Rumo ao comando

Mulheres gaúchas fazem história no Exército

Quatro gaúchas já integram a primeira turma da Escola Preparatória de Cadetes do Exército a receber mulheres. Recepção será neste sábado

16/02/2017 - 19h18min | Atualizada em 21/02/2017 - 08h11min
Mulheres gaúchas fazem história no Exército Espcex/divulgação
Escola em Campinas teve cinco anos para cumprir Lei e começar a formar mulheres para a linha bélica do Exército Foto: Espcex / divulgação  

Esclarecimento: a gaúcha Thamara Diehl também faz parte da turma pioneira que abriu 40 vagas para mulheres na Escola Preparatória de Cadetes do Exército (Espcex). Aprovada em 44º lugar no concurso, a jovem ingressou a tempo de participar da cerimônia da Boina Azul Ferrete. De 16 de fevereiro até as 12h10min desta segunda-feira, esta reportagem afirmou que eram três as gaúchas que integravam a turma, sem citar Thamara. O texto já foi corrigido.

Quando os portões da Escola Preparatória de Cadetes do Exército, a EsPCEx, se abrirem neste sábado, em Campinas (SP), os passos dos 440 jovens que ingressam este ano vão marcar a história do Brasil. A turma 2017 inclui 40 mulheres que, amparadas por uma Lei de 2012, ganharam o direito de serem preparadas para a carreira de oficial combatente do Exército. Assim que cruzarem o pátio da instituição, as pioneiras — entre elas quatro gaúchas —, ao lado dos colegas homens, serão recebidas pelo Comandante do Exército, o general Eduardo Dias da Costa Villas Bôas, que presidirá a cerimônia de boas-vindas.

O momento solene de entrega da boina, que certifica os futuros cadetes, está marcado para as 8h30min. Será o começo de uma longa carreira e o fim de um caminho árduo até a conquista da vaga. Por conta da novidade, a disputa foi a mais acirrada da história, com uma densidade para as mulheres que superou os cursos de Medicina mais concorridos do país. Para elas, foram 193 candidatas por vaga. Para eles, 56. Ao todo, 29,7 mil jovens se inscreveram para as provas objetivas.

— A expectativa é altíssima com a chegada das moças. Aumentou a disputa e isso eleva muito o nível intelectual. Elas serão duas ou três em cada uma das 15 turmas. Mas já fazem a diferença. De fato estão motivadas. São determinadas e têm o brilho no olho. São homens e mulheres agora com o mesmo ideal, que serão tratados pelo mérito e pelo esforço — empolga-se o diretor da EsPCEx, coronel de Infantaria Gustavo Henrique Dutra de Menezes.

Para atender a Lei nº 12.705, sancionada em 2012 pela ex-presidente Dilma Rousseff, a escola, que há 76 anos só recebia homens, precisou mais do que adequar sua infraestrutura. Desde janeiro de 2016, oito militares mulheres — três tenentes e cinco sargentos — estão na EsPCEx para aperfeiçoar o programa de adaptação das alunas. Com um estudo do Instituto de Pesquisa e Capacitação Física do Exército, foi definido o nível de exigência para elas em exercícios físicos, por exemplo, levando em consideração o potencial biológico e as diferenças entre os gêneros. Nas salas de aula, garante o diretor, não haverá distinção:

— Elas serão cobradas da mesma forma, apenas definimos os índices de cobrança na parte física.

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Objetivo da turma é Academia Militar das Agulhas Negras

Entre os 400 homens aprovados, 52 são do Rio Grande do Sul. Natural de Aceguá, William Boschmann Martens, 21 anos, conversou com Zero Hora quatro dias antes de receber a tão sonhada boina e se tornar aluno da EsPCEx. Há quatro anos ele tenta a vaga e considera um privilégio ingressar na turma histórica.

— O clima é muito bom com as colegas. Interagimos bastante. Nas provas físicas, os homens fizeram 19 flexões, elas oito. Também corremos 2,3 mil metros e elas 1.950, mas tanto homens quanto mulheres precisaram cumprir o percurso nos mesmos 12 minutos. É justo — conta.

O objetivo da turma é a Academia Militar das Agulhas Negras (Aman), que forma o oficial combatente do Exército. É lá que os cadetes concluem o bacharelado em Ciências Militares iniciado na EsPCEx. Apesar do avanço feminino, as mulheres serão treinadas para o serviço de Intendência ou para o quadro de material bélico, áreas que operam como apoio logístico avançado da tropa. Mas, em 2051, as cadetes que fizerem carreira poderão ser promovidas a generais de Brigada. E, com mais sete anos, quem sabe, generais de quatro estrelas, que integram o Alto Comando do Exército brasileiro.

