O futuro nas cartas

Conheça uma das mais requisitadas cartomantes de Porto Alegre

Sandra Inês de Souza Tenório tinha nove anos quando enxergou nos baralhos um infortúnio familiar. O susto deu lugar ao sustento: ao longo de quase seis décadas, ela vem lendo cartas e fazendo previsões

13/01/2017 - 09h30min | Atualizada em 13/01/2017 - 09h30min
Conheça uma das mais requisitadas cartomantes de Porto Alegre Mateus Bruxel/Agencia RBS
No Morro Santana, na Capital, Sandra, 67 anos, recebe gente que sofre por amor, dinheiro ou problemas no trabalho Foto: Mateus Bruxel / Agencia RBS  

A primeira vez foi num final de semana em que a menina de nove anos acordou antes dos adultos, que tinham espichado a noite anterior em rodas de carteado e caipirinha. Ela se entretinha juntando os baralhos usados nas partidas de pife-pafe e escova quando, de repente, os números, naipes, reis, rainhas e valetes dos pequenos pedaços de papel começaram a se fundir, compondo uma história viva como a de um filme.

– Ali eu comecei a enxergar – recorda Sandra Inês de Souza Tenório, hoje com 67 anos, dando ao ocorrido de quase seis décadas atrás o frescor de um acontecimento recente. – Eu vi que uma mulher chegava no portão de casa e chamava pelo meu pai.

Assustada com a experiência que não conseguia compreender bem, a criança foi atrás da mãe:

– Sabia que o pai vai embora de casa?

– Como assim, seu pai vai embora de casa?!

A filha detalhou o que enxergara nas cartas, sem conseguir mobilizar grande atenção. Um mês depois, o vaticínio se cumpriu, e Sandra assistiu à cena em que Joecy, furiosa, recolheu as roupas do marido e as entregou à estranha que aguardava do lado de fora.

– A mulher dele agora sou eu – a amante sentenciou.

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Apesar do infortúnio familiar, e por causa dele, a garota não largou mais os baralhos. Começava ali, informalmente, a jornada de uma das cartomantes mais requisitadas de Porto Alegre, que teria a fama construída no boca a boca, por interessados que formavam filas no quintal e disputavam vaga em uma agenda abarrotada que comportaria até 25 consultas em um mesmo dia – e a levaria a ser contratada para atravessar o país e atender um ministro da República, no anonimato e no conforto do lar.

A aprendiz passou a adolescência sendo solicitada a fazer predições a amigas, primas e tias. Antevia pretendentes, casamentos, nascimentos, mortes e separações. Antes que pudesse custear a vida com o ofício exclusivo de cartomante, conciliou a atividade com outros empregos, como os de operadora de caixa e auxiliar de limpeza. Radicada no Rio de Janeiro, interessou-se pela religião, começando a seguir a umbanda e a nação africana, e passou a manusear também as cartas ciganas.

– Cada vez eu enxergava mais e cada vez eu enxergava melhor. Lia qualquer baralho.

Aos 26 anos, Sandra se apaixonou por um colega no supermercado onde trabalhava. Funcionário do setor de hortifrutigranjeiros, Joemilson cortejava a amada lhe enviando, longe da vista dos chefes, peras e maçãs. Em três meses, casaram-se, ela já grávida do primogênito. O companheiro não levava a sério a habilidade adivinhatória da mulher. Ria, até que a desafiou:

– Então joga aí que eu quero ver.

Ao misturar o baralho e organizá-lo sob a observação desdenhosa de Joemilson, Sandra deparou com o segundo dos três mais marcantes presságios que vislumbraria para si mesma ao longo da vida. Perfilando as cartas, uma a uma, deu-se conta, segundo o que podia interpretar, que estava fadada a repetir a má sorte da mãe:

– Você vai embora. Vai embora por causa de uma mulher loura.

