The New York Times

Os riscos do consumo de maconha na gravidez não estão claros

Por: The New York Times
14/02/2017 - 20h27min | Atualizada em 14/02/2017 - 20h27min

Durante a gravidez, ela não consumiu álcool nem fumou cigarro, mas quase todos os dias, Stacey, então com 24 anos, fumava maconha.

Com o consentimento do noivo, começou a dar umas tragadas no primeiro trimestre para controlar o enjoo matutino antes de ir para o trabalho, em uma lanchonete. Quando a dor ciática começou a dificultar as 12 horas que passava em pé no trabalho, ela discretamente passou a fumar óleo de maconha em cigarros eletrônicos na pausa do almoço.

"Eu não diria que você deve fumar um quilo de maconha na gravidez, mas, com moderação, tudo bem", disse Stacey, agora mãe e dona de casa em Deltona, que pediu que seu nome completo não fosse divulgado porque comprar maconha na rua é ilegal na Flórida.

Como mostra uma recente pesquisa nacional, muitas mulheres grávidas, particularmente as jovens, parecem concordar. Conforme os estados legalizam a maconha ou seu uso médico, as gestantes a consomem cada vez mais – em outro exemplo das muitas maneiras em que a aceitação ultrapassou a compreensão científica de seus efeitos na saúde humana.

Muitas vezes, as gestantes assumem que a maconha não tem consequências para o desenvolvimento dos bebês, mas uma pesquisa preliminar sugere o contrário: o principal ingrediente psicoativo da maconha – o tetraidrocanabinol, ou THC – pode atravessar a placenta e chegar até o feto, dizem os especialistas, com grandes chances de prejudicar o desenvolvimento cerebral, a cognição e o peso no nascimento. E também pode estar presente no leite materno.

"Há uma percepção aumentada da segurança do uso de cannabis, mesmo na gravidez, sem dados para dizer que é realmente seguro", disse a doutora Torri Metz, obstetra no Denver Health Medical Center, que se especializou em gravidez de alto risco. Dez por cento de suas pacientes afirmam ter consumido maconha recentemente.

Na pesquisa nacional publicada on-line, em dezembro, quase quatro por cento das grávidas disseram ter usado maconha no último mês, em 2014, em contraste com 2,4 por cento em 2002. (Em comparação, cerca de nove por cento das mulheres grávidas, entre 18 e 44 anos, reconhecem ter consumido álcool no mês anterior).

As jovens grávidas se mostraram particularmente mais propensas a recorrer à maconha: aproximadamente 7,5 por cento daquelas entre 18 e 25 anos disseram ter usado a substância no mês anterior em 2014, em comparação a dois por cento das com idades entre 26 e 44.

As evidências sobre os efeitos do uso de maconha pré-natal ainda são limitadas e, às vezes, contraditórias. Alguns dos dados mais extensivos vêm de dois grupos de pesquisadores, em Pittsburgh, Pensilvânia, e em Ottawa, Ontário, que estudam crianças expostas ao THC no útero.

Em Pittsburgh, crianças de seis anos nascidas de mães que haviam fumado um baseado ou mais diariamente no primeiro trimestre mostraram uma diminuição na capacidade de compreender conceitos orais ou escritos. Aos 10 anos, aquelas expostas ao THC no útero eram mais impulsivas do que as outras e menos capazes de prestar atenção.

Ainda mais preocupante, os filhos de mães que usaram maconha frequentemente no primeiro trimestre tinham notas menores em Leitura, Matemática e Ortografia aos 14 anos, quando comparados aos outros.

"A exposição pré-natal pode afetar o adolescente significativamente", disse a doutora Lauren M. Jansson, diretora de Pediatria do Centro para Vício e Gravidez na Escola de Medicina da Universidade Johns Hopkins.

Vários estudos descobriram alterações ligadas à utilização materna da maconha no cérebro de fetos com 18 a 22 semanas de idade. Nos masculinos, por exemplo, os pesquisadores observaram uma função anormal da amígdala, a parte do cérebro que regula a emoção.

