The New York Times

Aos 96 anos, John Webster, ex-jogador da NHL, continua cheio de vida

Por: The New York Times
08/02/2017 - 14h52min | Atualizada em 08/02/2017 - 14h52min

Mattawa, Ontário – Essa cidadezinha madeireira rústica a 402 km de Toronto, perto da divisa com Quebec, é o esconderijo perfeito para um ex-jogador da Liga Nacional de Hóquei (NHL) que não quer chamar a atenção.

Com 2.500 habitantes, esse posto setentrional que já foi também um importante corredor de transporte para remadores, está espremido na confluência dos rios Ottawa e Mattawa e oferece paisagens magníficas dos Montes Lauretides Superiores.

A solidão local combinava perfeitamente com a natureza discreta e tímida de John Webster, que chegou ali em 1969.

Em Mattawa, a maior atração é Big Joe Mufferaw, o herói franco-canadense que, para muitos, foi inspirado em uma pessoa de verdade: o navegador fluvial do século XIX chamado Joseph Montferrand.

Os visitantes tiram fotos da escultura de madeira entalhada que representa o lenhador gigante imortalizado pela canção de Stompin' Tom Connors e que, segundo a crença, foi quem serviu de inspiração para a lenda de Paul Bunyan.

E não sabem nada a respeito de Webster, conhecido como Chick.

Aliás, ele era praticamente um desconhecido até dia quatro de janeiro, data da morte do grande Milt Schmidt, do Boston Bruins, fato que o acabou expondo.

Agora Webster, que completou 96 anos em três de novembro passado, pode ser o jogador da NHL mais velho ainda vivo, o que fez dele uma celebridade.

De repente, os telefonemas começaram e os jornais e rádios queriam entrevistá-lo, como se tivesse feito algo especial.

Embora tivesse um bom controle do taco quando jogava, Webster nunca será lembrado pelo que fez no rinque.

Teve uma carreira discreta no New York Rangers, participando de 14 jogos na temporada 1949-50.

Não marcou nenhum gol; não deu nenhum passe. A única estatística que registrou na Liga foi o fato de ter acumulado quatro minutos em faltas. Um punho quebrado acabou com suas chances no Rangers. Acabou se aposentando nos times menores, depois da temporada 1952-53.

Seu irmão caçula, Don, teve um pouco mais de sucesso: disputou 27 jogos pelo Maple Leafs, marcou sete gols e fez treze pontos na temporada 1943-44. Também jogou vários anos nos times pequenos antes de morrer, vítima de um tumor cerebral, em 53.

Por mais inócuo que Webster tenha sido no gelo, é uma figura querida na cidade.

Todo mundo o chama de Chick, apelido que ganhou quando ainda estava na ativa porque adorava a goma de mascar Chiclets.

"Ele continua vibrante. Sempre foi defensor da comunidade. Nunca o vi nervoso. Ele tem uma coisa boa que não dá para explicar", diz Jacques Begin, diretor de recreação do estádio local.

A todo lugar que vai, seja o correio, a loja de ferragens ou o estádio, Webster conhece todo mundo pelo nome, inclusive os dos membros da família. E, de quebra, ainda ganham uma piada, quase sempre tirando sarro de si mesmo.

Gerry Belanger, que trabalha no posto de gasolina, fala de um encontro ocorrido há anos, quando Webster chegou reclamando do escapamento e recebeu a oferta de uma garantia vitalícia.

"Por que eu haveria de aceitar? Na minha idade, já não compro nem banana verde", brincou.

Com 1,52 m e 78 kg, Webster nunca teria como se comparar a Big Joe.

Porém, tem uma vantagem: continua inteiro. Isso porque, recentemente, a enorme obra de madeira se viu em pedaços e Clermont Duval assumiu a responsabilidade de colocar Big Joe de pé novamente.

Para o artista local, entretanto, Webster é que é "uma força na natureza".

Embora não ouça muito bem e de vez em quando tenha problemas na coluna, o ex-atleta goza de uma saúde até muito boa e dá pouquíssimos sinais da idade, inclusive com uma cabeleira grisalha e a ausência de cicatrizes no rosto, como tantos jogadores de hóquei têm.

