The New York Times

Trio de rap Migos descobre o segredo do sucesso

Por: The New York Times
08/02/2017 - 14h37min | Atualizada em 08/02/2017 - 14h37min

Quando Donald Glover agradeceu o grupo Migos, trio de rap de Atlanta, durante o discurso de premiação do Globo de Ouro deste ano, deixando Hollywood curiosa, o grupo já havia conquistado seu primeiro sucesso na parada da Billboard. Não daria para saber disso dado o comportamento dos guardiões da indústria da música.

Embora "Bad and Boujee" – que Glover, astro o criador de "Atlanta" no canal FX, inesperadamente classificou de "a melhor música já feita" – foi se fortalecendo em clubes noturnos e on-line desde seu lançamento em agosto, só agora chegou às rádios, e estava longe da quase onipresença de outros sucessos mais anódinos (e, claramente mais brancos).

Durante semanas, conforme a música ia se transformando em sucesso graças a uma enxurrada de memes na internet e a acessos no YouTube e no Spotify (agora com mais de 250 milhões de reproduções ao todo), representantes dos Migos – formado pelos rappers Quavo, Offset e Tekeoff – tentavam conseguir apresentações em programas noturnos na televisão, um rito de passagem para grupos em ascensão. Foram recusados várias vezes.

"Davam todos os tipos de desculpas – não é a hora certa, não é isso, não é aquilo, mas quando Donald Glover se manifestou, no dia seguinte todo mundo que bateu a porta na nossa cara queria o grupo em seu programa", recorda-se Pierre Thomas, mais conhecido como Pee, executivo-chefe da Quality Control Music, gravadora dos Migos. Na semana seguinte, o grupo levara "Bad and Boujee" para o "Jimmy Kimmel Live!".

A luta contra a preferência inconstante do público sempre foi uma questão para os Migos, desde que o trio invadiu o firmamento do hip-hop em 2013, trazendo uma bolsa Gucci cheia de truques novos e chamativos, incluindo uma certa gagueira que agora é sua marca registrada, o fluxo rápido de frases dos três e uma série interminável de bordões fáceis, de improviso e de tiques vocais ("Grrr", "That way"!).

Mas aqueles que iniciam as tendências nem sempre colhem as recompensas. "Versace", o primeiro lançamento do grupo, logo que começou a fazer sucesso foi eclipsado pelo remix de Drake, enquanto que o "dabbing", que já fez parte da linguagem dos Migos, se transformou em uma modinha de dança entre as crianças. Como vários problemas se abateram sobre os Migos em momentos cruciais, como o álbum de estreia, "Yung Rich Nation" – um fracasso comercial em 2015, vendendo apenas 15 mil cópias sua primeira semana –, o grupo corria o risco de se tornar outra vítima da cultura "qual é o próximo" do rap, onde artistas virais surgem a todo instante, especialmente em Atlanta.

Com uma estratégia para aproveitar o aumento do streaming, onde os jovens costumam ouvir rap, os Migos estão agora de olho em um nível ainda mais elevado. Em seu segundo álbum, "Culture", o trio focou na composição exuberante. Optou por uma batida mais arejada e ornamentada e domou a metralhadora verbal em staccato para melhor utilizar o espaço vazio, ao mesmo tempo em que atende a seguidores on-line e os de suas raízes.

Recentemente, em Nova York, Takeoff, de 22 anos, integrante mais reservado do grupo, comparou a trajetória do álbum com a véspera de Natal, e seus olhos brilhavam. "Você sabe que tudo que pediu vai estar lá debaixo da árvore. Esse é o nosso momento."

O líder, Quavo, de 25 anos, é um compositor melódico e a presença mais sedutora. Ele às vezes discordava dos excessos e das repetições da distribuição das músicas, que estiveram em várias coletâneas on-line gratuitas desde 2011. "Estamos fazendo a mesma coisa que sempre fizemos, a mesma música, só que acho que agora o mundo começa a entender", disse ele.

A equipe de agentes do grupo é mais realista – e, por necessidade, mais estratégica. "Verdade seja dita, tivemos um pequeno contratempo que gerou um grande retorno", disse Kevin Lee, o executivo de controle de qualidade conhecido como Coach K.