"Besteira", desprezou ele. A jovem rezou para que estivesse enganada, mas em três meses veio a confirmação: Joemilson desapareceu depois de ser visto saindo de casa carregando uma mala. Sozinha com o recém-nascido, Jeferson – mais adiante teria Úrsula, de outro relacionamento –, e devendo meses de aluguel, Sandra teve de manter dois empregos para conseguir sustentar ambos. No pouco tempo livre, a cartomancia começou a render um dinheiro extra. A clientela aumentou com os anos, em vários endereços na capital fluminense, até a volta ao Rio Grande do Sul, onde consolidou o bom nome.

– Criei meus filhos, paguei minhas contas. Dificuldade a gente sempre passa, mas nunca me faltou nada.

Sandra atende apenas quem lhe dá a referência de um conhecido em comum. Para ler as cartas, cobra R$ 50, sempre à vista Foto: Mateus Bruxel / Agencia RBS

"Eu tenho que falar a verdade, não vou ganhar nada se mentir"

Gente simples, remediada e abastada recorre a Sandra, que trabalha em um cubículo de dois por três metros, recorte improvisado em um canto da sala da residência no Morro Santana. O pouco espaço é preenchido por imagens de santos, flores, potes com água e mel, uma alegre cortina de enfeites coloridos, objetos representando os orixás. Uma toalha branca bordada com o nome de Iemanjá cobre a diminuta mesa que separa a anfitriã do visitante por dois palmos de distância. A consulta às cartas, com duração média de 40 minutos, sai por R$ 50 – "pagamento no ato", exige um cartaz, desencorajando pedidos de fiado que volta e meia apareciam. Outros serviços religiosos variam de preço, a depender da complexidade de cada diagnóstico, como encosto ou caminhos trancados. Sandra não recebe estranhos, aceitando abrir a porta apenas a quem lhe der a referência de um conhecido em comum. Quem chega está na encruzilhada de uma decisão difícil, corroído por suspeitas de traição, sofrendo assédio moral ou enredado em dívidas. Via de regra, a cartomante não omite nada do que visualiza no jogo.

– Tem quem sai daqui brabo comigo porque não acredita, não aceita, "eu não vim aqui para ouvir isso", e depois volta para dizer: "O que você falou era verdade" – relata. – O meu compromisso, antes de qualquer coisa, é com Deus e meus orixás. Eu tenho que falar a verdade, não vou ganhar nada se falar mentira. Só falo o que estou vendo. Não estou inventando, eu estou vendo. Tenho a cabeça muito boa. Louca eu não sou.

Há raras exceções para essa total disposição em ser franca, como quando Sandra pressente a morte iminente de quem está a sua frente, o que já ocorreu muitas vezes. A vidente suplica para que a pessoa tome precauções, mas não se acha no direito de lhe dar ciência sobre o próprio fim. Omissões também se mostram necessárias no atendimento a alguns casais. Ela já enfrentou saias-justas com parceiros que, lado a lado, alegavam não ter nada a esconder um do outro. As cartas logo se alinhavam de forma a desdizê-los, sinalizando casos extraconjugais, mentiras e ilícitos diversos.

– Às vezes os homens ficam me fazendo uns olhos... E aparecem encrencas delas também – conta. – Mas não falo, não vou criar desarmonia.

Quanto a tretas de outra ordem, com potencial para prejudicar famílias inteiras, a cartomante é impiedosa. Certa vez, diz ter descoberto o plano secreto de um homem que esperava receber uma quantia polpuda represada em um processo judicial. Até Sandra se beneficiaria da bolada que estava a caminho: em agradecimento a ela e aos orixás, o cliente havia prometido lhe comprar uma casa própria.

Ao botar as cartas para a mulher do homem, também ansiada à espera da dinheirama, a cartomante entreviu o projeto que vinha sendo gestado na surdina.

– Ele quer ir embora daqui – entregou Sandra, arruinando a fuga do Brasil e, consequentemente, dando adeus ao imóvel prometido.

