The New York Times

A fronteira final na arrumação doméstica: renovar a garagem

Por: The New York Times
10/01/2017 - 21h37min | Atualizada em 10/01/2017 - 21h37min

Holmdel, Nova Jersey – Assim como acontece com muitos proprietários de imóveis, a garagem de Nicholas Teetelli era um desastre, recheada de ferramentas, artigos sazonais e coisas que não precisam ser jogadas fora, mas que já não são essenciais. "Parecia que eu estava em um episódio de 'Hoarders' (Acumuladores). Vivia dizendo a mim mesmo que precisava dar um jeito nela'."

Mas então o fotógrafo artístico se apaixonou por um carro elétrico da Tesla, um modelo de US$ 120 mil que, segundo ele, merecia um lar elegante e moderno como o próprio veículo. Após uma renovação que durou uma semana e custou US$ 22 mil, sua garagem de duas vagas é um modelo perfeito e acolhedor de ordem e eficiência.

"Está superorganizada. É como um sopro de ar fresco", disse, radiante.

Hoje em dia, os proprietários não precisam de uma desculpa como um carro último tipo para organizar a garagem. Depois de reformar a cozinha, os banheiros, dar um acabamento no porão e esbanjar dinheiro no paisagismo e em todos os outros cantos da propriedade, a garagem é o alvo da próxima fronteira de renovação. Considerada durante muito tempo algo que podia ser deixado para depois – um canto frio e bagunçado de passagem – a garagem surgiu como espaço digno de se transformar em modelo.

E, cada vez mais, estão dispostos a gastar grandes somas, contratando profissionais, quer sejam pequenas empresas como a Garage Craft Interiors, que arrumou a garagem de Teetelli, quer sejam franquias nacionais tais como a GarageTek. Ambas fazem parte de um setor que prospera. Normalmente instalam drywall, montam armários personalizados, projetam sistemas de armazenamento que são instalados nas paredes e trocam o piso. Alguns desses podem até ser aquecidos e trazem padrões de pistas de corrida ou logotipos de carros sofisticados, como um Porsche.

É possível arrumar a garagem por alguns milhares de dólares, mas as grandes obras de renovação podem custar mais de US$ 50 mil, e o modelo de luxo, portanto, é prerrogativa dos muito ricos.

"É um exemplo perfeito de consumo conspícuo e da necessidade de se exibir, mas há também a virtude da organização e da limpeza, por isso há uma ligação com a ética de trabalho protestante. Ser organizado mostra que você é um cidadão honesto", disse Elizabeth Currid-Halkett, professora de políticas públicas na Universidade do Sul da Califórnia e autora do livro "The Sum of Small Things: A Theory of the Aspirational Class" (A soma de pequenas coisas: a teoria da classe aspirante).

Paul Greskovich, dono da Garage Craft Interiors, basicamente centra seu trabalho nas rodovias interestaduais 287 e 78 em Nova Jersey, porque, segundo ele, "é onde está o dinheiro de Wall Street".

Começou seu negócio há dez anos, quando era uma novidade. Logo, 18 concorrentes surgiram, embora esse número tenha diminuído desde a crise de 2008.

"Quem gasta muito dinheiro na garagem é aquele que já fez todo o resto da casa e que tem bons carros. São as pessoas que, de repente, percebem que o maior ambiente doméstico é uma bagunça", disse ele.

Corretores de imóveis dizem que uma garagem bem feita pode agregar valor e causar boa impressão em possíveis compradores. Conforme mais e mais garagens recebem tratamento de primeira, os compradores acabam esperando certo nível de requinte.

"Não acho que seja preciso exagerar, como instalar um piso aquecido, mas a garagem é um reflexo do modo em que a casa é mantida em geral. Algumas pessoas pegam os velhos armários de cozinha e os instalam nas paredes", disse Libbe Pavony, corretora imobiliária da Houlihan Lawrence, em Briarcliff Manor, Nova York.

