The New York Times

Uma voz sensível se faz ouvir

Por: The New York Times
14/02/2017 - 20h22min | Atualizada em 14/02/2017 - 20h22min

A voz de Sampha, o cantor pop experimental e produtor eletrônico britânico, parece a de alguém que vê coisas.

Há anos, alguns dos maiores nomes da música (e os melhores olheiros), incluindo Drake, Beyoncé, Kanye West e Solange, usam seu tom agudo de soprano, rico e suave, que parece ferido, sim, mas fraco jamais, para transmitir vulnerabilidade. Através de participações especiais em canções como "Too Much", de Drake, e "Saint Pablo", de Kanye West, Sampha se tornou o parceiro a quem todos recorrem em busca de credibilidade emocional.

É no mínimo peculiar, então, dada sua capacidade de tocar a alma do público com a voz, que Sampha (nascido Sampha Sisay) tenha se esquivado de cantar por tanto tempo. Quando criança, era conhecido em casa principalmente pela dança, imitando os passos de Michael Jackson a pedido dos quatro irmãos bem mais velhos – e quando percebeu que poderia seguir carreira na música, pensou em se tornar produtor como Pharrell ou Timbaland.

"Quando comecei, só fazia as batidas; várias, aliás, mas não tinha intenção nenhuma de colocar voz nelas. Nem tinha microfone em casa, ou seja, se quisesse, ainda tinha que ir à casa de alguém para gravar", contou ele, em entrevista concedida em janeiro, a voz um murmúrio, deixando as frases soltas no ar com mais frequência do que completando o pensamento.

Porém, com um dom tão especial, tal atitude não poderia durar. Em três de fevereiro, Sampha, 28 anos, lançou seu primeiro álbum, "Process", que marca o ponto alto de muitas batalhas pessoais – com seu propósito artístico, as obrigações familiares e a aversão geral à atenção –, finalmente se estabelecendo como um dos principais talentos da música independente.

Richard Russell, produtor e fundador da XL Recordings, que lançou os três primeiros álbuns de Adele e trabalhos de The xx e FKA Twigs através da Young Turks, é só elogios. "Sampha é talentoso como todo mundo com quem trabalho, mas possui uma humildade genuína, algo que não se espera de uma pessoa tão capacitada."

E acrescenta: "Ele não quer ser o centro das atenções. Foi por isso que levou tanto tempo para se preparar adequadamente e se mostrar ao mundo como artista solo."

Sem dúvida, a relutância de Sampha poderia acabar limitando sua carreira.

"Eu nunca vou ser muito famoso; não é esse o meu objetivo. Porém, preciso ter cuidado para não dar uma de ingênuo", disse enquanto caminhava no centro de Manhattan, sem ser perturbado, como se apostasse que seria anônimo para sempre.

Além da autoconsciência, havia outros detalhes a serem levados em consideração.

Conforme foi crescendo a reputação um tanto mística de Sampha, levando-o a estúdios na Itália com Kanye e Staten Island com Solange – e colocando muita gente do ramo na lista de espera por sua participação estrelada –, recebeu um chamado de casa, no subúrbio londrino de Morden, no fim de 2014, para cuidar da mãe doente, que estava com câncer. (O pai tinha morrido da mesma doença quase dez anos antes.)

"As únicas ocasiões em que fazia música então era quando ela passava o dia no hospital. Como cuidador, você tem que se tornar meio insensível porque precisa ser sempre funcional, mas compor, o que faço improvisando no piano, me ajudou a perceber a gravidade da coisa, a me reconectar e sentir empatia pela minha mãe", explica.

"Tinha muita coisa que só percebi que estava sentindo quando sentava para tocar e cantar", acrescenta.

"Process", que pretende trabalhar com os vários significados da palavra, é inevitavelmente visceral.

"Não sinto esse álbum necessariamente como o resumo das minhas experiências de vida, mas fala das coisas que aprendi e pelas quais estava passando em um determinado período."

Após a morte da mãe, no início de 2015, Sampha fez uma breve viagem à terra natal da família, Serra Leoa, para enterrá-la; em seguida, voltou direto para o trabalho, escondendo-se em uma ilha remota da Noruega para terminar o álbum.

"Não sei se foi o melhor para mim, mas foi o que fiz. Cada um tem um jeito de superar a dor", afirma.

Em meio ao luto, Sampha passou a equilibrar sua tendência introvertida com as composições mais reveladoras; apesar disso, no álbum ele geralmente oculta as questões pessoais com uma produção digital intrincada e metáforas abstratas, como na balada de abertura, "Plastic 100C", com efeitos sonoros desorientadores, e a agitada "Blood on Me".

Mas nem tudo é seriedade: "Timmy's Prayer" tem uma pegada gostosa em falsete – e quando canta ao vivo, Sampha até levanta do teclado para chacoalhar os quadris um bocadinho. Na verdade, porém, "Process" atinge mais quando é mais sensível. Em "(No One Knows Me) Like the Piano", o grande destaque do álbum, sem percussão, Sampha canta:

"Um anjo ao lado dela / Oh, o tempo todo eu sabia que não conseguiríamos lidar / Disseram que era a hora dela, nada de choro / Engoli os sentimentos / E você se apossou de mim e nunca, nunca, nunca / me abandonou / Porque ninguém me conhece como o piano / da casa da minha mãe".

"É uma música bem íntima", revelou um dia depois de ter sido lançada on-line e um dia antes de cantá-la ao vivo, sozinho, no cenário laranja queimado e vermelho de "The Tonight Show Starring Jimmy Fallon", do NBC. Embora tenha aceitado a inevitabilidade de ter que compartilhar fragmentos de si mesmo, mostrar essa canção ao mundo suscitou alguns sentimentos inesperados.

"Eu estava bem consciente, não queria usar coisas dessa natureza como algum tipo de 'moeda de troca emocional'. Espero não estar explorando isso", comenta Sampha.

Entretanto, abrir-se também tem lá suas compensações.

"Tinha uma parte de mim que às vezes pensava: 'Por que essa pessoa está na minha frente, me ouvindo cantar? O que é que tem na letra ou na minha voz? Por quê?'. Acho que, de certa forma, tem a ver com o fato de ser um homem vulnerável, ou melhor, um negro, cantando a respeito de coisas que não necessariamente podem...", outra frase solta no ar.

"Para mim, o lance mais lindo de compor é que quando ouço as músicas, é como se recuperasse o sentimento e as recordações daquele momento. O benefício de tê-las composto é que, ao ouvi-las, sou transportado de volta, seja um período bom ou ruim. Sentir alguma coisa é melhor do que não sentir nada."

Por Joe Coscarelli

 






 
 
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