The New York Times

Adam Driver fala de seu trabalho em "Paterson"

Por: The New York Times
09/01/2017 - 20h56min | Atualizada em 09/01/2017 - 20h56min

  Adam Driver explica que, geralmente durante as filmagens, o elenco e a equipe técnica recebem uma folha com uma descrição resumida das cenas do dia, coisa simples do tipo "homem discute com uma mulher", "homem sai correndo pela rua" e talvez o inevitável "homem é atropelado por um carro".

Porém, no set de "Paterson", retrato de Jim Jarmusch sobre a poesia no papel e na vida, as frases são variações de um tema que engana pela simplicidade.

"Paterson ouve o que Laura diz".

¿Paterson ouve o que Doc diz no bar".

"Paterson ouve a respiração de Marvin".

"Colocar um lance desse num filme é ironicamente audacioso, tipo, a principal ação do personagem é estar presente e ouvir", comenta.

Pode parecer corajoso também, em termos de carreira, atuar como um filósofo hipster para depois assumir um papel em que guarda a maioria das ideias para si mesmo.

Em "Paterson", que recebeu uma enxurrada de elogios no circuito de festivais antes do lançamento comercial, ocorrido em 28 de dezembro (nos EUA), Driver é Paterson, um motorista de Paterson, Nova Jersey, que imagina poemas de cabeça e depois os coloca em um caderno enquanto dirige seu ônibus pelas ruas congestionadas da cidade.

É uma história bela e tranquila, com dois personagens principais, Paterson e sua maravilha de mulher, Laura (Golshifteh Farahani); quer dizer, três, se contar Marvin, o buldogue do casal.

Dividido nos dias da semana, o filme acompanha o ritmo diário de Paterson, desde o momento em que levanta, ao nascer do dia, para recomeçar sua rotina. Um corpo se espreguiça. Um ônibus é conduzido. Um cachorro é levado para passear. A caneta arranha a superfície do papel.

Repete.

"Quis que a vida física dele fosse levada no piloto automático, o que lhe permitia divagar em nome de sua arte", explica o ator de 33 anos que tirou carteira de motorista profissional para fazer o filme.

Porém, acima de tudo, Paterson ouve – o que dizem os passageiros, os clientes do bar aonde vai toda noite para tomar um único copo de cerveja e Laura, a única pessoa que lê suas poesias e insiste para que ele revele o conteúdo de seu caderno ao mundo.

"Você tem que confiar no seu julgamento; tem que achar que é interessante e cinematográfico o suficiente a ponto de sustentar aquela linha de pensamento", diz ele sobre o retrato das nuances da repetição, sutis ao ponto da inércia.

Em uma tarde escura de dezembro, Driver se acomodou em um sofá do Crosby Street Hotel, em Manhattan. Como Paterson, é também um bom ouvinte.

"Na minha cabeça, eu já teria dito 'sim' para qualquer coisa que ele fosse fazer", comenta sobre o momento em que soube que Jarmusch estava pensando em escalá-lo para o papel.

O diretor já tinha visto alguns de seus trabalhos – como o cantor de folk absurdista em "Inside Llewyn Davis: Balada de um Homem Comum", dos irmãos Coen; o garanhão do Brooklyn em "Frances Ha", de Noah Baumbach e o esquisitão sexual Adam Sackler de "Girls", da HBO, a série que o tornou famoso – e ficou fascinado.

"Adorei seu rosto, sua voz, sua forma de atuar; achei que seria ideal. Ele gosta de definir a forma de ação do personagem e parte daí, sem pensar muito", justifica.

E também pesou um detalhe muito importante: Driver é de uma cidadezinha de Indiana, ex-fuzileiro e estudou em Juilliard. O filme de Jarmusch é sobre um sujeito de classe operária que é artista.

"Achei que seria uma combinação interessante", resume Jarmusch.

Driver também atraiu a admiração de Martin Scorsese, que o procurou para oferecer o papel do Padre Garupe, um jesuíta português que, no século XVII, embarca em uma missão ao Japão, em "Silêncio", seu projeto do coração, já em cartaz (nos EUA).

"Adoro o jeito como ele se move, a consciência que tem de si mesmo em relação à câmera. Para o papel de Garupe, eu precisava de alguém que poderia ter vivido naquela época, o que não vale para muitos atores. Já o Adam parece ter saído de uma pintura holandesa, flamenca ou italiana. E também tem uma voz de barítono incrível. É muito talentoso e muito, muito corajoso", escreveu o cineasta por e-mail.