Anda sem bengala, apesar de o filho Rob, 68 anos, ter feito uma parecida com um taco de hóquei.

"É muito teimoso e não aceita ajuda de jeito nenhum", afirma.

Dos cinco filhos que teve, um foi morto aos 27 anos; a mulher, Leona, morreu em 2009, vítima do mal de Alzheimer.

A música o anima. Aprendeu a tocar piano quando jovem e mantém um teclado em casa, no qual reproduz o sucesso de Doris Day, "It's Magic", com desenvoltura.

Webster não gosta de falar muito do Rangers porque, segundo ele, o time não o tratou muito bem: quando quebrou o punho, mandaram-no para o time reserva, em New Haven, com um salário mais baixo, e nunca o chamaram de volta.

Mas ele gostava de muitos detalhes da vida em Nova York, incluindo as baladas com os colegas, em visitas a casas noturnas como a China Doll.

"A Broadway fica ali do lado, uns quarteirões só. Era o máximo. A cidade era demais", relembra.

Webster nem sempre foi afeito à cidade pequena; na verdade, foi criado em Toronto. Jogava no juvenil, mas, em 1940, participou do período de treinamento dos Bruins, onde conheceu Schmidt. A seguir, foi para o exterior, lutar na Segunda Guerra Mundial, voltou com vinte e poucos anos achando que era velho demais para o hóquei. E só foi para o Rangers quando tinha 29 anos.

Depois de se aposentar como atleta, trabalhou um tempo na de Havilland Aircraft Co., em Toronto, até se aposentar em Mattawa, onde os pais da mulher moraram.

Para se distrair à noite, meia dúzia de fregueses se reúne no salão do Valois' Motel & Restaurant, contando histórias e fazendo piada uns com os outros. Depois, quando se cansam, vão para a filial local da Tim Hortons para tomar um café.

Essa é uma cidade que homenageia seus heróis em madeira, concreto e metal: o estádio, por exemplo, foi batizado com o nome do juiz da NHL e treinador de futebol Mike Rodden, membro do Hall da Fama duas vezes, do hóquei e do futebol canadense, além de ter sido jornalista por muitos anos.

A lembrança a Webster é muito menor: há um troféu chamado Prêmio Chick Webster, criado há três anos em reconhecimento à carreira dos jogadores locais que se destaquem por liderança e respeito.

O primeiro vencedor foi Nicholas Dimick que, por acaso, estava no estádio no dia em que Webster resolveu visitá-lo. Era o primeiro dia de trabalho de Dimick como motorista da Zamboni.

E quando soube que Webster tinha elogiado a perfeição da superfície do gelo, abriu um sorriso de orelha a orelha. E aí se conteve.

Ali, ninguém pode se pavonear muito, nem quem se chama Chick Webster.

No Mr. Gas, posto de gasolina na rodovia Trans-Canada, há um pequeno retrato de Webster, com o uniforme do Rangers, na parede atrás da registradora.

O ex-jogador o autografou para o rapaz do caixa, Corey Lacelle, que o pendurou sobre o balcão cheio de analgésicos e isqueiros descartáveis.

É bem provável que Webster não reveja essa foto tão cedo; isso porque, sendo inverno, a cidade está coberta por vários centímetros de neve. Para piorar, ele foi reprovado no exame de renovação da carteira de habilitação.

Mas não permite que o cinismo inerente à velhice penetre em sua alma; prefere lidar com a vida com graça, bom humor e inteligência.

Na porta de entrada de sua casa há uma placa em que se lê: "Os amigos são bem-vindos; os parentes, só com hora marcada".

E em uma das canecas de café: "Todos os meus amigos já morreram".

Webster não se acha especial por ter chegado a uma idade tão avançada e por ter jogado na NHL, mas confessa ter ficado tão nervoso com a entrevista para este artigo que nem dormiu na noite anterior.

Chick nunca terá histórias comparáveis as de Mufferaw, um brigão forçudo e incorrigível – mas que morreu jovem, com 60 e poucos.

Aos 96 anos, Webster luta em outro tipo de frente.

"Sua história tem a ver com a longevidade, não o hóquei. O fato de ser atleta foi mais sorte que qualquer outra coisa", conclui o filho de Webster, Rob.

Por Curtis Rush

 






 
 
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