Verão

Febre nos anos 1980, fliperamas resistem apesar da pouca clientela nas praias do Litoral Norte

ZH foi a algumas das casas de jogos eletrônicos que restaram na região para contar suas histórias e conhecer quem ainda as frequenta

Por: Jéssica Rebeca Weber
06/01/2017 - 22h06min | Atualizada em 06/01/2017 - 22h08min
Febre nos anos 1980, fliperamas resistem apesar da pouca clientela nas praias do Litoral Norte Isadora Neumann/Agencia RBS
Foto: Isadora Neumann / Agencia RBS  

Pelo menos para a gurizada, o fliperama já foi uma das coisas mais importantes da praia — se bobear, no mesmo nível do sol ou do mar. Era sagrada a existência das máquinas com jogos de corrida, tiro e luta no centrinho, hipnotizando jovens dispostos a torrar a mesada em fichas.

— Chegava a ter um fliperama por quadra, às vezes um do lado do outro. A gente ficava vagando por eles — lembra Michel Bohn da Silva, 35 anos, que conheceu e se apaixonou por arcades aos sete anos no antigo boliche de Capão da Canoa, imóvel que deu lugar a um edifício comercial e residencial.

A popularização de computadores e de consoles poderosos de videogame é elencada como a grande vilã do ramo. Os fliperamas de rua já estão em extinção na Capital (o tradicional Flíper do Chinês fechou há um ano) e alguns têm uma vida difícil no Litoral Norte. Michel, que é dono de um pub com uma espécie de museu de consoles em Canoas, acredita que esses poucos resistem em função de boa parte dos veranistas não ter na praia a tecnologia que tem em casa.

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Um dos fliperamas mais antigos do Litoral Norte fica em Atlântida Sul e completa 36 anos em 2017. O Fliperama Scorpion tem algumas "modernidades", como a máquina de simulação de dança Pump It Up (que faz sucesso nas praias desde 2002). Mas o local segue com cara de anos 1980. Além do design das máquinas e dos jogos com pixels em evidência, um detalhe revela a longevidade dos arcades: alguns ainda têm fixado entre os botões um cinzeiro enferrujado.

O ponto da Avenida Paragassu foi o primeiro de 40 abertos pela família de Thiago Jorge de Oliveira, 31 anos, no litoral e na Região Metropolitana. Agora, é também o último.

Os espaços que tinham em municípios como Imbé, Tramandaí, Cidreira, Balneário Pinhal e Capão da Canoa fecharam nos últimos anos. Além da concorrência dos computadores e videogames, alguns dos fliperamas menores foram encerrados por causa de assaltos, e Thiago relata que o custo de conserto e de peças também dificulta o negócio.

— A minha vida inteira foi dentro do fliperama, eu sou um apaixonado. A gente nunca fechou um até que ficasse inviável manter. Mas a renovação do público está cada vez menor — afirma.

Impacto da crise e da tecnologia

Na pequena lancheria de Vilson de Oliveira, 70 anos, na praia de Santa Terezinha (Imbé), ursinhos de pelúcia parecem aguardar há anos atrás dos vidros de uma daquelas máquinas de gancho, enquanto duas de corrida Cruis'n USA e outros arcades clássicos só servem para ocupar espaço. Sem parecer se preocupar, o dono afirma que as máquinas, adquiridas com o estabelecimento há oito anos, estão estragadas e que não encontrou ninguém para consertá-las.

— (Os fliperamas) vão desaparecer, e vai ser rápido — opina Vilson, relatando que seus netos "não querem nem saber disso aí".

Se não bastasse a baixa em função do avanço da tecnologia, até mesmo a crise afeta o ramo. Pelo menos é o que alega Paulo Cardoso, gerente de um fliperama que existe há 23 anos em Mariluz.

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— No ano passado, já tinha crise e, nesse ano, piorou. A gente tira por volta R$ 350, R$ 400 por dia, tem dia que dá mais e dia que não dá nada. O ideal seria tirar mais de R$ 500, R$ 600. Mas é difícil, não se faz mais isso nem morto — diz o gerente do Magic Master, que também tem máquinas desligadas aguardando manutenção.

