The New York Times

Californianos torcem pelo time da casa em Tijuana

Por: The New York Times
07/02/2017 - 15h22min | Atualizada em 07/02/2017 - 15h22min

Tijuana, México – O céu estava escuro desde a manhã, o sol da Baja só uma silhueta por trás das nuvens confortavelmente instaladas sobre as colinas de Tijuana, mas esse detalhe não impediu centenas de torcedores de se reunirem na frente dos muros de concreto do Estadio Caliente, do Club Tijuana, horas antes de os Xoloitzcuintles, mais conhecidos como Xolos, jogarem a primeira partida da temporada de inverno em casa.

Às quatro da tarde, três horas antes do início do jogo, o maior esquenta do México bombava a todo vapor, com barraquinhas surgidas entre as SUVs e as minivans que quase lotavam o estacionamento e churrasqueiras improvisadas de onde subiam rolos de fumaça para o ar úmido e frio. Um grupo de professores comia ceviche e bebericava vinho tinto nacional, enquanto ali perto, três bandeiras – a norte-americana, a mexicana e a faixa preta dos Xolos – tremulavam sobre uma mesa dobrável e uma pilha cada vez mais alta de latas vazias de Tecate. Alguns músicos tocavam música norteña por um punhado de moedas e o som grave de uma tuba, saído da parte de trás da fila de carros, podia ser ouvido sobre o zunzum do pessoal.

Sob vários aspectos, era exatamente o que se esperava de uma balada improvisada por aqui: a tradição esportiva dos EUA traduzida para a linguagem musical e culinária de Tijuana, uma das cidades fronteiriças mais movimentadas do mundo.

Exceto por uma coisa: pelo menos metade dos carros tem placas da Califórnia.

Um deles pertence a Patty Martinez. Ela tinha acordado às quatro e meia da manhã para fazer o percurso de três horas de casa, em East Los Angeles, e ver seu time de futebol do coração junto com outros membros da torcida organizada Xolos Forever Forever Xolos. (O Xoloitzcuintli, ou Xolo, é uma raça de cachorro indígena, cuja imagem está em destaque no distintivo do clube.)

Faz dois anos que o filho começou a se interessar pelos jogos dos Xolos – e desde então os outros californianos que compõem a XFFX se tornaram alguns de seus melhores amigos, reunindo-se algumas vezes por ano para chás de bebê e ver as partidas na TV, enviando várias mensagens durante o dia e se vendo sempre que possível quando os jogos são em Tijuana.

Patty, 53 anos, tinha se vestido a caráter, com um moletom do clube sobre a camiseta vermelha e preta do time e um brinco personalizado para combinar. A caminho do jogo naquela manhã, tinha parado para pegar a filha de 28 anos, Lorena, que lhe deu uma touca de tricô com as cores do Xolos: vermelho, branco e preto.

"Fiz até a mão para combinar, tá?", brinca, flexionando os dedos da mão direita enquanto a esquerda segurava o volante e dirigia o carro na I-5, passando ao longo da muralha de água cinza do Pacífico.

A uma da tarde, Patty, conhecida na XFFX como "Big Mama", já estava toda pimpona acomodada em uma cadeira dobrável vermelha com uma dose de mescal em uma das mãos e um taco de carne assada e guacamole caseira na outra, bem enrolado em vários guardanapos. Os amigos Victor e Claudia Valadéz tinham chegado quase na mesma hora que ela de Chula Vista, o subúrbio de San Diego que, como Victor disse, brincando, às vezes é conhecido como "Chulajuana".

Ricardo e Rodrigo Rodriguez, gêmeos nascido em Tijuana que moram em San Diego há 17 anos, começaram a ver os jogos em 2009, ao lado do irmão mais velho, Oscar. Na época, o estádio estava sendo construído e, como hoje, tinha a capacidade reduzida.

"Naquele tempo, mesmo usando galocha, a gente ficava coberto de lama. Era bem¿ interessante", relembra Ricardo, fazendo uma pausa para dar mais efeito às palavras.