As gaúchas Amanda July Gonçalves Rodrigues, Emily de Souza Braz e Bibiana Sartory Chagas aprovadas entre as 40  Foto: Espcex / divulgação

A mais jovem entre os 440 cadetes

A gaúcha Emily de Souza Braz é a mais jovem aluna da EsPCEx. Natural de Santana de Livramento, é filha de militar e foi aprovada aos 16 anos para a carreira inédita para mulheres em 26º lugar entre as 40 vagas. No sábado, ela terá um protagonismo na cerimônia. Tradicionalmente, o aluno mais novo é o responsável por abrir os portões da EsPCEx ao lado do comandante e diretor de Ensino da Escola. A passagem pelo Portão d'as Armas será a primeira atividade do dia. Em fila individual, e ainda em trajes civis, os alunos ingressam nas dependências da escola, simbolizando a escolha voluntária pela carreira no Exército.

Emily concluiu o Colégio Militar de Brasília seis meses antes do tempo, mediante aprovação em uma faculdade particular, para poder se dedicar exclusivamente ao concurso da EsPCEx.

— O pioneirismo foi motivador. Sempre admirei a carreira de meu pai — contou.

Ela vai receber a boina de cadete das mãos do pai Carlos e da mãe Eliane. O irmão Carlos, oito anos, também estará presente. Longe da família desde janeiro, quando se iniciaram as provas físicas e o período de adaptação, a jovem já fala em saudade. Mas parece estar muito certa da decisão que tomou:

— Estou gostando bastante. A gente sente saudade, mas constrói uma nova família. O companheirismo é muito grande. Já deu pra ver que podemos criar laços muito fortes.

Aos 16 anos, Emily é a aluna mais jovem entre os 440 novos cadetes que se preparam para a Academia de Agulhas Negras Foto: Espcex / divulgação

O esporte como motivação a mais

Foi uma bússola que levou Bibiana Sartory Chagas, 20 anos, a ingressar na linha bélica do Exército. Natural de São Luiz Gonzaga, a ex-aluna do Colégio Militar de Santa Maria esperou a prova da EsPECex praticando seu esporte favorito: a corrida de orientação, uma espécie de rally a pé, que consiste basicamente em um competidor, equipado apenas com uma bússola e um mapa topográfico, encontrar locais previamente marcados por onde ele deve passar.

Ao sair do colégio, em 2013, Bibiana já pensava na carreira militar, mas sem opção ingressou no curso de Direito da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Chegou a correr em Portugal, com apoio da família e do amigo e treinador coronel Dias Torres. A ideia era chegar em forma no concurso. E chegou. Ficou em 35º lugar na lista das pioneiras.

— Estamos aqui na escola há quatro semanas. No início foi um choque. A mudança de rotina, os horários, o uniforme. Mas nada é impossível. Minha motivação é o meio militar, admiro o Exército, além de pontos importantes como estabilidade, uma carreira que pode ser brilhante, além de poder conciliar com o esporte — diz.

Bibiana receberá a boina das mãos dos padrinhos Roberto e Sabrina, que moram em Campinas, além do incentivador, o coronel Dias Torres. Eles representarão os pais da jovem, que moram na região das Missões e não poderão comparecer.

Bibiana Sartory Chagas no teste físico, depois de aprovada na prova que teve concorrência de 192 meninas por vaga Foto: Espcex / divulgação

Vocação de uma vida determinada

As amigas são testemunhas. Durante toda a formação no Colégio Militar de Porto Alegre, Amanda July Gonçalves Rodrigues, 21 anos, sonhava em servir ao Exército. Mas as três possibilidades oferecidas às mulheres (Escola de Saúde, Administração e Engenharia) não a satisfaziam. Nem uma delas se comparava à Linha Militar Bélica, que forma combatentes.

— Ela sempre via os meninos indo para a EsPCEx e sonhava com isso. Ela é muito focada e disciplinada. Estou muito feliz com a conquista da Amanda. Admiro muito a determinação que ela tem e sempre teve em seguir o sonho dela — disse a amiga de infância, Laura Stamado Berrutti, 21 anos.