Paulo aponta para uma mudança no perfil do cliente: destaca que há mais adultos do que crianças comprando fichinhas. Levar os filhos Jardel Filho, 11 anos, e Kadu, seis anos, para poder jogar com eles é a tática do comerciante Jardel Luiz Silveira da Silva, 36 anos, que veraneia em Mariluz desde criança. Para alegria do pai, os guris acabaram gostando.

— Se deixar, ficam aqui a noite toda — conta a mãe do meninos e mulher de Jardel, Arlita Dada, 35 anos, auxiliar de escritório.

O primogênito observa que os jogos são limitados, mas vê neles algo que os seus PlayStation 2 e Xbox 360 não têm:

— Eu gosto do gráfico antigo também. Meus amigos, não. Eles preferem os modernos.

Outros que frequentam um fliperama em Torres com a desculpa de entreter a prima de 10 anos são os irmãos Daiana Cristina Rech, 31 anos, e Dieison Rech, 25 anos.

— Eu não esperava voltar a jogar, mas começamos a reviver a infância. Acabou que estavam os adultos dançando e ela de fora olhando — ri a administradora, que já frequentava o mesmo flíper aos nove anos de idade.

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Ponto de encontro para novas amizades

Muitas amizades se formaram enquanto crianças e adolescentes gastavam o dedo nos botões de flípers. E parece que essa vocação agregadora não se perdeu com o tempo. Boa parte dos amigos que o estudante Lucas Batista Marques, 17 anos, fez em Atlântida Sul, onde reside há três anos, conheceu junto à máquina de King of Fighters. Amigos daqueles de mesclar as iniciais no ranking de pontuação.

— Nós marcamos de nos encontrar aqui e às vezes passamos o dia. É bem irado jogar de dois — conta o jovem, que frequenta o fliperama porque se diz amante da "old school".

Lucas costuma comprar umas quatro fichinhas para jogar Marvel vs. Capcom e sinuca. A diversão custa R$ 10, gasto que ele e o amigo João Gabriel ainda dividem.

Investimento em interatividade

Para se manter, os fliperamas que resistem investem em outros brinquedos, que não os tradicionais arcades. As mesas de air game estão entre as mais requisitadas nos pontos visitados.

Essa também é a tática dos fliperamas de shopping. Destoando dos pontos tradicionais, no Shopping Lynemar, em Capão, a maior parte das máquinas tem uns cinco anos, com design moderno e muitas lâmpadas LED. Até mesmo a mesa de pebolim ganhou nova roupagem, com jogadores gorduchos de olhos azuis.

Rogério Melo, 30 anos, filho do dono, conta que a família entrou no ramo há dois anos, já ciente de que o mercado apresenta baixa. Para manter o negócio, apostam em brincadeiras com interatividade.

Um dos investimentos é uma máquina que tem na frente da tela uma pequena moto na qual a criança se senta para simular a corrida — que, mesmo sendo usada, custa R$ 30 mil. Outro aparelho que chama atenção tem uma arminha que espirra água.

O filé mignon de Torres

Entrar em um fliperama pode dar a sensação de voltar no tempo. Não por menos, o Buddy Games, aberto desde 1985 na Rua Julio de Castilhos, em Torres, tem peças que poderiam estar em um museu.

O "filé mignon", de acordo com o dono, Sérgio Budde, são os arcade dos Simpsons, de 1991, e das Tartarugas Ninjas, de 1989. Em um canto do prédio, com suas luzes histéricas e risada eletrônica malévola, tem também uma pinball da Gottlieb de mais de 30 anos.

O último dos fliperamas "à moda antiga" da cidade também tem os clássicos de corrida Cruis'n Usa, de 1994, da Nintendo, e máquinas estampadas por imagem do Sonic e do Wolverine, com centenas de jogos. Elas perdem para a máquina de dança em popularidade, mas vencem em personalidade.

— Os antigos são os que cativam mais — diz o veranista Diego Welsbacher, 24 anos, que curte os simuladores de corrida.

A ficha para qualquer brinquedo custa R$ 5.

Foto: Arquivo / Agência RBS


 






 
 
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