A época era difícil também para Tijuana. Em 2008, a violência entre os cartéis pela primazia da cidade estava no auge, como também a crise financeira que acabou com a indústria do turismo local, tão vital há quase um século.

"Muita gente vem para cá com a intenção de entrar nos EUA. Não cria raízes, não sente nenhuma ligação com a cidade, mas o time dos Xolos nos deu uma identidade, um sentido de união", explica o professor de ensino médio David Lomelí enquanto serve hambúrgueres de uma grelha aberta.

E essa identidade, pelo menos do ponto de vista do time, não se limita ao perímetro urbano. Primeira equipe da Liga MX mexicana a se tornar bilíngue na comunicação com o público – com direito a dois assessores de imprensa, um em espanhol e o outro em inglês –, desde o início ela tinha olhos para o público e os jogadores norte-americanos.

E a iniciativa se provou incrivelmente bem-sucedida. Segundo Alejandro Serrano, presidente de clube, a venda de ingressos para o estádio de 27 mil lugares terá 90 por cento da capacidade garantida pelo resto da temporada de inverno.

O Xolos não é a única equipe da Liga MX com um programa de recrutamento do outro lado da fronteira, é claro, mas é raridade no sentido de ter vários jogadores iniciantes – Paul Arriola, Joe Corona e Michael Orozco – que nasceram nos EUA e jogaram na seleção nacional. Os dois primeiros, inclusive, moram em San Diego, de onde saem todo dia para treinar e jogar. Orozco, criado em Anaheim, na Califórnia, se mudou com a mulher e os filhos para uma casa na praia em Tijuana, passo que, segundo ele, "foi como voltar para casa".

A transformação de Tijuana é, como a do Estadio Caliente, uma obra em andamento perene. Embora os roubos tenham caído nos últimos anos e os assassinatos cinematográficos da guerra entre cartéis (2007-10) tenham basicamente desaparecido, a violência continua grande, com 2016 registrando o maior número de homicídios na história da cidade. As prostitutas ainda ficam de tocaia na frente de hotéis caídos da Calle Coahuila, a curta distância da fronteira e a quinze minutos de carro do Estadio Caliente.

Para muitos mexicanos, a cidade continua sendo apenas um trampolim para a jornada rumo ao norte, mas embora o desemprego local fique abaixo da média nacional, muita gente ainda sobrevive com uma renda limitada, o que não permite nem a compra dos ingressos mais baratos dos jogos do Xolos, vendido a 300 pesos (ou US$15), um luxo inacessível.

José Martin Gonzales Mendoza, que há quatro anos é segurança do estádio em dia de jogo, ganha 200 pesos pelo turno de treze horas, que vai além da meia-noite. Na maioria das ocasiões, leva a mulher e os filhos – que conseguem faturar algum extra cuidando da confraternização da XFFX antes da partida, enquanto Patty e os outros californianos vão para o estádio.

Recentemente ele teve que usar esse dinheirinho a mais para comprar os óculos do filho mais velho. O caçula, Tomás, disse que um dia também espera poder ir ao estádio sozinho para ver o time jogar. Por enquanto, continua sendo a maior despesa da família, que mal tem condições de mantê-la.

Naquela noite, depois da vitória convincente sobre o Puebla por 6 a 2, os torcedores, satisfeitos, saíram do Estadio Caliente e voltaram para o estacionamento. Enquanto a maioria já se preparava para ir embora, Patty e Lorena Martinez se serviram de mais um drinque. Tinham reservado um quarto de hotel e só enfrentariam a longa viagem de volta a Los Angeles na manhã seguinte.

Victor e Claudia Valadéz, retardando a jornada de volta a Chula Vista por alguns minutos, esperando o tráfego diminuir, andavam de lá para cá com o filho de sete anos, Gael, que já tem um passe próprio para a temporada inteira. Ele e Tomás discutiam alegremente os melhores momentos do jogo em um espanhol pontilhado de palavras em inglês.

Patty Martinez deu uma gargalhada e ficou olhando, embevecida, para os meninos.

"É a nossa geração do futuro. Nossos Xolos norte-americanos", suspira.

Por Michael Snyder