The New York Times

Arte com lixo, sim; descartável, não

Por: The New York Times
06/01/2017 - 22h05min | Atualizada em 06/01/2017 - 22h05min

Nova York – Claude Monet encontrou inspiração nos montes de feno e nos lírios d'água; Pablo Picasso, nas máscaras africanas; Edvard Munch, em um poema de sua própria autoria.

Já Ron Barron descobriu o estímulo à criatividade na calçada, perto de um hidrante no Lower East Side, em Manhattan, a dez passos da delicatessen onde tinha acabado de almoçar.

O objeto que ele achou na Ludlow Street foi um saco plástico sujo, o primeiro de uma expedição "catadora" que durou duas horas.

Aos 78 anos, ele cria arte com o lixo que recolhe das ruas de Nova York. E manda suas descobertas para casa, em Ohio, onde coloca cada item no scanner que mantém no estúdio e faz basicamente impressões em grande escala.

Barron – que já foi cinegrafista de TV, professor de ensino médio, empresário e produtor da cantora Maureen McGovern – recolheu dezenas de objetos na volta que deu em quatro quarteirões do Lower East Side, na semana passada: uma seringa, alguma moedas, um rótulo que dizia "Compatível com tela sensível ao toque" e um pedaço de fita zebrada para isolamento. Da sarjeta atrás de um BMW veio uma bolsa com o logotipo ainda pendurado na alça; da calçada ao lado de um Nissan Altima, uma casca de laranja.

"Às vezes você sai caminhando e topa com um pedaço da vida de alguém ali bem na sua frente", diz, engatando uma história sobre um maço de papéis com que se deparou uma vez, no Upper East Side. Barron conta que ali no meio havia até o recibo de um elevador invisível para sapato masculino.

Entretanto, seu foco é a arte, e não a arqueologia urbana. E não deixa de ver certa ironia em suas criações.

"Odeio ver gente jogando lixo na rua. É uma falta de consciência sem tamanho. No entanto, lá no scanner fica lindo, ou seja, o meu trabalho é bem contraditório. É bonito de se olhar, mas é feio em si. Não deviam se desvencilhar das coisas desse jeito, em qualquer lugar."

Barron – que não tem nenhum parentesco com este escritor que vos fala – não sai à cata de lixo onde mora, em Ohio. Segundo ele, os entulhos ali não são tão interessantes quanto os de Nova York. Prefere uma caça ao tesouro em Manhattan, incluindo a Quinta Avenida, de frente para a Trump Tower.

Mas não toca os objetos com as mãos nuas; protege uma delas com luva de borracha, semelhante àquela que os médicos usam para examinar os pacientes e os caixas de banco, para contar dinheiro.

Na outra, segura um saco plástico grande, com fecho zip, para guardar o que quer que encontre pelo caminho. Quando se vê cheio, Barron o sela e guarda. Tira a luva e procura uma lata de lixo.

E não calça a outra nem abre o próximo saquinho até encontrar o que quer – e é seletivo. Não recolhe tudo o que encontra nas sarjetas ou gramados por onde passa, não. Na Ludlow Street, por exemplo, pegou um pedaço de borracha, mas acabou devolvendo ao chão. "A cor não é interessante, o formato também não. Vou ter que rejeitar", sentencia.

Ele deu uma volta pela área antes do almoço, esquadrinhando as calçadas, e uma lista começou a se formar em sua mente. "Já sei que no quarteirão ali na frente tem uma seringa hipodérmica que eu quero", anuncia. A única dúvida é saber se ainda estará lá quando voltar, de saquinho na mão.

Barron não é o único que transforma lixo em arte e sai fuçando pela cidade em busca de dejetos com apelo visual. Mierle Laderman Ukeles é uma artista em residência no Departamento de Limpeza Pública da cidade há mais de 35 anos. (Sua retrospectiva, bastante elogiada, continua em cartaz no Queens Museum até meados de fevereiro.)

E não deve ser confundido com Ron Baron, o artista com estúdio no Terminal Marítimo do Brooklyn, cujos trabalhos às vezes incluem objetos encontrados. Em 2013, ele fez esculturas para o Aeroporto Internacional Ted Stevens de Anchorage com itens que recolheu durante a viagem ao Alasca: malas, botas e sapatos de neve, só para mencionar alguns.

"Gosto muito dos trabalhos dele, mas a maioria é escultura e assemblage. É totalmente diferente do meu", diz o Barron com dois Rs.

Suas obras, que transformam lixo em preciosidades, já foram exibidas em galerias em Manhattan e no Brooklyn, entre outros lugares. A exposição em Ohio se chamou "TrashScans". Ali é talvez o lugar em que se percebe por que ele faz questão de não pegar nada das latas de lixo ou dos cestos dispostos nas esquinas.

O Departamento de Limpeza Pública afirma que o que ele faz é legal. "Quem recolhe um item jogado na rua é diferente daquele que pega objetos grandes e pesados de metal, por exemplo. Quando o morador deixa esse tipo de material para ser recolhido, implicitamente se entende que seja de nossa propriedade; é diferente daquele que recolhe o que outra pessoa deixou cair ou jogou no chão", explica a porta-voz Belinda Mager.

A ideia de transformar lixo em arte lhe ocorreu em 2005, quando reparou na embalagem de um chocolatinho de menta, daqueles servidos com café, na Restaurant Row, a quadra da West 46th Street entre a Oitava e a Nona Avenidas. "Percebi que o lixo tinha valor porque é símbolo da cultura do superficial, da irresponsabilidade de quem não está nem aí para o meio ambiente", recorda.

Em 2009, voltou para Ohio, onde pôde montar um ateliê maior do que o de Manhattan e contar com o apoio de Louis Zona, diretor executivo e principal curador do Instituto Butler de Arte Norte-Americana em Youngstown. Zona afirma que Marcel Duchamp teria convidado Barron para ser dadaísta porque "ambos têm a mesma sensibilidade".

"Duchamp apostava no acaso, capturando objetos que não vemos como arte, mas que, num contexto diferente, se revelam artísticos. É claro que o Ron não sabe o que vai encontrar na frente do Lincoln Center se passar por lá amanhã, mas vai se arriscar – e vai ser interessante vê-lo criar uma obra a partir do que quer que seja que estiver lá."

De volta ao Lower East Side, a seringa continuava na calçada onde Barron a tinha visto antes. Ele a colocou no saquinho, com cuidado e saiu, satisfeito, em busca do próximo achado.

Por James Barron


 






 
 
Zero Hora No jornal Zero Hora você encontra as últimas notícias sobre esportes, economia, política, moda, cultura, colunistas e mais.