Aos 18 anos, quando saiu do colégio, Amanda ingressou na Engenharia Civil da UFRGS e esperou a oportunidade. Quando saiu o edital, não teve dúvida. Deixou tudo de lado, trancou o curso e se dedicou exclusivamente aos estudos. E conseguiu. Consta da lista das 40 mulheres pioneiras em 27º lugar.

— Nunca estudei tanto. Muito mais do que para o vestibular. Estou feliz aqui, o início é impactante e a responsabilidade é grande, mas estou muito feliz — disse ao telefone.

Na cerimônia de sábado, Amanda receberá a boina das mãos do namorado, Maicon. Ele é filho de militar e sempre a incentivou. A mãe Joelma e a irmã Yasmim, 10 anos, também estarão na cerimônia, que é aberta ao público.

Amanda July Gonçalves Rodrigues (primeira da fila) no treinamento para a cerimônia de boas-vindas neste sábado Foto: Espcex / divulgação

Com a tão sonhada boina azul

Thamara escolheu a carreira de combatente do Exército e seguirá a profissão do pai, um de seus maiores incentivadores Foto: arquivo pessoal

Por um mês, a ex-aluna do Colégio Militar, Thamara Diehl, 16 anos, não abriu os portões da escola no dia da cerimônia de ingresso da turma histórica, como manda a tradição. Nascida em Santa Cruz do Sul, em 24 de fevereiro de 2000, ela é a segunda mais jovem entre os alunos. Mas o lugar na fila foi o detalhe menos importante. O que ela fez questão de registrar foi o momento do orgulho segurando a bandeira do Rio Grande do Sul.

— Já fui primeira prenda e quero honrar minha terra e o país inteiro com esta farda. Foi muito difícil a aprovação e eu valorizo muito esta conquista — disse.

Aprovada em 44º lugar, Thamara contou com a desistência de candidatas aprovadas na primeira chamada. Muitas também não passaram nos testes físicos ou médicos. Qualquer detalhe pode atrapalhar o ingresso. Até março, a escola mantém o processo seletivo até completar as 40 vagas. Pelo menos uma candidata do Rio Grande do Sul ainda está em teste físico, podendo elevar o time gaúcho para cinco mulheres.

— Demorei um mês para conseguir fazer uma flexão. Até o final do ano temos de conseguir fazer muitas. Estou muito feliz e motivada. No início é um choque mesmo, os horários e até a falta do celular, mas já estamos adaptadas — contou Thamara.  

A profissão militar

Há quatro linhas de carreiras: bélica (combatentes), científico-tecnológica, saúde e administrativa. Nessas três últimas já há mulheres desde 1992.

Mulheres no Exército

As mulheres ingressaram no Exército em 1943, como voluntárias na Segunda Guerra Mundial. Foram 73 enfermeiras. Só em 1992, elas começaram a ser formadas pela Escola de Administração do Exército, em Salvador. Quatro anos depois, o Exército incorporou a primeira turma de 290 mulheres voluntárias para prestarem o serviço militar na Escola de Saúde do Exército, no Rio de Janeiro. A formação na área tecnológica iniciou em 1997, no Instituto Militar de Engenharia, no Rio.

Como oficial ou sargento temporário, em 1998, ingressou a primeira turma de 519 mulheres advogadas, administradoras, contadoras, professoras, analistas de sistemas, engenheiras, arquitetas, jornalistas, entre outras áreas de ciências humanas e exatas, atendendo às necessidades de oficial técnico temporário da instituição.

Há mulheres no posto de tenente-coronel. No entanto, a grande maioria continua ocupando, como praça, a graduação de sargento e, como oficial, os postos de tenente, capitão e major. Com o ingresso na linha bélica da carreira militar, em 2017, as mulheres poderão chegar ao cargo de general a partir de 2051.

O concurso para combatentes

Em 43 cidades do Brasil, estudantes realizam provas objetivas de matemática, geografia, história e inglês, além de uma redação. Foram 29.771 inscritos. A densidade foi de 55 candidatos por vaga para homens, e 193, para mulheres. A segunda fase do concurso é médica, com apresentação de exames. A última etapa de admissão é a capacidade física do candidato.

A EsPCEx é o primeiro ano da faculdade militar do combatente. Os outros quatro anos são cursados em Resende (RJ) na Academia Militar das Agulhas Negras (Aman), onde, após quatro anos, será declarado aspirante a oficial das Armas.

Na cerimônia de recepção, os futuros cadetes entram em fila individual, liderados pelo diretor e pelo aluno mais jovem Foto: Espcex / divulgação


 
 
 
 
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