The New York Times

Japandroids: batida punk, letras elaboradas

Por: The New York Times
07/02/2017 - 14h46min | Atualizada em 07/02/2017 - 14h46min

Os Japandroids, a banda – ou dupla – punk enganosamente barulhenta de Vancouver, não foge de sua reputação ligada ao passado do rock 'n' roll.

Desde o LP de estreia, de 2009, "Post-Nothing", todos os álbuns seguiram o mesmo modelo simples: cerca de meia hora de música dividida em oito faixas – segundo eles, "o modelo padrão de um grande álbum de rock 'n' roll"–, sequenciadas para o vinil, com lado A e lado B. As capas em preto e branco sempre retratam a banda como ela é: dois caras normais, gozadores e desalinhados.

Eles poderiam também ser chamados de teimosos. Em um mundo digital, os Japandroids são ainda mais conhecidos pelo clima de camaradagem, energético e elétrico, de seus shows ao vivo. Não há vídeos de música virais, nem patrocinadores, nem parcerias chamativas com outros gêneros. O guitarrista e cantor, Brian King, e o baterista, David Prowse, quase não têm um perfil público individual, mas sim uma característica independente que há muito é tida como inconveniente ou irrelevante.

"É uma coisa estranha, se você prestar atenção, não há muitas bandas tão populares quanto a nossa fazendo a mesma música que nós. A maioria das bandas de rock que me vem à cabeça é um pouco maior e já está por aí há muito mais tempo", disse recentemente Prowse, de 34 anos, durante um churrasco.

No entanto, apesar de seus princípios, os Japandroids se tornaram um tipo de unicórnio na paisagem musical atual, desde o lançamento do seu álbum "Celebration Rock", em 2012: uma banda vibrante liderada por uma guitarra que continua aumentando sua audiência sem fazer concessões, nem estéticas, nem de outro tipo. Lançando apenas poucas gravações a cada três ou cinco anos, o duo também derrubou o suposto modelo dos músicos modernos, não atendendo aos pedidos de conectividade e de novidades constantes, além de manter suas vendas em um nível mínimo.

"Temos a tendência de dizer não a muitas oportunidades para as quais alguns artistas diriam sim", disse Prowse. Por exemplo, embora o licenciamento muitas vezes represente uma importante fonte de renda para as bandas na era pós-CD, os Japandroids se recusam a vender suas músicas para uso em anúncios ou outros meios de comunicação.

King, que também tem 34 anos, disse: "Acho que somos a última geração que cresceu em uma época em que se vender era terrível. Trouxemos isso para essa nova geração, onde esse lance não importa".

Mas os dogmas dos Japandroids não impedem seu progresso: no terceiro álbum, "Near to the Wild Heart of Life", a dupla defensora do rock evoluiu da presença violenta da guitarra e das vibrações positivas para uma forma mais erudita e cheia de propósito, mas ainda com boa dose de irreverência. Antes, ficavam satisfeitos ao fazer hinos óbvios e triunfantes sobre garotas, bebida e outras formas de fuga; hoje, nas novas canções, a banda vai mais a fundo e amplia seu alcance, especialmente em termos líricos, analisando o que significa dedicar uma vida a esse tipo de busca.

As inspirações recentes de King são principalmente literárias. Usando o título do romance de estreia da escritora brasileira Clarice Lispector, "Perto do Coração Selvagem", de 1943, que por sua vez se baseou em uma frase de "Retrato do Artista Quando Jovem", de James Joyce, o terceiro álbum dos Japandroids representa o despertar de uma banda que voluntariamente se comprometeu a desenvolver um tipo diferente de carreira, em seus próprios termos.

"Mesmo que o rock fosse o maior gênero no mundo hoje, estaríamos só fazendo o que queremos", disse King.

A seriedade pensativa e ideológica da dupla – que coexiste com uma sinceridade persistente e educada que não podia ser mais canadense – é cada vez mais evidente em sua música, que vem variando o som, a perspectiva e o estado de espírito. (Compare, por exemplo, a divertida "Wet Hair", do álbum "Post-Nothing", em que King repetidamente grita "preciso ir para a França, para beijar algumas garotas francesas" com essa letra do novo álbum: "O eterno sermão, para amar e respeitar/mas desde que ela começou a dormir aqui /oh, Senhor, vivo como um pregador ambulante.")