Depois de um 2015 difícil, que, além de questões jurídicas incluiu o lançamento de cinco projetos completos dos Migos com um efeito mediano, em 2016 as coisas se acalmaram e houve mais divulgação. Embora o trio tenha lançado apenas uma coletânea oficial no ano passado, seus membros apareceram como convidados em inúmeras faixas de outros artistas, ampliando sua paleta sonora e fazendo os fãs compreenderem seus atributos individuais.

"Gostei de vê-los expandindo seu alcance e voltando para o núcleo e fortalecê-lo", disse Kevin Liles, executivo veterano do hip-hop cujo selo, 300 Entertainment, distribui o trabalho dos Migos em parceria com a Quality Control.

Coach K disse que a tentativa solo de Quavo – celebrado no DJ mix "Featuring Quavo" – motivou Offset e Takeoff, acrescentando: "Quando voltaram a se reunir, foi uma explosão".

Por isso, faz sentido que a maior realização do grupo até agora tenha sido iniciada por Offset – que passou dois meses preso por posse de arma e violação da liberdade condicional durante a ascensão dos Migos – uma noite, enquanto estava sozinho em casa. Depois de criar o gancho "raindrop/drop top" para "Bad and Boujee", que aparecia em várias conversas no Twitter, ele a enviou ao grupo para uma conclusão, certo de que poderia ser um sucesso. A música é o ideal platônico do trio, que mistura falas sobre drogas e armas com um sentido primordial da elevação pessoal.

"Perdi algumas oportunidades por causa de minha situação, mas tive a sorte de ter os irmãos que conseguiram manter a coisa andando. Essa música é como um renascimento", disse Offset, de 25 anos.

Os selos dos Migos colocaram "Bad and Boujee" na melhor posição para obter sucesso com alguns ajustes deliberados de distribuição, lançando-a somente no SoundCloud – "onde estão as crianças", disse Coach K– para criar buxixo e ganhar tempo para um lançamento mais amplo no começo de setembro, quando as rádios de rap fazem shows mistos de DJs, em vez de usarem playlists fixas, abrindo a porta para novos sons. (O single posterior, "T-shirt", foi lançado com uma precisão semelhante, primeiro com um majestoso vídeo no Ártico, e então com a liberação do áudio oficial antes do aniversário de Martin Luther King.)

A Quality Control também trouxe os Migos de volta às bases – trabalhando na cena de clubes de strip-tease em Atlanta – para ir ganhando força e para "pegar a vibração das pessoas", disse Pee. "Quando você vê as garotas no palco cantando as letras, você sabe que tem um sucesso nas mãos."

O exército zeloso de apoiadores on-line dos Migos (vide o meme "melhor que os Beatles") também fez sua parte, divulgando tudo, desde um jingle de improviso para batatas fritas até um clipe do grupo tocando "Bad and Boujee" ao vivo na Nigéria.

Um fato muito importante é que nunca houve uma escassez de conteúdo dos Migos, mesmo durante períodos de pausa aparente, graças ao compromisso do grupo de criar constantemente.

Há pouco tempo, em Manhattan, o trio teve cerca de três horas de pausa entre as obrigações promocionais, mas, quando chegaram ao hotel da Times Square, perceberam que o famoso Quad Studios de hip-hop ficava do outro lado da rua. Não foi preciso muito papo para chegar a uma decisão. (Quando um agente me ligou para descobrir onde estavam os rappers, um membro do círculo interno dos Migos pegou o telefone e desligou).

"Acorda!", disse Quavo. "Hora de trabalhar."

Uma vez de volta, depois de um pouco de convencimento, o grupo enrolou um baseado e comeu pizza de pepperoni, enquanto o engenheiro de gravação, que viaja com o trio, se preparava. Sozinho na frente do micro-ondas, Takeoff contava pilhas de dinheiro comicamente grandes, enquanto Quavo punha um par de "meias da sorte do estúdio".

"Ficar sentado em um hotel para quê?", disse ele antes de entrar na cabine de gravação.

Quatro horas mais tarde, uma nova música energética foi gravada, e aí os Migos estavam atrasados para uma festa de audição de seu álbum. Os rappers estavam muito ocupados fazendo mais música, e se recusavam a sair do estúdio até que todos tivessem terminado seus versos.

Por Joe Coscarelli

 






 
 
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