The New York Times

Atriz e ativista, Marlo Thomas lança coleção de moda

Por: The New York Times
07/02/2017 - 14h34min | Atualizada em 07/02/2017 - 14h34min

Foi na semana anterior à posse: Marlo Thomas, atriz, escritora e ativista do Feminismo da Segunda Onda, estava em dúvida se ia ou não com a velha amiga e parceira, Gloria Steinem, para a Marcha das Mulheres, em Washington. O momento era complicado, pois estava prestes a lançar uma coleção para o Home Shopping Network chamada "That Woman" ("Aquela Mulher"), o que significava ter que ir a Tampa, na Flórida, para uma maratona de vendas no ar, além de algumas aparições nos shoppings, nos dias que antecederiam a marcha.

A linha, é claro, ganhou esse nome para evocar "That Girl" ("Aquela Garota"), série de que Marlo participou, no fim da década de 60, e que foi referência feminista. No ar de 1966 a 1971, tinha no nome referência a Ann Marie, uma mulher solteira que trabalhava e morava sozinha em Nova York, ou seja, a versão ficcional da própria atriz.

Para ajudar a convencer os executivos da ABC, que já tinham dito que o conceito não venderia, Marlo entregou ao diretor de programação uma cópia do livro de Betty Friedan, "A Mística Feminina". E quando os mesmos fizeram pressão para que a série terminasse com Ann e o namorado, Donald, um redator de revista interpretado por Ted Bessell, se casando, ela não aceitou. O noivado durante a quinta e última temporada foi o máximo a que se permitiu, embora no último episódio os dois aparecessem presos em um elevador, discutindo para saber quem era o cabeça do relacionamento.

Marlo usou sua considerável veia cômica para diluir a ameaça cultural representada pelo poder implícito de Ann enquanto mulher solteira. (Ela aprendeu com o pai que a comédia pode ser um cavalo de Troia para todo tipo de subversão.)

E usou a moda para se distinguir das antecessoras; trocou o uniforme de dona de casa, as peças recatadas, os decotes carecas e aventais usados por Lucille Ball, Donna Reed e até Elizabeth Montgomery pelas roupas do furacão jovem dos anos 60, como os estampados psicodélicos de Andre Courreges e Mary Quant, que seriam seguidos por opções mais boêmias do início dos anos 70, como os estilos de Halston, Giorgio di Sant' Angelo e Yves Saint Laurent.

"That Woman", que inclui quinze peças e uma sacola, não vai revolucionar a história da moda, mas é o primeiro produto comercial a que Marlo, hoje com 79, empresta seu nome e tem orgulho de fazê-lo, mesmo que surpreenda aqueles que a conhecem como fundadora, em 1973, do Ms. Foundation, com Gloria Steinem, Letty Cottin Pogrebin e Patricia Carbine, para patrocinar iniciativas de justiça social, ou a autora de "Free to Be ... You and Me", projeto que incluiu um álbum, um livro infantil e um programa de TV para acabar com os estereótipos de gênero.

"David Geffen uma vez me disse que o problema em ter muitas opções é que se você não se concentra em uma delas em especial, é o mesmo que não ter nenhuma. Resolvi então me dedicar – mas do meu jeito, para ter controle sobre tudo", diz ela sobre a iniciativa mais recente.

Na manhã agradável que nos encontramos, ela usava uma roupa tipo "That Woman": suéter preto justo com renda na gola, calça preta e bota de cano curto da mesma cor. As roupas casuais parecem atrair um público mais jovem que o do HSN, (a idade média do consumidor do canal é 59 anos, segundo a empresa.), mas os tecidos são firmes, e não delicados, e Marlo, com uma figura ainda juvenil, faz o conjunto parecer maravilhoso.

"É a cinta", brinca.

"O pessoal decide qual a aparência que deve ter em determinada idade, mas acho que é preciso pensar na forma como você se movimenta, como se senta. Gosto de me revelar um pouco, algo que me faça sentir, estando em uma sala cheia de homens, que não sou um deles", prossegue.

