The New York Times

Um escritor de mistério japonês em busca do sucesso nos EUA

Por: The New York Times
13/02/2017 - 14h40min | Atualizada em 13/02/2017 - 14h40min

Isesaki, Japão – Hideo Yokoyama é um dos escritores de mistério mais populares do Japão; no entanto, ele vê os crimes como a parte menos interessante das histórias que conta.

"Geralmente, em uma história desse tipo, o personagem principal é um detetive e o ingrediente de destaque é um assassinato – mas será que ele encara assim? Na sua realidade, isso é uma coisa corriqueira", conjectura ele, durante entrevista na casa que divide com a mulher em um bairro residencial tranquilo, a 120 km a noroeste do centro de Tóquio.

Na verdade, Yokoyama, 60 anos, está mais interessado na psicologia e na dinâmica social dos personagens que acabam afetados pelo crime. No caso de "Six Four", seu 15º romance e primeiro a ser traduzido para o inglês, o personagem principal, Yoshinobu Mikami, não é detetive, mas sim o porta-voz do departamento de polícia envolvido no sequestro de uma garota de 14 anos enquanto a própria filha, também adolescente, está desaparecida.

Embora o romance ressalte a busca pelo(s) culpado(s), (e tenha uma reviravolta espetacular no fim), a maior parte das mais de 560 páginas é dedicada à análise da vida doméstica de Mikami com a mulher, ex-investigadora, e como levam o casamento depois que a filha adolescente foge, explorando a traiçoeira burocracia da polícia e sua relação combativa com a imprensa.

"Para descrever os sentimentos e as paixões do protagonista, você precisa de uma grande organização que funcione como um oceano imenso, no qual deixo meus personagens nadar", explica Yokoyama, que passou doze anos trabalhando como repórter policial em Gunma.

"Six Four" vendeu muitíssimo bem no Japão e foi adaptado para se tornar um filme que acabou indicado para o Prêmio da Academia do Japão, o equivalente nipônico ao Oscar. Foi traduzido para o inglês, em 2016, e publicado no Reino Unido sob críticas positivas, onde inclusive se tornou best-seller. Nos EUA, foi lançado em sete de fevereiro.

Yokoyama segue os passos de outros escritores do gênero cujas obras também foram traduzidas para o inglês, incluindo Seicho Matsumoto, Natsuo Kirino e Keigo Higashino, embora seja comparado, em termos marqueteiros, a "Os Homens que Não Amavam as Mulheres", de Stieg Larsson.

Enquanto a trilogia do sueco é recheada de violência e sexo e tem uma heroína carismática, Lisbeth Salander, "Six Four" conta com um protagonista sem graça chamado de "gárgula" pela imprensa e assombrado pelo fato de sua filha ter fugido por "desprezar o rosto que herdou".

Nas descrições das interações entre a polícia e a imprensa, Yokoyama registra o sexismo diário: uma jovem secretária de imprensa pede inúmeras vezes a Mikami que a deixe participar do happy hour com os repórteres depois do trabalho, mas ele sempre recusa, em uma tentativa paternalista de "protegê-la" dos jornalistas malandros.

Com o cabelo grisalho longo o suficiente para se apoiar na gola da camisa, o escritor conta sua frustração com o jornalismo e com o que considera sua "visão absolutista".

"Quando eu era repórter, tinha certeza absoluta de não ser o tipo de pessoa que um dia poderia cometer um crime; hoje, como escritor, acredito, sim, que poderia fazer isso. Qualquer um pode", admite.

Foi no fim da carreira de repórter que Yokoyama começou a escrever ficção. Inscreveu uma crônica para concorrer a um prêmio literário e ficou em terceiro lugar, mas já tinha decidido pedir demissão.

Na época estava com 34 anos, casado e com dois filhos pequenos; por isso, começou a fazer bicos com empresas de mudanças e de seguro enquanto escrevia no tempo livre.

