Stonehenge amazônico

Pedras descobertas no Amapá estão mudando visões de arqueólogos sobre a história da Amazônia

Localizadas perto do Rio Rego Grande, as pedras do sol dão pistas sobre como os povos indígenas da Amazônia podem ter sido muito mais sofisticados do que acreditavam os arqueólogos no século 20

Por: The New York Times
14/01/2017 - 03h02min | Atualizada em 14/01/2017 - 15h56min
Pedras descobertas no Amapá estão mudando visões de arqueólogos sobre a história da Amazônia Dado Galdieri/The New York Times
Foto: Dado Galdieri / The New York Times  

*Por Simon Romero, The New York Times

Como capataz de uma fazenda de gado nos confins da Amazônia brasileira, Lailson Camelo da Silva estava derrubando árvores para transformar a floresta tropical em pasto quando deparou com um arranjo bizarro de imensos blocos de granito.

– Não tinha ideia que estava descobrindo o Stonehenge da Amazônia – afirmou Lailson, 65 anos, aludindo ao célebre sítio arqueológico no Reino Unido. – Isso me faz pensar: que outros segredos sobre nosso passado ainda estão escondidos nas florestas do Brasil?

As descobertas em Calçoene (no Amapá), junto com outros achados arqueológicos no Brasil nos últimos anos – que incluem gigantescas esculturas de terra, vestígios de assentamentos fortificados e até mesmo complexas redes de estradas –, estão mudando visões anteriores dos arqueólogos que acreditavam que a Amazônia havia sido relativamente intocada pelos humanos a não ser por pequenas tribos nômades. Agora, alguns pesquisadores afirmam que a maior floresta tropical do mundo era muito menos parecida com o Éden do que foi imaginado, e que a Amazônia tinha uma população de até 10 milhões de pessoas antes das epidemias e da matança em larga escala conduzida pelos colonizadores europeus.

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Localizadas perto do Rio Rego Grande, as pedras do sol dão pistas sobre como os povos indígenas da Amazônia podem ter sido muito mais sofisticados do que acreditavam os arqueólogos no século 20. Após realizar um teste de radiocarbono e fazer medições durante o solstício de inverno, os pesquisadores da arqueoastronomia determinaram que uma cultura indígena arrumou os megálitos (pedras gigantes) em forma de observatório astronômico cerca de mil anos atrás, ou cinco séculos antes do início da conquista da América pelos europeus.

– Estamos começando a remontar o quebra-cabeça da história humana na Bacia Amazônica – afirma Mariana Cabral, arqueóloga da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) que, junto com o marido, o também arqueólogo João Saldanha, estuda o sítio de Rego Grande há uma década.

No século 19, o zoólogo suíço Emílio Goeldi viu os megálitos em uma expedição pela fronteira do Brasil com a Guiana Francesa. Outros pesquisadores, entre eles a pioneira da arqueologia americana Betty Meggers, também encontraram esses sítios, mas afirmaram que a Amazônia era muito inóspita para abrigar assentamentos humanos complexos. Lailson viu o sítio pela primeira vez quando estava caçando porcos selvagens, na adolescência, nos anos 1960, mas depois passou a evitar a área.

– No início, o lugar parecia sagrado, como se não devêssemos estar lá. Mas foi impossível não vê-lo durante os grandes desmatamentos dos anos 1990, quando a prioridade era queimar as árvores – conta o ex-capataz, agora guardião do sítio de Rego Grande.

Cerca de 10 anos atrás, após garantir fundos públicos para isolar as pedras, os arqueólogos brasileiros liderados por Mariana Cabral e João Saldanha começaram a escavar o sítio, que tem a forma de um círculo. Eles logo identificaram um pedaço do rio a 3,2 quilômetros de distância de onde os blocos de granito podem ter sido retirados. Também encontraram urnas de cerâmica que sugerem que pelo menos parte do sítio de Rego Grande pode ter sido um cemitério. Colegas do Instituto de Pesquisa Científica e Tecnológica do Amapá descobriram que uma das pedras altas parecia estar alinhada com o caminho do sol durante o solstício de inverno. Uma teoria é de que Rego Grande pode ter servido para funções cerimoniais e astronômicas conectadas com os ciclos da agricultura ou da caça. Outros pesquisadores afirmam que é necessária mais informação para alçar o sítio ao reino de lugares pré-históricos claramente concebidos como observatórios astronômicos.

– É preciso mais do que um círculo de pedras para ser um Stonehenge – diz Jovita Holbrook, pesquisadora de Astronomia Física e Cultural da Universidade do Cabo Ocidental da África do Sul.

Por enquanto, Rego Grande, que os locais chamam de Stonehenge Amazônico, permanece enigmático. John McKim Malville, físico solar da Universidade do Colorado (EUA), enfatizou que o foco da arqueoastronomia está deixando de ser exclusivo sobre o campo – olha-se também para interpretações mais holísticas, como cerimônias e rituais de culturas antigas. Nesse sentido, o sítio de Calçoene oferece um vislumbre intrigante do passado da Amazônia.

– As pedras de Rego Grande são extraordinárias, e sua irregularidade pode conter um sentido próprio, diferente de outros sítios megalíticos do resto do mundo – diz Malville, levantando a possibilidade de que Rego Grande reflita a importância do animismo (a atribuição de alma a entidades da natureza e a objetos inanimados) nas culturas da Amazônia. – Podemos apenas especular o que essas pedras significam.

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