"Mesmo no início do desenvolvimento, a maconha está mudando circuitos críticos e receptores neurotransmissores. Eles são importantes para regular as emoções e as recompensas, até mesmo para a função motora e cognitiva", disse a doutora Yasmin Hurd, neurocientista e diretora do Centro de Dependência Icahn da Escola de Medicina do Mount Sinai, em Manhattan.

Já é bem documentado que o cérebro em desenvolvimento dos adolescentes pode ser alterado com o uso regular de maconha, chegando até mesmo a reduzir o QI.

"Os efeitos não são dramáticos, mas isso não significa que não são importantes. Pode ser a diferença entre tirar um A ou um B em uma prova", disse Jodi Gilman, professora assistente de Psiquiatria na Escola de Medicina de Harvard, que estuda adolescentes usuários de cannabis.

"Dá para imaginar que um efeito similar sutil pode estar presente naqueles que foram expostos à maconha pré-natal", acrescentou.

A Academia Americana de Pediatria e o Colégio Americano de Obstetras e Ginecologistas desaconselham o consumo de cannabis pré-natal por causa de suas ligações com o comprometimento cognitivo e o baixo desempenho acadêmico, mas muitos estados e agências federais evitam o tema.

Algumas provas são reconfortantes: até agora, a exposição pré-natal à cannabis parece não estar vinculada a defeitos óbvios de nascimento.

"É por isso que alguns fornecedores e leigos acham que não há nenhum efeito", disse a doutora Erica Wymore, neonatologista do Hospital Pediátrico do Colorado. Mas alertou: "Só porque não há um grande defeito de nascença ou sintomas evidentes de abstinência, isso não quer dizer que o desenvolvimento neurológico do bebê não seja afetado".

A maioria das pesquisas dessa área foi feita quando a droga era muito menos potente. A maconha tinha 12 por cento de THC em 2014, enquanto que, em 1995, tinha apenas 4 por cento, de acordo com o Instituto Nacional do Uso de Drogas.

"Todos os bons estudos anteriores sobre os efeitos não falam o que precisamos saber hoje em relação aos níveis mais elevados de concentração. Precisamos fazer muito mais pesquisas agora", disse Therese Grant, epidemiologista e diretora da unidade fetal de drogas e álcool da Universidade de Washington.

Há dois problemas adicionais em relação aos estudos do uso materno de cannabis: a pesquisa se baseia frequentemente em relatórios feitos pelas grávidas, em vez de testes de urina ou do cordão umbilical, po rexemplo, e elas consistentemente omitem parte de seu consumo. (Os pesquisadores sabem disso porque as amostras revelam discrepâncias.)

Pouca gente sabe que o THC fica armazenado na gordura e, portanto, pode permanecer no corpo por semanas, até meses. Não se sabe se a exposição do feto é limitada às horas em que a mulher está sob o efeito da droga.

O Colégio Americano de Obstetras e Ginecologistas aconselha os médicos a perguntar às grávidas sobre o uso de maconha e a pedir que o interrompam.

Depressão, ansiedade, estresse, dor, náuseas e vômitos foram as razões mais comuns relatadas para justificar o uso da erva em uma pesquisa de 2014 com mães de baixa renda que recebiam ajuda federal de nutrição no Colorado. Aproximadamente seis por cento eram usuárias de maconha; cerca de 30 por cento delas estavam grávidas.

"As mulheres veem a maconha como um remédio que pode tratar problemas específicos", disse Elizabeth Nash, analista de política do Instituto Guttmacher, que pesquisa sobre o abuso de drogas na gravidez.

"Se for para considerá-la um remédio, então trate-a como tal e fale com seu médico", completou.

O filho de Stacey acabou de completar um ano. Ele está andando, falando e ainda mama no peito, e ela não está preocupada com seu desenvolvimento.

Stacey ainda fuma maconha – na verdade, seu filho brinca em um acolchoado estampado com uma folha da erva –, mas as cólicas severas que a atormentavam antes da gravidez diminuíram.

"Não preciso mais fumar tanto", disse.

Por Catherine Saint Louis

 






 
 
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