feudi di Guagnano, loja de vinhos local que fornece a bebida para as aulas. Foi ele também quem teve a ideia do curso de sommelier na prisão.

Rizzo propôs que os presos começassem a trabalhar em seus quase 75 hectares de vinhedos no ano que vem; em algumas circunstâncias, certos detentos na Itália podem trabalhar fora das prisões.

"Vejo o vinho de forma democrática. O campo é o oposto de uma cela. Ali você está livre, sente o cheiro da natureza e aprende a cuidar dela. Acho que essa experiência também seria boa para os detentos", disse Rizzo recentemente, enquanto caminhava por seu vinhedo.

Rizzo contou que, quando se formou na escola de Administração da Universidade Bocconi, em Milão, há três décadas, estava "obcecado" por fazer algo para a sua região natal de Salento, na Apúlia – o salto da bota italiana.

Ele se estabeleceu no negócio do vinho e tentava converter os agricultores que cultivavam para uso pessoal ou local em grandes produtores.

Agora, produz 16 diferentes vinhos de uvas cultivadas em vinhedos que ele e dois amigos/parceiros de negócios herdaram de seus pais, somados àqueles que outros amigos lhes pediram para cultivar. Rizzo chama esse esforço colaborativo de seu "primeiro experimento social".

Quando ficou sabendo das atividades para detentos, propôs o curso de sommelier para Rita Russo.

Mesmo não havendo a certeza de que os alunos irão se tornar sommeliers profissionais, a exposição ao mundo do vinho que experimentam nas aulas é muito bem-vinda.

"Eu nem bebo, mas aprendi a sorvê-lo, cheirá-lo e prová-lo. Pode parecer uma coisa pequena, mas significa o mundo para nós", disse um detento, que cumpre pena de 10 anos e a quem foi concedida a permissão para falar anonimamente.

Por Gaia Pianigiani

 
 
 
 
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