The New York Times

A química notável entre dois astros da ópera

Por: The New York Times
03/01/2017 - 21h41min | Atualizada em 03/01/2017 - 21h41min

Nova York – Em um recente ensaio no Metropolitan Opera, um clichê se desenrolava no meio de um dueto apaixonado: quando a soprano se aninhou nos braços do tenor, pareceu que a temperatura da sala subiu dois graus.

Casais apaixonados são uma ocorrência relativamente comum na ópera, mas aqueles que transmitem uma paixão real são um pouco mais raros. Os cantores, que às vezes nem falam a mesma língua, se juntam e precisam agir como amantes. Não é de surpreender, então, que muitas vezes a atuação pareça pouco convincente. Porém, Diana Damrau e Vittorio Grigolo, estrelas de uma nova produção de "Roméo et Juliette" de Gounod, que estreou no Met na véspera do ano novo, têm uma química distinta e rara.

Diana, casada com o baixo-barítono Nicolas Testé, e Grigolo, que atuaram juntos pela primeira vez em 2015, rapidamente se destacaram entre as duplas mais ardorosas da ópera (essas com histórico notadamente insignificante).

Em 2015, no Met, como os principais personagens mutuamente destrutivos em Manon, de Massenet, ao demonstrarem seu amor na Igreja de St.-Sulpice, a conexão foi ardente. Mesmo no ensaio, seus duetos são apaixonados, seus beijos febris se tornam simulacros plausíveis daqueles que imaginamos pontilhar relacionamentos reais. Diana e Grigolo claramente adoram a companhia um do outro e acabam algumas cenas rindo, abraçados.

É difícil dizer exatamente o que cria essa química, mas, para eles, a faísca pode ser gerada pela diferença: ele é explosivo, distraído, juvenil, encantador, italiano; ela é absorvente, determinada, madura, calma, alemã. "Ela consegue fazê-lo se concentrar", disse Bartlett Sher, o diretor da produção, durante uma pausa. "Vocês têm que ficar separados", instrui ele em um determinado momento. Mesmo assim, eles acabaram juntos.

Como Romeu e Julieta, Diana e Grigolo terão que se firmar em uma litania de figuras famosas que viveram os dois amantes mais notórios da literatura mundial. Rindo e brincando um com o outro durante uma entrevista no Met, eles falaram sobre o desafio de assumir os papéis, compararam a química ao ato de cozinhar e contaram se seus beijos no palco são reais. Estes são trechos editados.

P: A ópera "Manon" no Met foi seu primeiro trabalho juntos?

Diana: Foi, sim. Nunca havíamos feito nada juntos, nem mesmo um simples concerto.

Grigolo: Queríamos nos casar, mas não deu.

P: Já tinham ouvido falar um do outro antes disso?

Grigolo: Sim, bastante. Ouvi dizerem que ela era loira.

Diana: E eu, que ele era louco.

Grigolo: Quando a vi pela primeira vez, me senti como se estivesse em casa.

Diana: É incrível, porque ele é um grande músico e ator, é flexível. E interage de fato.

Grigolo: Quando digo que me senti em casa, é porque me senti confortável e relaxado. E sempre que você relaxa, consegue se expressar.

Diana: E esse é o momento em que você sente que pode contar com seu colega no palco. Fica muito mais à vontade. Lembra de "Manon", quando tive um acesso de tosse como agora? Estava na igreja, em St.-Sulpice, atrás dele e tossindo. Ele cantava e eu tossia; nunca disse para eu ficar quieta.

Grigolo: Você sente que existe apoio, uma intensidade em comum. Pode se abandonar, pode pensar em fazer algo mais do que o que está escrito na partitura.

P: Essa química entre vocês vem do nada? Foi preciso desenvolvê-la?

Grigolo: Não veio do nada. É como quando você quer fazer um prato na cozinha com bons ingredientes: tomates, abobrinha, peixes. Tudo é muito fresco. Só precisa colocar tudo na panela. Eu, Diana, um bom maestro, um bom diretor: os ingredientes são tão sensacionais que o resultado também tem que ser.

Diana: É verdade.

Grigolo: Você acaba fazendo a coisa certa. Faz de verdade. Nunca fingimos.

Diana: Só fingimos os beijos.

Grigolo: O quê? Eu não finjo. Nunca finjo.

P: Qual é o principal desafio em representar Romeu e Julieta?

Diana: Ambos têm 14 anos. Com muita imaginação, você deve descobrir seus sentimentos e movimentos e isso deve parecer natural e vir naturalmente.

Grigolo: Acho que são o casal apaixonado mais lindo que se pode fazer na ópera.

Diana: Verdade. E há tantas falas! Sem contar que é Shakespeare. É incrível como uma garota de 14 anos é durona, madura, com que clareza vê as coisas e toma decisões. Ela vai até o padre e diz: "Este é meu marido e o senhor vai nos casar". E isso em apenas uma página de música!

P: Como conseguem manter a energia romântica com tanta coisa para se preocupar no palco?

Diana: Estamos começando a ensaiar com a orquestra. Como é minha estreia no papel, então quando a orquestra entra muda um pouco as coisas; obviamente vai tirar um pouco da minha atenção da atuação, faz com que me lembre daquilo que fizemos só uma ou duas vezes e que continuamos mudando. Pode ser um pouco desanimador trazer esse elemento para a atuação. E também há muito nervosismo, mas no final das contas, você diz: "Ah, não! Acabou. Vamos fazer mais uns 10".

Grigolo: Quando a coisa vem fácil, é bom desfrutar o processo, sabe?

Diana: Mas quando a coisa emperra, é como trabalhar em uma fábrica.

Grigolo: É aquele ritmo de Oompa Loompa. (Cantando em ritmo de marcha) "Oompa loompa, Doompadee doo".

Diana: Daí fica muito profissional, muito frio. Quando sinto que faço isso em uma apresentação, acho que é o momento em que tenho que largar meu emprego.

Por Zachary Woolfe

 
 
 
 
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