Sobre o risco de graves ameaças à vida, ela reforça o alerta – em um mesmo jogo, ao embaralhar uma e outra vez, as mensagens mais importantes reaparecem em vários momentos. Quando teve como cliente um ministro do governo Fernando Henrique Cardoso (1995-2002), que a visitava às escondidas, de abrigo, chapéu e óculos – em três oportunidades, ela voou até sua mansão em outro Estado –, Sandra recorda ter chamado a atenção para o perigo de acidentes. O político, que contratou a porto-alegrense para prognosticar o andamento de tramas que se desenrolavam em Brasília, acabou sendo vítima fatal de uma ocorrência de trânsito.

Em meio a clientes novatos, existem aqueles cultivados há anos, que seguem à risca os conselhos de Sandra. Leandro Salazar da Cunha enfrentava problemas no trabalho quando a procurou no final da década de 1990. Descrente do poder do baralho, ele resolveu ir devido ao incentivo da mulher. De origem humilde, era um funcionário sem grandes perspectivas de crescimento profissional, e assegura que Sandra desenhou perfeitamente seu futuro: teria a própria empresa e ganharia muito dinheiro. Hoje com 46 anos, bem estabelecido no ramo de acessórios automotivos e orgulhoso do patrimônio conquistado, Leandro não toma nenhuma decisão importante nos negócios sem ouvir a vidente que acabou por se transformar em amiga.

– Acredito naquilo, canalizo minha energia para que aconteça – afirma. – Diversos momentos importantes da minha vida foram previstos por ela. Tem pessoas com uma sensibilidade além do normal que conseguem enxergar, fazer as previsões que nós, reles mortais, não conseguimos. Cada um tem um dom. Acho que é um dom que ela recebeu.

Uma mulher que pede para não ser identificada conta que ouve os prenúncios de Sandra há quase 15 anos. Se está com alguma dúvida ou apreensão, corre até lá – em períodos mais angustiados, chega a ir duas vezes ao mês. Segundo a cliente, a cartomante a encorajou a prestar um concurso e previu sua aprovação. À repórter, a mulher recomenda que também marque uma consulta:

– Memoriza o que ela te disser porque vai acontecer.

Foto: Mateus Bruxel / Agencia RBS

Uma palavra propulsora de movimento ou de fixação

Prática que se disseminou do Oriente para o Ocidente ao longo dos séculos, o jogo de cartas foi incorporado por diversas religiões. Ao Brasil, chegou com os colonizadores portugueses e sempre teve uma presença relevante. Atualmente, segundo a historiadora Sylvana Brandão, professora da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), esse exercício de predição do futuro, a exemplo de outros rituais, vem se reinventando, sobretudo pela facilidade do acesso à informação – é possível solicitar uma consulta online ou frequentar cursos de formação de cartomantes em um final de semana.

– Fundamentalmente, você não quer respostas transcendentais, quer respostas imediatas, que resolvam as coisas no presente. A prática das cartas está se dissociando da religião. Não tem mais a cigana tradicional. Hoje em dia a prática é híbrida. Tem quem ofereça pacotes completos: runas, cristais, florais, cartas – exemplifica Sylvana, organizadora da coleção História das Religiões no Brasil. – Há 30 anos, quem procurava uma cartomante precisava ser muito discreto. Depois começou a se oferecer os serviços nos postes da rua. Hoje não consigo ver as gerações mais novas tendo preconceito. A coisa se naturalizou completamente – completa.

A literatura se serviu da figura da cartomante em inúmeros enredos, muitos deles refletindo o ceticismo de seus autores – Clarice Lispector, no romance A Hora da Estrela, e Machado de Assis, no conto A Cartomante, não só apresentaram suas personagens proferindo antevisões furadas como conceberam desfechos trágicos para desmenti-las. No texto machadiano, Camilo apela à leitora de cartas em um momento de nervosismo – está se dirigindo à casa do amigo Vilela após receber um bilhete que denota urgência mas não dá detalhes: "Vem já, já, à nossa casa; preciso falar-te sem demora". Amante da mulher de Vilela, Camilo havia decidido rarear as visitas ao casal depois que cartas anônimas o chamaram de "imoral e pérfido" e deram por certo que o romance sorrateiro era do conhecimento de todos.

