The New York Times

O champanhe dos grandes produtores continua sendo bom 

Por: The New York Times
04/01/2017 - 22h10min | Atualizada em 04/01/2017 - 22h10min

Há pelos menos quinze anos, vem crescendo muito o interesse no chamado "champanhe de produtor", vinho feito por pequenos proprietários que cultivam as próprias uvas, e isso mudou a ideia preconcebida do que devem ser os vinhos regionais.

Eles provaram que o champanhe pode ser uma expressão diferenciada de um lugar, como qualquer outro bom vinho, em vez do produto homogêneo retratado em tantas campanhas publicitárias, composto para refletir o estilo de uma casa, anos após ano, por mestres de adega habilidosos. O movimento conseguiu jogar um pouco de terra dos vinhedos sobre a imagem sofisticada e urbana da bebida, redirecionando a narrativa da adega e levando-a de volta à fazenda.

No geral, a iniciativa foi um tremendo benefício para Champanhe, injetando uma energia mais que necessária à região, melhorando enormemente a qualidade geral e recuperando a ideia de que champanhe é um vinho e não apenas um objeto de luxo e símbolo de status.

Porém, conforme a versão do produtor foi ganhando mais espaço, o fenômeno acabou tendo uma consequência pela qual ninguém esperava: a rejeição em massa do champanhe feito pelas grandes casas, de repente considerado sem graça e indigesto.

Em muitos restaurantes que tratam a adega com mais carinho, a seleção de champanhes de produtor cresceu significativamente nos últimos dez anos, enquanto os rótulos das grandes marcas ficaram reduzidos a um ou dois, quando presentes. Da mesma forma que os sommeliers vanguardistas começaram a ignorar o Bordeaux, dez anos atrás, os profissionais de hoje tendem a ignorar os champanhes mais famosos.

Vou ser mais claro: isso não é uma coisa boa. Sempre estive entre os defensores mais ferrenhos do champanhe de produtor; comecei a escrever sobre ele em 2003. Nessa época, meu objetivo era abrir a mente das pessoas para uma outra concepção da bebida, jamais para encorajar um tipo diferente de preconceito.

Mas parece que foi exatamente o que aconteceu. E o resultado é que o consumidor está perdendo opções maravilhosas que, por serem produzidas por nomes famosos, não estão mais de acordo com o que dita a moda.

Essa rejeição deriva, em parte, de duas generalizações amplas: a primeira, de que esses rótulos são basicamente instrumentos de publicidade e de lucro, resultados de uma agricultura negligente e produção de rotatividade para satisfazer apenas àqueles que administram as corporações donas das vinícolas. A segunda, de que o verdadeiro champanhe vem só de vinhedos pequenos, cuidadosamente tratados, e oferece uma caracterização regional distinta.

A primeira é um exagero óbvio. Embora muitos nomes famosos, como Charles Heidsieck, Krug e Ruinart, sejam de propriedade de conglomerados, outros, como Billecart-Salmon, Philipponnat e Taittinger são empreendimentos familiares. De qualquer forma, as críticas têm lá razão de ser.

Durante muitos anos, as grandes marcas praticamente não tinham concorrentes e, consequentemente, poucas razões para investir em uma viticultura cuidadosa, especialmente com as garrafas não safradas, de rótulo sem histórico. Algumas delas nem mesmo fabricavam todo o vinho que vendiam, complementando a produção com a compra de volumes gigantescos de champanhes de cooperativas agrícolas, mas colocando seus nomes nas garrafas.

Isso ainda acontece e é lamentável – mas se sempre foram conscienciosas e forçadas a seguir o exemplo dos produtores, muitas marcas famosas hoje estão oferecendo champanhes excelentes e diferenciados, mesmo no nível de base. São deliciosos, de ótima qualidade e devem ser prestigiados.

Em relação à ideia de que todo champanhe de produtor oferece um caráter regional inequívoco, isso nem sempre é verdade, principalmente para os rótulos iniciais. Podem simplesmente ser blends de uvas cultivadas em diversas comunas e de várias cepas diferentes. E também podem ser deliciosos.

Mesmo assim, os melhores champanhes de produtor de base raramente terão a profundidade e a complexidade que se encontra em , digamos, um Brut Réserve Charles Heidsieck, um dos meus champanhes não safrados favoritos: vibrante, energético e complexo de uma forma que pouquíssimas vezes se vê na faixa de preço entre US$45 e US$60.

Por que o Heidsieck é tão bom? Para começar, não é feito simplesmente de um blend de vinhos de várias aldeias diferentes, mas também inclui uma combinação de vinhos mais antigos de 40 por cento, o que contribui para sua complexidade.

Por causa de uma transparência admirável no rótulo, sei que a minha garrafa foi levada para a adega em 2009 e só foi escoado em 2015, o que lhe deu seis anos de envelhecimento, intervalo mais longo do que o de muitos champanhes de safra. São poucos os produtores que têm uma reserva consistente para criar blends tão intrincados ou meios de manter as garrafas por tanto tempo.

Vou esclarecer outra coisa: embora a presença dos produtores tenha aumentado, ainda representam uma pequena fração do champanhe consumido nos EUA. Em 2015, eles enviaram 1,1 milhão de garrafas para o país, quase o triplo do volume mandado em 2003; as grandes casas exportaram 18 milhões, mais ou menos o equivalente a 2003, de acordo com o Comité Champagne, grupo que promove os vinhos da região.

Como acontece no movimento da cervejaria artesanal, a influência dos produtores supera, e muito, sua verdadeira presença no mercado. E sua popularidade crescente forçou as grandes marcas a se concentrar mais na viticultura.

Louis Roederer, uma casa que produz só vinhos de alta qualidade, hoje possui uma grande fatia das vinícolas que usa: cerca de 240 hectares, praticamente todos cultivados orgânica ou biodinamicamente. Somente seu Brut Premier não safrado é feito com uma porcentagem de uvas não cultivadas na propriedade. Independente disso, é elegante e harmonioso, além de refinado.

Em relação aos outros vinhos, adoro o rosé ágil e preciso de 2010, o blanc de blancs salino de 2009 e o Brut Nature de 2009, intenso e energético. E o Cristal, topo de linha, é sempre uma grande opção.

Em todas as categorias há vinhos bons e ruins; o segredo é valorizar a diversidade de estilos e ser seletivo em cada uma.

Com o champanhe isso significa aproveitar tanto as expressões distintas e inconstantes dos produtores e a profundidade complexa oferecida pelas grandes casas. Ninguém tem que gostar de todos os tipos de vinho, mas quando se trata de um gênero como o champanhe dos grandes produtores, com uma base histórica de complexidade e muitas conquistas, ele simplesmente não pode ser ignorado.

Por Eric Asimov

 






 
 
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