Histórias de verão

Conheça o paraíso criado por caxienses no Litoral Norte

Balneário de Paraíso criado em 1952 ainda é reduto dos gringos

Por: Carolina Klóss
12/02/2017 - 12h58min | Atualizada em 13/02/2017 - 17h59min
Conheça o paraíso criado por caxienses no Litoral Norte Marcelo Casagrande / Agência RBS/Agência RBS
Quiosque Paraíso é um dos lugares mais conhecidos da praia Foto: Marcelo Casagrande / Agência RBS / Agência RBS  

É preciso atenção para, num piscar de olhos, não passar reto pela entrada do balneário de Paraíso via Estrada do Mar (ERS-389). Só quem não erra o caminho – e praticamente ignora a discreta placa que indica a localização da praia pertencente ao município de Torres – são os moradores da Serra, que ocupam a maioria dos terrenos do local.

Calmo e silencioso mesmo no pico do veraneio, o balneário divide o título de praia queridinha dos caxienses com a vizinha Arroio do Sal. Em Paraíso, assim como na "Gringolândia", as pessoas se cumprimentam pelo nome, e amigos de longa data se reencontram a cada temporada, fortalecendo as relações iniciadas pelos pais. Os sobrenomes, conhecidos dos moradores de Caxias, ajudam inclusive na localização das casas. Não é incomum tentar descobrir onde fica uma das casas e ouvir que "fica atrás dos Stédile, perto dos Biazus, quase ao lado dos Bergamaschi".

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O local tranquilo, reduto dos gringos, surgiu a partir de um sonho dos caxienses Attilio, Julio e Luiz Granzotto, que era o de "construir" uma praia. De acordo com Jeanete Granzotto Dias, no início da década de 1950, Attilio, seu pai, comprou uma área no Litoral Norte. O seu irmão Julio aterrou a praia Paraíso poucos anos depois. Os primeiros proprietários dos lotes, foram Francisco Stedile, Angelo e Miguel Zanandrea e Olinto Biazus.

— Meu pai (Attilio) queria uma praia particular. Os primeiros terrenos foram vendidos somente entre amigos, todos de Caxias, claro — diz Jeanete Granzotto Dias, 66 anos, filha de Atílio e uma das primeiras veranistas de Paraíso.

Mesmo que ninguém confirme, a proposta de ter um lugar privativo no litoral também fez com que os primeiros compradores dos terrenos decidissem não implantar um sistema que facilitasse o acesso ao balneário. Até hoje, a via de entrada de Paraíso tem muitos desníveis, buracos, obrigando os carros a não ultrapassar os 30km/h.

— Até existe uma brincadeira que diz que antes de chegar em Paraíso, tem de passar por um purgatório! A maioria afirma que a praia é de todos, mas o sentimento bem bairrista é visto em coisas simples: já pensamos em solicitar para alguma rede instalar uma farmácia aqui na praia (não há farmácia nem posto de saúde). Um médico atende, em alguns dias, na associação, mas parece que nem isso o povo daqui quer para não trazer gente de fora — brinca Maria Ferreira Cioffi, 42, dona do Quiosque Paraíso há quatro anos.

A cada verão, 15 horas de viagem para chegar até o mar

Janete Dias é filha de Atílio Granzotto, um dos fundadores da praia Foto: Marcelo Casagrande / Agência RBS

A história de Jeanete Dias se cruza com a de Paraíso desde a infância. Ela é uma das filhas de Atílio que, ao lado de Luiz, Romeu e Irineu Granzotto, nivelaram e colocaram a pequena praia no mapa ao erguerem o Hotel Paraíso – demolido há mais de 15 anos. Jeanete frequenta o balneário desde menina e, há muitos verões, é possível vê-la, ao lado do marido, Wilson, 64, aproveitando os dias de calor na casa que fica na Rua Cachoeira do Sul, a poucas quadras do mar.

Jeanete e a família gostam tanto da calmaria da praia que, na época em que a dentista se mudou para São Paulo para se aperfeiçoar, não deixaram de vir para o Sul nos meses quentes. Assim que as filhas, Camila, 34, e Luciana, 31, acabavam as aulas do colégio, em dezembro, os quatro enchiam o carro de malas rumo a Paraíso. A viagem demorava cerca de 15 horas e a única parada era feita em Imbituba (SC).

— As meninas adoravam e nós ficávamos tranquilos ao deixar elas brincarem nos vizinhos porque tudo foi sempre muito calmo aqui. Como nunca fomos em muitos veranistas, todos nos conhecemos. As meninas nasceram em São Paulo e, em Paraíso, fizeram muitas amizades com caxienses. Todos eram gringos, né? Não demorou muito para a minha especialização acabar e mudarmos todos, de vez, para Caxias — conta.

Hoje aposentada, Jeanete e Wilson passam os finais de semana em Paraíso, seja inverno ou verão, salvo se algum compromisso os impedir. Camila, a filha mais velha, mora em Paris (França), mas cada vez que vem ao Brasil visitar a família, coloca no roteiro pelo menos uma paradinha na praia para matar as saudades. Luciana, mora na Serra e, quando pode, passa uns dias no balneário para desfrutar da calmaria do lugar. A caçula também aproveita para conviver ainda mais com os amigos, muitos presentes na rotina em Caxias.

