The New York Times

A maneira certa de pedir desculpas

Por: The New York Times
15/02/2017 - 20h13min | Atualizada em 15/02/2017 - 20h13min

A maioria das pessoas pede desculpas muitas vezes ao dia para inúmeras afrontas triviais: esbarrar acidentalmente em alguém ou deixar de segurar uma porta aberta. Essas são fáceis e geralmente prontamente aceitas, muitas vezes com uma resposta como "Tudo bem".

Mas quando a desculpa é necessária para reparar palavras, atos ou omissões verdadeiramente dolorosos, pode ser algo difícil de ser dito. E, mesmo quando um pedido é feito com a melhor das intenções, pode acabar seriamente prejudicado pela maneira com que é formulado. Em vez de mitigar a dor emocional causada pela afronta, um pedido de desculpas mal verbalizado pode resultar em raiva e antagonismo duradouros e minar um relacionamento importante.

Admito que a vida inteira a admissão da culpa para mim foi um desafio, especialmente se achasse que estava certa, se me sentisse incompreendida, ou se acreditasse que a parte ofendida estivesse sendo sensível demais, mas, recentemente, descobri que a necessidade de um pedido de desculpas tem menos a ver comigo do que com a pessoa que, por qualquer motivo, se sente ofendida por algo que eu disse ou fiz – ou não conseguiu fazer –, independentemente de minhas intenções.

Aprendi também que, quando sincero, um pedido de desculpas pode ser um remédio poderoso com valor surpreendente para quem o faz e para quem o recebe.

Depois que fiquei sabendo que um vizinho que havia me agredido verbalmente estava furioso com um descuido que eu não sabia que havia cometido, escrevi-lhe uma carta na esperança de desarmar a hostilidade. Sem me justificar, pedi desculpas por meu lapso de etiqueta e respeito. Disse que não estava pedindo nem esperando perdão, apenas que gostaria que tivéssemos uma relação civil e amigável dali para frente e entreguei a carta com um pote da minha geleia caseira.

Sem esperar nada em troca, fiquei muito aliviada quando minha campainha tocou e o vizinho me agradeceu calorosamente pelo que eu havia dito e feito. Minha sensação de alívio era nítida. Eu me senti não só perdendo um inimigo, mas ganhando um novo amigo, que foi de fato o que aconteceu nos dias que se seguiram.

Cerca de uma semana mais tarde, fiquei sabendo que, de acordo com a psicóloga e autora Harriet Lerner, a formulação do meu pedido de desculpas era exatamente o que o "médico" teria prescrito. No primeiro capítulo de seu novo livro, "Why Won't You Apologize?" (Por que não se desculpar?), Lerner mostra que as desculpas seguidas por racionalizações nunca são satisfatórias e podem até mesmo ser prejudiciais.

"Quando se usa o 'mas' em um pedido de desculpas, isso vai contra a sinceridade da mensagem original. As melhores desculpas são curtas e não incluem explicações que possam inutilizá-las", escreveu ela.

E a expectativa de ser perdoado não deve fazer parte do pedido. A parte ofendida pode aceitar as desculpas sinceras, mas mesmo assim ainda se vê despreparada para perdoar a transgressão. O perdão, caso aconteça, pode depender de uma demonstração de que, dali para frente, a ofensa não se repetirá.

"Não é nossa função dizer a alguém para perdoar ou não", disse Lerner em uma entrevista. Ela contesta o pensamento popular que diz que não conseguir perdoar é ruim para a saúde e que pode levar a uma vida cheia de amargura e ódio.

"Não há um caminho certo para a cura. Há muitos caminhos para esquecer as emoções corrosivas sem perdoar, como terapia, meditação, medicação, e até natação", disse ela.

O mais difícil, segundo ela, é perdoar alguém que não se arrepende, como a minha tia a quem eu amava muito e que foi uma segunda mãe para mim, depois que a minha morreu. Quando eu, sendo judia, me casei com um cristão, ela se recusou a ir ao casamento e nunca se desculpou pela dor intensa que sua ausência havia causado. Apesar de minhas várias tentativas de retomar a relação, ela sempre as ignorou e, até hoje, mais de meio século depois, não posso perdoá-la.

O foco de um pedido de desculpas deve recair sobre o que o agressor disse ou fez, não na reação da pessoa. "Dizer 'Sinto muito por você se sentir assim' desloca o foco de quem supostamente está se desculpando e o transforma em 'na verdade, não sinto, não'", escreveu a psicóloga.

Quanto à razão pela qual o pedido de desculpas sincero e irrestrito é difícil para muitas pessoas, Lerner afirma que "os seres humanos são aparelhados para a defesa". É muito complicado assumir a responsabilidade direta e inequívoca por nossas ações ofensivas. É preciso muita maturidade para colocar um relacionamento ou outra pessoa antes de nossa necessidade de estar certo.

Desculpar-se é uma admissão que reconhecidamente deixa as pessoas vulneráveis. Não há nenhuma garantia de como a atitude vai ser recebida. É prerrogativa da parte lesada rejeitar as desculpas, mesmo quando oferecidas com sinceridade. A pessoa pode achar a ofensa tão enorme – por exemplo, ter sido abusado sexualmente pelo pai – que é impossível aceitar um "mea culpa" vindo do pai/mãe abusivo anos mais tarde.

Corrigir uma possível injustiça pode ser especialmente penoso quando há membros da família envolvidos, que podem tender a usar fatos – ele foi abusado pelo pai, ou ela foi criada por uma mãe distante – como desculpa para o comportamento ofensivo. "O passado pode ser usado como uma explicação, não como desculpa. É preciso que haja uma conversa que permita que o lado ofendido expresse raiva e dor caso o pedido de desculpas, independentemente de sua sinceridade, vise restaurar um relacionamento desfeito", disse a psicóloga.

Ela escreveu: "Ouvir (o lado ferido) sem estar na defensiva é a coisa mais importante em um pedido de desculpas". Ela aconselha o ouvinte a não interromper, argumentar, refutar, corrigir fatos ou trazer suas próprias críticas e reclamações. Mesmo quando a parte ofendida tenha grande parte da culpa, ela sugere se desculpar pela sua própria parte no incidente por menor que ela seja.

Lerner vê as desculpas como algo fundamental para a saúde física e emocional. "'Desculpa' é a palavra mais curativa da nossa língua. A coragem de se desculpar bem e com sabedoria não é apenas um presente para a pessoa ferida, que pode se sentir liberada de recriminações obsessivas, amargura e raiva corrosiva, como também um presente à sua própria saúde, dando-lhe dignidade, integridade, maturidade e a capacidade de ver mais claramente o modo como nosso comportamento afeta os outros, assumindo a responsabilidade por agir sem pensar na outra pessoa", disse ela.

Beverly Engel, autora de "The Power of Apology" (O poder das desculpas), conta como sua vida mudou por causa de um pedido de desculpas sincero e eficaz pelos anos de abuso emocional por parte de sua mãe. "Quase que em um passe de mágica, o pedido de desculpas tem o poder de reparar o erro, consertar o relacionamento, curar feridas e apagar decepções. Um pedido de desculpas realmente afeta as funções corporais da pessoa que o recebe – a pressão arterial diminui, o ritmo cardíaco desacelera e respiração se estabiliza", escreveu ela.

Por Jane E. Brody

 






 
 
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