Coragem essa que incluiu emagrecer 23 kg (ele pesa 93,5) durante as filmagens superexigentes nas colinas de Taiwan, onde o clima é quente e úmido, e se submeter a inúmeros mergulhos no mar gélido.

"É claro que todos nós sabíamos da importância de os protagonistas estarem magérrimos e parecerem famintos. E isso não tem jeito de disfarçar, fingir. Os dois trabalharam com uma nutricionista, mas, mesmo assim, foi complicado", revela Scorsese.

Será que Driver, evangélico dedicado (ele é batista), cujo padrasto é pastor, encontrou Deus nesse sofrimento todo?

"Não; ainda não O encontrei", diz, rindo.

Com a mulher, Joanne Tucker, colega da Juilliard com quem se casou, em 2013, Driver dirige a Arts in the Armed Forces, uma ONG que leva o teatro ao Exército.

Os aspectos mais complicados da empreitada – principalmente a arrecadação de fundos – se tornaram mais fáceis depois de ter incorporado o vilão mascarado Kylo Ren em "Star Wars: O Despertar da Força", embora até se arrepie (ou melhor, xingue) diante da perspectiva de esticar o papel em troca de dinheiro.

Com "Star Wars: Episódio VIII" já engatilhado, Driver fez as pazes com a franquia que, a princípio lhe causou verdadeira agitação, se nada mais, pelas "opiniões fortíssimas que despertam os filmes de Hollywood, que também podem ser um desperdício de recursos, inúteis, menosprezando a inteligência do público e sacrificando a história em nome do espetáculo", dispara.

Esses temores, contudo, foram dispersos pela conversa inicial que teve com o diretor de "O Despertar da Força", J.J. Abrams, sobre a história e o personagem, e uma abordagem passo a passo para a solução dos problemas, muito comum no cinema independente.

Ao mesmo tempo brutal, meigo e sexy, a imprevisibilidade de Driver acabou lhe rendendo o trabalho.

"Achei que, com ele no papel, o público não teria como saber o que iria acontecer de um momento para o outro. E esse suspense, esse perigo, era vital no personagem", completa Abrams.

O ator confessa que se ver no olho de um verdadeiro turbilhão publicitário e comercial, com direito a boneco da série "Star Wars" à sua imagem e semelhança, é surreal.

"Nunca tive plano de carreira, como dá para perceber. Quando me formei, meu objetivo era ganhar a vida como ator, mas assim, no teatro. Poder comprar uma casa, usar roupas boas, comprar móveis, isso tudo é doideira... e vem acompanhada da culpa e a impressão de que estou vivendo uma vida totalmente desconectada do resto do mundo."

Quem o conhece diz que não há crítico mais feroz de suas capacidades do que o próprio Driver.

"Ele é inacreditavelmente modesto e superexigente consigo mesmo. Não é um ator que goste de se ver no monitor depois da tomada. Aliás, se depender dele, não vai ver nada do desempenho que teve, o que é realmente uma pena porque com certeza iria gostar", afirma Abrams.

Driver demonstra a mesma relutância em se ver em "Girls", seriado no qual transformou um interesse romântico inconsequente de Hannah, a personagem de Lena Dunham, em um dos personagens mais complexos e importantes do enredo – e, de quebra, redefiniu os parâmetros da beleza masculina.

"Você até pensa que a tomada ficou perfeita, mas para o Adam é totalmente insatisfatória. Uma das razões por que o pessoal gosta tanto de trabalhar ao seu lado é o fato de ele nunca se satisfazer com um "dá para o gasto'", comenta Lena, a criadora da série.

Seis temporadas depois (a última estreia em doze de fevereiro), ela não poderia se sentir mais orgulhosa da ascensão do colega.

"Quando todas as peças se encaixam e a pessoa se torna um astro é a coisa mais linda de se ver", reconhece ela.

Para quem está de fora, Driver pode até ser a bola da vez, mas ele não acredita nesse frenesi todo.

"Para mim não mudou nada", resume, lançando um daqueles olhares penetrantes. E acrescenta: "É um trabalho raro quando serve de inspiração para outras pessoas, mas o resto é só barulho."

Por Kathryn Shattuck

 
 
 
 
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