Libbe disse que o aquecimento está ficando cada vez mais popular. "É uma coisa simpática. É ótimo para quem tem um hobby. Para quem trabalha com carpintaria, a garagem é um lugar que será muito usado e o aquecimento pode eliminar correntes de vento na casa."

Alguns proprietários fazem renovações ainda mais ambiciosas, ampliando o cômodo. Quando os carros da família vão deixando de ser veículos utilitários para virar automóveis esporte de grandes dimensões, muitas garagens não comportam dois, muito menos os outros apetrechos da vida no subúrbio, tais como cadeiras de praia e bicicletas, sopradores de neve e trenós. O surgimento de supermercados que vendem por atacado, como Costco e BJ's Wholesale Club, pôs ainda mais pressão sobre esses cômodos, onde os produtos são estocados.

Lauren Hammer, gerente de propriedade na cidade de Nova York, contratou Peter Glass para descobrir maneiras de ampliar sua garagem apertada, em Briarcliff Manor. Ele está adicionando quase um metro de profundidade e removendo a coluna central, o que envolveu a instalação de uma viga de quase duas toneladas no teto para suporte.

"Meu marido e eu temos carros grandes e, se vamos ao supermercado, não conseguimos abrir o porta-malas para descarregar as compras. Sem a coluna central, vai ficar muito mais fácil abrir a porta do carro", disse Lauren.

Lauren não parou por aí. Ela é corredora de maratona, por isso decidiu adicionar uma sala de fitness, onde pode malhar e relaxar após as corridas.

"A ideia é ter meu próprio espaço para alongamento, além de não precisar mais levar minhas roupas suadas para dentro de casa", disse ela.

A empresa de Glass, a Meadowbrook Builders, está trabalhando em duas outras renovações residenciais, incluindo garagens, a uma curta distância da residência de Lauren.

Em um dos projetos, um casal que recentemente comprou uma casa de dois andares queria um sistema de aspiração central e uma pia de piso na garagem para que pudessem lavar os carros e os sapatos antes de entrar. Na outra, um consultor financeiro de 50 anos dobrou o tamanho de sua garagem e instalou um aquecedor de duas zonas para um espaço de trabalho adjacente. Além disso, também encomendou um elevador hidráulico para poder erguer seu Porsche e estacionar outro carro embaixo. (Só o elevador custou US$ 40 mil).

O que parece agradar a alguns proprietários em relação à nova garagem é a noção de que tudo tem seu lugar, quer seja um taco de lacrosse, uma lanterna ou um pneu sobressalente. Teetelli, por exemplo, estava mais animado em mostrar seus novos armários do que seu novo Tesla. Laminados de madeira, eles escondem equipamento de fotografia, malas, capacetes de moto, produtos de limpeza, pilhas, uma panela de pressão e mais de uma dúzia de vidros de molho Williams-Sonoma, que ele admite gostar muito.

Em outra parede, um sistema de armazenamento consiste em barras metálicas que vão do chão ao teto, equipadas com ganchos para bicicletas, cadeiras de pátio, escadas, pás de neve e várias cestas. Nada encosta no chão.

"Ficou bem legal", disse Teetelli, de 58 anos, que também mantém duas motocicletas Harley-Davidson na garagem.

Alguns proprietários deixam de lado os itens caros, como pisos de epóxi e aquecimento, e vão direto para a organização. A Sort It Out, empresa em Scarsdale, Nova York, ajuda na organização da casa. As proprietárias, Mauri Zemachson e Jamie Seslowe, geralmente mostram a garagem de Mauri, mãe de três filhos, a clientes em potencial.

Prateleiras de metal altas exibem apetrechos de jardinagem bem organizados, decorações do Dia das Bruxas, utilidades domésticas como lâmpadas, ganchos e toalhas de papel e equipamentos esportivos variados, incluindo capacetes de futebol americano, de hóquei e de ciclismo. Uma árvore de sapatos conta com 18 pares de tênis. Tudo está etiquetado.

"A maior parte de nossos clientes é de mães que precisam de ordem", disse Mauri. Ela sabe do que está falando.

Por Lisa W. Foderaro

 
 
 
 
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