Levou sete anos para vender seu primeiro romance, "Kage no Kisetsu", ou Temporada de Sombras, que foi publicado em 1998 e ganhou um prêmio de prestígio para escritores de mistério.

As editoras começaram a pedir mais e Yokoyama só fazia escrever.

Alugou um estúdio de pouco mais de 10m² e passou a escrever mais de vinte horas por dia, bebendo energético para se manter acordado e tomando soporíferos quando precisava cochilar. "Só ficava naquele apartamento, escrevendo, dormindo três horas por noite. Foi um experimento científico e tanto."

Nesse ritmo frenético, Yokoyama produziu quatro livros em cinco anos, ao mesmo tempo em que trabalhava, intermitentemente, no manuscrito de "Six Four". O título se refere ao reinado do Imperador Hirohito e ao ano em que aconteceu o caso de sequestro em torno do qual gira o romance. (Os japoneses contam o período de cada imperador no trono separadamente do calendário gregoriano e o ano da morte do regente era conhecido como "64".)

A correria insana e a pressão acabaram cobrando seu preço e, em 2003, Yokoyama teve um ataque cardíaco. Conseguiu se recuperar aos poucos e foi voltando a escrever, mas não conseguia nem lembrar o nome de Mikami. Entretanto, percebeu que permanecer no jardim, cuidando das plantas por várias horas, o fazia sentir melhor; três anos depois, concluiu o livro.

A editora Bungeishunju lançou "Six Four" em 2012 e a crítica japonesa o elogiou por subverter o funcionamento tradicional da polícia. Em uma cultura na qual é cada vez maior o número de trabalhadores frustrados com a burocracia hierárquica, o romance foi um sucesso.

Em um jantar em Tóquio, Jon Riley, editor-chefe da Quercus, editora londrina que lançou as obras de Stieg Larsson no Reino Unido, ficou sabendo da popularidade da história e pediu um resumo em inglês. Baseado nesse relatório, ele comprou então os direitos de tradução do livro em inglês e contratou Jonathan Lloyd-Davies, excelente tradutor de ficção japonesa.

Escrevendo para o Guardian, no ano passado, Alison Flood descreveu "Six Four" como um romance que vai ganhando ritmo aos poucos e mostra a complexidade da política interna da polícia. O romance ficou entre os finalistas na disputa pelo Prêmio Internacional Dagger na categoria suspense.

Nos EUA, onde "Six Four" está sendo lançado pela Farrar, Straus & Giroux na tradução de Lloyd-Davies, a editora pretende colocar à venda onze mil cópias de capa dura e torce para que os norte-americanos se sintam atraídos pelo drama policial discursivo.

"Sim, ele trata de um departamento de polícia japonês, que é absolutamente essencial em uma história que é japonesa, mas não é preciso se interessar por temas nipônicos para apreciar a leitura", afirma Sean McDonald, diretor executivo da Farrar, Straus & Giroux.

David Peace, autor que vive em Tóquio e responsável por títulos como "Tokyo Year Zero" e "Occupied City", foi um dos primeiros fãs declarados da história e alega que é vital um número maior de traduções como essa – e não só por motivos literários.

"Numa época em que os EUA e o Reino Unido estão olhando para dentro mais do que nunca, nossa necessidade de literatura traduzida é muito grande, pois nos ajuda a entender outros países, outras culturas."

Yokoyama continua a trabalhar no que descreve como "horário irregular", em um computador de mesa Mitsubishi de quinze anos em um quartinho pequeno em sua casa, cheirando a nicotina e lotado de livros, recortes de jornal, postais e frascos e tinta. O único destaque do cômodo é o boné de beisebol autografado pelo jogador japonês Hideki Matsui.

E revela que está trabalhando em quatro ou cinco projetos ao mesmo tempo. "É, estou tentando terminar para que se tornem 'apresentáveis' à sociedade", brinca.

Por Motoko Rich

 
 
 
 
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