The New York Times

Os trigêmeos que viraram astros do hóquei no gelo

Por: The New York Times
06/02/2017 - 14h04min | Atualizada em 06/02/2017 - 14h04min

Bemidji, Minnesota – De vez em quando, durante as férias escolares, quando os trigêmeos Fitzgerald estão em casa, em Port Alberni, na Colúmbia Britânica, os amigos mandam mensagens avisando que um de seus filmes está passando na TV.

Geralmente eles ignoram.

Muito antes de Gerry, Leo e Myles Fitzgerald jogarem hóquei pela Universidade Estadual Bemidji, eles foram atores mirins, e inclusive participaram de dois filmes até que grandes: "Bebês Geniais", lançado em 1999 e estrelado por Kathleen Turner e Christopher Lloyd, e a sequência de 2004, com Jon Voight.

Eles não se lembram praticamente de nada do primeiro, que foi lançado quando tinham cinco anos, e só um pouco da continuação. O fato é que não assistem a nenhum dos dois há anos, principalmente pelo constrangimento. Imagine seus pais liberando seus vídeos caseiros da infância no dia do baile de formatura?

"Passou umas vezes na TV, mas a gente simplesmente deixou passar batido", conta Gerry.

A crítica desceu a lenha no original – uma história sobre crianças superinteligentes que se comunicam em uma linguagem própria – por causa do roteiro exagerado e dos efeitos especiais gerados por computador. (Os Fitzgerald se alternaram interpretando gêmeos.) Em uma das cenas, Gerry aparece de roupa branca rebolando como Tony Manero, o personagem de John Travolta em "Os Embalos de Sábado À Noite", mas a verdade é que quem dançou foi um dublê, com a cabeça de Gerry tendo sido sobreposta na fase de pós-produção.

No New York Times, Janet Maslin começa a resenha do filme assim: "Uma opção para conseguir aguentar ver 'Bebês Geniais' é questionar se é realmente o pior filme que você já viu na vida. Talvez não seja, mas está quase lá." Para Roger Ebert, foi um dos piores filmes de 1999.

Quando "Bebês Geniais 2: Super Bebês" foi concluído, o mesmo aconteceu com a carreira dos Fitzgerald na telona.

"Eles fizeram os dois filmes, mas entre um e outro, tiveram uma infância bem normal. Na verdade, a grande paixão dos três sempre foi o hóquei, desde a primeira vez que calçaram os patins, com cinco anos de idade. A atuação, nem tanto", conta a mãe, Janet, em entrevista por telefone de Port Alberni.

Embora pequenos, os Fitzgerald formavam uma linha de ataque tão poderosa na liga juvenil que duas vezes foram vendidos como um bloco só. A vontade de fazer faculdade os levou à Estadual Bemidji, um programa da Primeira Divisão no meio das florestas do norte de Minnesota que surpreendeu todo mundo ao participar do Frozen Four, em 2009.

Hoje no time de juniores, os trigêmeos de 23 anos jogam em posições-chave no Beavers, time que está brigando pelo primeiro título do torneio da NCAA desde 2010.

Segundo pesquisa da administração da universidade, até hoje só houve outra trinca de irmãos jogando ao mesmo tempo em um time estudantil: Brian, Craig e Glenn Seabury, da Universidade de Massachusetts Lowell, de 1989-90.

"No time juvenil já dava para ver, pareciam ratos de ringue. São o tipo de jogador que você quer no seu time porque nunca precisam de motivação. Nós queríamos muito os três e tivemos só que dar uma aprimorada", explica o treinador da Bemidji, Tom Serratore.

O técnico manteve os Fitzgerald na mesma formação nas duas primeiras temporadas do trio, com Myles na ala esquerda, Leo no centro e Gerry na direita. O capitão do Beavers, Charlie O'Connor, os descreve como "três bolas de fogo no gelo ao mesmo tempo, mais parecendo três diabos da Tasmânia."