A caminho do encontro, temendo a motivação misteriosa que o aguarda, o protagonista decide parar para um aconselhamento rápido. A personagem do título lhe adivinha as inquietações, fala do amor que o conecta a Rita e pede que ele não tenha medo, "nada aconteceria nem a um nem a outro; ele, o terceiro, ignorava tudo". Agradecendo por ela lhe ter restituído a paz ao espírito, Camilo se despede e paga cinco vezes o preço habitual do serviço. No destino, Vilela convida Camilo a entrar e o leva até o corpo inerte e ensanguentado de Rita. Em seguida, o anfitrião o segura pela gola e desfere dois tiros de revólver.

Doutora em Literatura Brasileira, a psicanalista Lucia Serrano Pereira, membro da Associação Psicanalítica de Porto Alegre (Appoa), destaca um componente do desfecho da ficção também presente nas histórias da vida real: um certo encantamento da parte de quem procura a cartomante.

– O Camilo acredita na primeira coisa que é dita. Ele está morrendo de medo e se entrega, aí a cartomante diz o que quer. Ele sai da cartomante achando que está num oásis – comenta Lucia. – Não existe essa dimensão do saber sobre o outro. O que existe é um fascínio que aliena, esse fascínio com que a gente pode se enganar achando que algum lugar detém o saber total.

Lucia, por outro lado, não invalida a iniciativa de quem procura respostas em cartas, búzios ou i ching. Somos, descreve a psicanalista, seres desamparados e sem garantias, necessitados de suporte.

– O que vai importar? Se aquela palavra vai ser propulsora de movimento ou de fixação. A cartomante afirma que vou fazer um encontro amoroso e que ele está chegando. Se isso vai me ajudar a ir buscar o encontro, eu vou estar me movimentando em direção a isso, constituindo um caminho, e isso vai animar uma construção. Ou eu posso ficar esperando numa posição de paralisia, coagulada, onde só preciso ser encontrado por um destino já traçado, fico quietinho porque já está escrito nas estrelas. O que importa é como quem pergunta pode empreender o caminho e como a leitura de uma predição vai ser decifrada – explica.

Baralho cigano: a chave representa a abertura dos caminhos, o sol indica vitória, e os pássaros simbolizam união Foto: Mateus Bruxel / Agencia RBS

Notícia de morte na própria família prevista no jogo para uma amiga

O terceiro dos maus pressentimentos marcantes de Sandra, depois do sumiço do pai e do marido, referiu-se a uma morte. A predição irrompeu num solavanco, intrometida, enquanto ela colocava as cartas para uma amiga em uma noite do outono de 1993.

– Dona Teresinha, essas cartas não estão saindo para a senhora. Estão saindo para mim! – constatou, estupefata.

– Como assim, saindo para você? Bebeu?

– Não, Dona Teresinha. Eu estou me vendo! Vai chegar uma notícia de morte aqui na porta da minha casa! É para mim! – horrorizou-se a cartomante.

Na manhã seguinte, ela preparava o almoço para os filhos quando um menino trouxe o recado: Joecy, mãe de Sandra, havia morrido no Hospital de Pronto Socorro. O táxi em que viajava sofrera uma colisão, e ela não resistiu aos ferimentos.

Por acreditar que só enxerga "coisa ruim que acontece ligeiro", Sandra não abre as cartas para si mesma faz anos. Quando precisa de orientação, procura a madrinha de santo, que lida com búzios.

– Me sinto hoje em dia uma pessoa feliz. Tenho saúde, me levanto todos os dias, tenho meus filhos que não me incomodam, são filhos maravilhosos, só tenho orgulho deles. Tenho o meu trabalho, acho que é um trabalho que ajuda muita gente a tomar uma decisão para o lado melhor. Sou um pouco psicóloga.

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Sandra nunca teve vergonha da profissão, mas procurou não se expor sem necessidade devido ao preconceito. Ao preencher fichas de cadastro em lojas, optava por informar outras ocupações que teve na vida, receosa de não ser autorizada a realizar compras no crediário. Jeferson Tenório, 39 anos, o filho mais velho, lembra que na infância não falava aos amigos sobre a ligação da mãe com a religião africana e também mentia quando precisava preencher papéis. Escritor e professor de português e literatura, ele se prepara para lançar o segundo livro, Estela sem Deus, que tem uma das narradoras inspirada em Sandra. Ela está lendo os originais:

– Me sinto lisonjeada. Está muito bom.