As gravações dos Japandroids já foram mais simples – uma desculpa para gritar até ficar rouco e derrubar cerveja pelos clubes noturnos do mundo –, mas "Near to the Wild Heart of Life" foi um trabalho de estúdio pensado.

"A maior crítica à banda era a ideia de que fazíamos sempre a mesma coisa", disse Prowse, recordando o apelido simplista, mas cabível, de "Springsteen do punk rock". "A gente fazia isso muito bem, mas era só, sabe? Então resolvemos desafiar as expectativas em termos de composição, produção e instrumentação."

King, incansável estudante do rock, comparou o princípio dos Japandroids com bandas como os Ramones ou AC/DC. "É tudo a mesma coisa, mas eles são tão bons que o negócio acaba funcionando".

Porém, antes de expandir sua paleta artística, a dupla precisava de mais tempo – e de espaço. Ao voltar para casa depois de quase dois anos de turnê de "Celebration Rock", os dois deram uma parada na primeira metade de 2014, sem shows, gravações e até mesmo sem se ver.

"Definitivamente, tem o lance de estar em uma banda de duas pessoas que toca tanto quanto nós, ou seja, você passa tempo demais um com o outro. E muitas vezes em situações que podem acabar com qualquer relação, não importa o quanto ela seja sólida", disse King.

Durante a pausa, King se mudou de Vancouver para Toronto, e logo começou também a passar mais tempo na Cidade do México, graças a um novo relacionamento. Então, depois que a banda se reencontrou em Toronto, os dois passaram cerca de um mês morando juntos em Nova Orleans, onde começaram a compor o novo álbum.

Transitoriedade, exploração geográfica, novo amor e velhos amigos, tudo isso está presente em "Near to the Wild Heart of Life", que mescla histórias do estilo de vida itinerante de uma banda em turnê com o exame de consciência que acontece na volta para casa (ou em uma nova partida). "Cruzar o continente todo incandescente/abandonar os mal amados, me encontrar com o destino", canta King com grandiosidade e aliteração na canção "North East South West".

"Quando você vive esse tipo de vida por muito tempo, ele acaba se tornando normal. Voltar a se ajustar ao mundo real pode ser difícil", afirmou ele.

Felizmente, o boca a boca de "Celebration Rock" foi extenso, e o sucesso da banda nos shows deu aos integrantes mais tempo para recalibrar antes de iniciar o ciclo novamente.

"Quando terminamos a turnê de 'Post-Nothing', estávamos embalados e sabíamos que era hora de fazer outro disco. Houve pressões financeiras e de tempo para que fizéssemos algo novo o mais rápido possível, para fazer outra turnê e continuar ganhando dinheiro", contou King.

"Não foi necessariamente a experiência mais divertida e agradável, com esse tipo de coisa pairando sobre nossas cabeças. Não tivemos muito tempo para experimentar."

Para seu terceiro álbum, os Japandroids insistiram em retardar o processo, além de também buscar uma gravadora com mais recursos que a anterior, a Polyvinyl.

"De fato, apareceram algumas grandes interessadas em um contrato, mas não estávamos pensando nisso. Talvez seja algo meio antiquado, mas para nós, pareceu um tanto estranho, e sentimos certo ceticismo em relação à liberdade que teríamos", disse Prowse. Assim, a banda foi parar na Anti-, selo indie que não impõe muita interferência (embora gerencie os canais da mídia social da banda).

Com a base financeira mais firme, veio a chance de se arriscar na composição e na gravação, o que resultou em músicas como "I¿m Sorry (For Not Finding You Sooner)", a canção mais crua e terna dos Japandroids até hoje, e "Arc of Bar", turbilhão épico de sete minutos no centro do novo álbum. King disse que escreveu a letra de "Arc of Bar" antes de sequer pensar na instrumentação, a primeira vez que isso acontece com os Japandroids.

"É um encadeamento de palavras assustador. A letra dessa música é maior que a soma de todas em 'Post-Nothing'", disse Prowse.

Por Joe Coscarelli

 
 
 
 
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