Esta temporada, porém, Serratore, em busca de um equilíbrio ofensivo maior, pôs Myles para trás e colocou o experiente Brendan Harms na esquerda com Leo e Gerry.

Como jogador de hóquei tem fama de jogar sujo, Harms conta que os Fitzgeralds ainda têm que aguentar muita gozação por causa dos filmes, mesmo que Serratore nunca tenha exibido nenhum dos dois no ônibus da equipe – decisão pela qual os irmãos são muito gratos.

"Para ser sincero é até surpresa. No tempo do juvenil eles colocaram uma vez e a gente quis morrer de vergonha. Tinha uns 17 anos. Tiraram um sarro básico, mas nada muito violento", conta Leo.

A história de como os trigêmeos chegaram a Hollywood talvez dê um filme melhor do que aquele que fizeram.

Janet Fitzgerald conta que sua irmã achava os meninos muito fofos e insistiu para que mandasse fotos deles para uma agência de talentos de Vancouver. Foi o que fez. Algumas semanas depois, os garotos foram convidados a participar da seleção de elenco de "Bebês Geniais", já que os produtores estavam procurando gêmeos ou trigêmeos para os papéis protagonistas.

"Fomos para o teste sem a mínima expectativa, mas os meninos acabaram sendo chamados para mais uma entrevista e mais um teste e ficaram com os papéis."

A seguir, vieram cinco meses de filmagem no sul da Califórnia. (A sequência foi rodada em Vancouver.) A mãe conta que Kathleen Turner e o colega, Dom DeLuise, foram maravilhosos com os três e que manteve contato com Jimmy Wagner, o chamado "agente de bebês" de Hollywood, que os ajudou a decorar os diálogos.

Gerry se lembra de memorizar suas falas para o segundo filme com Voight no trailer do astro.

"Na época, eu nem sabia quem ele era. E também nem entendia direito o que estava fazendo, tinha sete, oito anos. Mas, pensando bem, foi muito legal ele ter feito o que fez. Tive a oportunidade de me sentar com Jon Voight, um astro superfamoso."

O hóquei, porém, passou a consumi-los. Leo foi o primeiro, seguindo os passos do irmão mais velho, Sheldon; Gerry e Myles adotaram o esporte logo depois. A mãe conta que só recentemente puderam consertar as janelas quebradas e o gesso lascado da casa onde moram, estragos causados pelos milhares de discos que escaparam da rede de proteção montada na garagem, mas preferiu não dar o nome de quem destruiu a janela da sala com um golpe mal calculado da rua.

"Nossos pais perguntaram se a gente queria continuar tentando atuar ou investir no hóquei. Claro que queríamos jogar. Éramos muito novos para tomar qualquer decisão, mas acabou que o hóquei levou a melhor", explica Myles.

Na Bemidji, não demorou muito para que os colegas de time e os treinadores soubessem deferenciar os três. (Segundo a mãe, Leo e Myles são idênticos e Gerry é fraterno.) Leo é o mais alto, o único que joga com a canhota e prefere que a viseira do capacete seja transparente; os outros dois preferem com armadura de gaiola.

Sentados à minha frente para a entrevista, no Sanford Center, o rinque da Bemidji, as diferenças entre os Fitzgerald é mínima: Leo e Gerry usam bonés da universidade, sendo o primeiro com a aba normal e o segundo, virada para trás. O de Myles era do Minnesota Twins.

"Quando eles chegaram aqui, quando os vi pela primeira vez, foi difícil dizer quem era quem, mas depois que você passa a conhecer, vê que as personalidades são diferentes, eles não têm nada a ver. Leo é mais extrovertido. Myles é meio quietão e o menor dos três. Gerry e Leo são mais parecidos um com o outro", analisa Harms.

O Beavers não marca muitos gols, preferindo depender mais da defesa e do goleiro excepcional, Michael Bitzer.

"Cada um sabe seu papel. Todo mundo chega no rinque e quer trabalhar. Sabemos o que fazer para ganhar", diz Leo.

E nem interpretar é preciso.

Por Pat Borzi

 






 
 
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