— Gostava muito mais de Paraíso quando era criança. Na adolescência, tínhamos que ir até Torres em busca de uma festa à noite, por exemplo. Enquanto nas sextas-feiras Torres estava na muvuca, em Paraíso se ouviam apenas os grilos. Se passasse um carro já era um evento. Hoje a praia virou um lugar de descanso para mim. Acho bacana que muitos que cresceram em Paraíso estão trazendo os seus filhos — avalia Luciana.

Principal avenida é a Caxias do Sul

Foto: Marcelo Casagrande / Agência RBS

— Coisa mais fácil de achar aqui é caxiense. Ainda mais na avenida!

A facilidade sugerida pelo caxiense Jaques de Martini, 48, faz sentido no momento em que se descobre o nome da via em que ele veraneia com a família: a Avenida Caxias do Sul, a principal de Paraíso. A casa de tijolo à vista e que ostenta a placa de número 196 foi erguida pelos pais de Jaques, Enio e Mariza, pouco depois de o hotel Paraíso ser construído, na década de 1950. Enio, como conta o filho, era amigo dos Granzotto, e comprou deles o lote que hoje também é o lugar de descanso da mulher, Flávia Martinato El Andari, 39, e do filho Pedro, três.

— Paraíso é a praia da minha infância e fico feliz de trazer meu filho para cá. Mas a época é outra, a praia não é a mais a mesma, mas porque o mundo não é mais o mesmo. Quando era pequeno, meus pais não fechavam as portas de casa para irmos à beira-mar. Hoje, o Pedro brinca na frente de casa, aproveita o sossego, mas sempre com alguém de olho. Não temos uma onda de violência aqui, porém a praia cresceu — analisa.

Jaques hoje passa uma parte das férias em Paraíso e, durante o verão, se desloca de Caxias para o Litoral em alguns finais de semana. No período em que fica na praia, aproveita para tomar chimarrão em frente de casa e dividir com a mulher e o filho as lembranças de sua infância no litoral:

— As noites em Paraíso são muito calmas, mas já foram muito mais. Nos primeiros anos do hotel, meu pai contava que as luzes eram desligadas às 23h e, depois de três sinais de luz, as pessoas tinham que ir para os seus quartos com velas. Muitos dos hóspedes também saíam sem pagar e só eram cobrados quando voltavam para Caxias. Era todo mundo de lá mesmo, né? A maioria dos veranistas, com certeza, segue sendo da Serra.

Um bom lugar para viver, mas que precisa de melhorias

A designer Roselene Corso elegeu Paraíso para ter qualidade de vida Foto: Marcelo Casagrande / Agência RBS

Roselene Maria Corso, 57, sempre gostou de morar em Caxias do Sul, mas com o passar dos anos, conta que sonhava em encontrar um lugar mais calmo para envelhecer. Ao contrário da maioria dos veranistas do balneário, Roselene não frequentou Paraíso na infância nem tinha familiares que mantinham casa em alguns dos terrenos da pequena praia.

Foi a partir da indicação de um amigo que ela conheceu Paraíso em um verão, há quatro anos. Apenas uma temporada foi suficiente para ela se encantar pelo lugarejo e comprar uma residência na Avenida Porto Alegre. A artista, criadora de joias e semijoias, conta que ainda não se mudou em definitivo para o litoral porque ainda tem clientes na Serra. Porém, conta os dias para arrumar a bagagem e montar acampamento em Paraíso ao lado dos cachorros Kika, Dody, Nana e Gioconda e da calopsita Raji.

— Busco qualidade de vida e passava muito pela minha cabeça um dia morar na praia. Paraíso é calma, linda, todos se conhecem, se chamam pelo nome. Esse clima sempre muito familiar fez com que me apaixonasse. Já vim também muito no inverno para cá, época deserta, mas gosto mesmo assim. Tem quem reclame que falta farmácia, faltam lojas, mas é só ir para Torres, é perto (são 13,5 quilômetros de distância). Nem isso faz eu desistir de querer envelhecer em Paraíso — confirma.

A infraestrutura precária da praia, no entanto, incomoda quem já mora lá e quer que o lugar se desenvolva. Caso da família de Maria Ferreira Cioffi, 42, que tinha um restaurante em Cachoeririnha e que, há quatro anos, resolveu trocar de vida para morar na praia e administrar o famoso Quiosque Paraíso.

— Gostamos muito daqui, mas não dá para entender como ainda não temos uma farmácia, lojas, o lugar não vai para frente. Contatamos a prefeitura inúmeras vezes também para solicitar melhorias no calçamento, mas ninguém olha para nós — lamenta Maria, mulher de Alfredinho Bagatini, presidente da Associação de Moradores de Paraíso.

A prefeitura de Torres realmente não tem planos a curto prazo para melhorias em Paraíso. De acordo com a assessoria, a Secretaria de Planejamento e Participação Cidadã tem um estudo para a criação de uma praça na área central do balneário. No Plano Diretor da praia constam ainda a continuação da Avenida do Litoral, integrando as praias do Litoral Norte, e novos acessos à Estrada do Mar. No entanto, a prefeitura não fala de prazos para o início das obras.


 






 
 
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