O que a cartomante disse para a repórter

Sandra: "O jogo de carta é como na vida: tem coisa boa e tem coisa ruim, tem tempo de sol e tem tempo de chuva" Foto: Mateus Bruxel / Agencia RBS

Numa tarde de dezembro em que a sensação térmica em Porto Alegre se atreveu a encostar nos 45ºC, Sandra me conduziu a sua saleta sem janelas para uma sondagem ao baralho. Sobre um pires, acendeu uma vela amarela que parecia intensificar o calor, rogando a proteção e a clareza das entidades ciganas. Antes de começar, prestou um esclarecimento, mostrando cartas comumente traduzidas como a representação dos piores agouros: a cobra, o rato e o caixão, alertou, não podem ser vistas isoladamente. Precisam ser interpretadas como parte de um contexto, em que se avaliam também as figuras posicionadas ao redor.

– O jogo de carta é como na vida: tem coisa boa e tem coisa ruim, tem tempo de sol e tem tempo de chuva – definiu.

A cartomante, que diz ver e ouvir interferências de espíritos, embaralhou o bolo de cartas coloridas e pediu que eu o dividisse em três partes, logo dissolvendo-as em fileiras. As primeiras previsões saíram em um jorro, um discurso quase sem pausas com uma voz resoluta ditando as profecias:

– Você tem uma proteção muito grande de Oxum. Iemanjá é quem te protege na vida amorosa. Oxum vai trabalhar muito na sua vida profissional. Você vai conseguir ainda chegar num lugar muito bom. Vai ter uma pessoa na sua vida, que você vai conhecer ainda, uma pessoa do meio onde você trabalha, e através dessa pessoa você vai conseguir uma coisa muito boa, boa mesmo, que vai te realizar muito. Ainda tem uma mudança muito boa que vai acontecer na sua vida, mudança profissional. Vejo que você vai ter umas dificuldades no ano que vai entrar, no lado amoroso, umas coisas que não vão ser boas. Tem umas viagens marcadas para você. Uma viagem vai ser uma coisa boa, de progresso. Você vai precisar se cuidar muito com gente falsa em volta, muito cuidado. Iemanjá te protege muito. Vai ter problema de saúde, não para você, mas na sua família vai ter.

Perguntei se seria grave.

– Não é nada que vai morrer, tá? Deixa eu olhar para ti – solicita, fitando a interlocutora. – Não é nada de morte, mas é coisa séria.

Nas rodadas seguintes, surgiram mais detalhes sobre os tópicos principais, que acabavam sempre por reafirmar o que fora dito previamente. Uma mesma recomendação ia e voltava:

– Procura fazer como o leão: dormir com um olho aberto e outro fechado. Não confia demais nos outros.

Uma guinada de rumo impensável despontou em meio a amenidades.

– Vou te falar uma coisa e não quero que você fique impressionada, tá? Não vai ficar? – indagou Sandra. – Não, então não vou te falar – hesitou.

Revelada a novidade, acrescentou:

– Mas vai ser lá na frente, bem mais na frente. Talvez eu nem esteja mais viva. Tudo tem seu tempo.

Sopesados reveses e êxitos, prevaleceu a bonança. Insisti para saber se alguma ruindade da qual eu devesse me precaver havia sido ocultada. Ela garantiu que o novo ano será melhor do que 2016.

– Você vai durar muitos anos. Não vou te dizer que é bom ficar velho. Não é, mas a gente quer viver, né? – ponderou. – Que mais você quer saber?

Busquei R$ 50 na bolsa, pensando que ela talvez não aceitasse por eu estar ali a trabalho, em condições peculiares. A vidente pegou a nota e agradeceu.

– Não se pode dever nada para cigano. Se ficar devendo, ele tira de você e tira de mim também.

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