Marlo está esparramada em meio às almofadas no chão da sala envidraçada da cobertura na Quinta Avenida que divide com o marido, Phil Donahue, há tempos o feminista favorito dos EUA e apresentador de TV. Dali do terraço, dá para ver o Central Park em toda sua extensão.

Os dois se apaixonaram no ar, em 1977, quando ela foi convidada do "The Phil Donahue Show" – e tem o vídeo para provar. O clipe está no YouTube; a atração entre eles, instantânea e meio desajeitada, é adorável.

"Flertamos um com o outro o programa todo, chegou a ser constrangedor. Ele me perguntou se eu pensava em me casar, ao que eu respondi: 'Nunca.' Falei sobre o feminismo e por que o casamento não era uma boa instituição para as mulheres, só para eles."

A união tradicional de seus pais é coisa que não pretendia repetir. A mãe, italiana, Rose Marie, era cantora e tinha um programa de rádio quando conheceu o comediante Danny Thomas, cujos antecedentes libaneses eram tão patriarcais quanto os da mulher, ou seja, não houve dúvidas sobre a carreira de quem viria primeiro.

Apesar disso, Marlo e Phil começaram a namorar um dia depois do programa. Na época, ele morava com os quatro filhos do primeiro casamento com Margaret Cooney (a filha morava com a mãe), em uma casa que mais parecia uma república. E ela, que tinha 40 e poucos anos e estava acostumada a morar só, levou um choque. "Não estava acostumada com tanta toalha, tanta cueca. Nunca tinha namorado ninguém que tivesse uma cueca onde se lia 'Papai'."

Quando os dois se casaram, em 1980, Marlo diz que sentiu como se estivesse abandonando Gloria. "Escrevi uma carta dizendo que aquele podia ser o desafio da sororidade, o fato de podermos seguir por caminhos diferentes."

Gloria, cujo discurso na Marcha das Mulheres destacou o lado positivo de uma vida longa – "Lembro quando as coisas eram muito piores" –, e contou como Marlo, sendo atriz, durante um tempão escondeu a idade. "Até que, quando completou 60, alguém noticiou. E ela disse: 'Imagine como é difícil fazer 60 quando você não passou ainda pelos 50, muito menos pelos 40'."

Em 2014, Marlo recebeu a Medalha Presidencial da Liberdade – por sinal, no mesmo ano em que Meryl Streep recebeu a dela –, por sua luta por justiça social e seu trabalho com o Hospital Infantil St. Jude, o centro de tratamento e pesquisa de câncer pediátrico fundado por seu pai, em Memphis.

"Pensei nos meus avós, imigrantes libaneses, que chegaram ao país trazendo as coisas em sacos. O que será que iam achar se me vissem aqui na Casa Branca? Me deu um nó na garganta. Sou descendente de italianos e libaneses. Tanto de um lado como do outros, meus avós fizeram casamento arranjado. Sempre pensava no que iam achar de eu ter usado meu precioso tempo para me casar com o cara que escolhi porque eles não tiveram essa liberdade."

Embora Marlo tenha feito forte campanha por Hillary Clinton, se recusa a falar de política. (E acabou tendo que ficar de fora da Marcha das Mulheres por causa de um vírus que pegou na Flórida. "Odiei não ter participado. Marchei o país inteiro pelo ERA, pelo direito de escolha da mulher na questão do aborto, ao lado do Phil pelo Orgulho Gay. Foi muito difícil não poder estar lá.")

"Só mesmo dando risada", comenta ela sobre as eleições. "Estou adorando o fato de o povo descobrir que tem notícia falsa. Se você é pessoa pública convive com isso a vida inteira, só que agora começa a subir pelas paredes, se questionando, 'Por que estão falando isso?'."

Por Penelope Green

 






 
 
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