The New York Times

Depois do decreto anti-imigração de Trump, cai o interesse nas viagens aos EUA

Por: The New York Times
14/03/2017 - 14h21min | Atualizada em 14/03/2017 - 14h21min

O efeito foi imediato: logo depois do decreto assinado por Trump, em 27 de janeiro, proibindo temporariamente a entrada de cidadãos de sete países predominantemente muçulmanos nos EUA, a procura por viagens para lá despencou, de acordo com dados de várias agências e empresas de pesquisas.

Um mês depois, com a lei provisoriamente suspensa, o interesse voltou a crescer um pouco, mas continuou abaixo da média.

Após a imposição da medida, o Hopper, aplicativo de previsão de preços de passagens, analisou 303 milhões de buscas feitas de 26 de janeiro a 1º de fevereiro, e descobriu que o interesse de 122 países em voos para os EUA caíra 17 por cento em relação às primeiras três semanas do ano.

E continuava em queda de pelo menos dez por cento, em 22 de fevereiro, em comparação ao mesmo período do ano anterior, segundo seu principal analista de dados, Patrick Surry.

O site de viagens Cheapflights.com também registrou queda nas buscas por voos para terras norte-americanas após o decreto: 38 por cento, de 27-29 de janeiro, em relação ao fim de semana anterior, e quinze de 16-21 de fevereiro em relação ao volume médio do primeiro mês do ano, como informa Emily Fisher, porta-voz da empresa.

"A diminuição foi mais acentuada nos dias que se seguiram à assinatura da nova lei; agora, pelo menos, há sinais de recuperação", completa.

Em outras instância, o Flygresor.se, sistema de busca de viagens sueco, analisou 2,5 milhões de pesquisas em seu site e aplicativo no fim de semana seguinte ao anúncio do decreto e descobriu que o interesse pelos EUA tinha caído 47 por cento em relação ao mesmo período no ano anterior. E em 26 de fevereiro, a baixa continuava em 21 por cento.

A ForwardKeys, empresa de pesquisa de viagens de Valência, na Espanha, registrou o mesmo fenômeno. Analisando 16 milhões de reservas de voos por dia entre 28 de janeiro e 4 de fevereiro, descobriu que o movimento para os EUA estava 6,5 por cento abaixo dos números do mesmo período em 2016.

Algumas outras agências também perceberam a queda no interesse e nas reservas para aquele país.

Já para a Responsible Travel, operadora da cidade inglesa de Brighton, o interesse pelos Estados Unidos caiu 22 por cento, mesmo com o volume total de negócios tendo crescido trinta por cento em relação ao ano anterior, como informa o CEO, Justin Francis.

"Antes do decreto, os EUA eram um dos nossos destinos mais populares, mas os clientes agora estão optando por viajar para outros países", explica.

De 27 de janeiro a 16 de fevereiro, a operadora Intrepid Travel registrou 21 por cento de queda nas vendas de viagens da Austrália para os EUA e trinta por cento por parte dos britânicos. É uma diferença gritante em relação ao mesmo período nos anos anteriores, quando a empresa chegou a bater recordes nesses dois países, segundo Leigh Barnes, diretor da companhia para a América do Norte.

Além da demanda mais franca em curto prazo, os analistas dizem que o decreto também pode prejudicar o setor do turismo norte-americano, que é bastante lucrativo, nos próximos anos. De acordo com as estatísticas da Agência de Análises Econômicas do Departamento do Comércio dos EUA, o rendimento gerado pelo turismo no país foi de US$1,56 trilhão em 2015 e criou 7,6 milhões de empregos no mesmo período.

Segundo Adam Sacks, presidente da Tourism Economics, parte da empresa de pesquisas Oxford Economics, o decreto de Trump faz parte de uma plataforma mais ampla, cuja retórica nos moldes "os EUA em primeiro lugar" está gerando uma antipatia por aquela nação que já afeta o comportamento do viajante.

Em fevereiro, seu grupo conduziu um estudo de viagem para o Condado de Los Angeles e concluiu que a perspectiva de prejuízo da região em três anos pode chegar a 800 mil turistas estrangeiros como resultado direto da legislação, que poderiam representar US$736 milhões em gastos.

"Não é preciso muita dúvida ou sentimento negativo para afetar as decisões de viagens", conclui Sacks.

O cineasta iraniano Asghar Farhadi, responsável por "O Apartamento", vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, boicotou a cerimônia por causa do decreto e especialistas do setor afirmam que ações semelhantes podem ocorrer em maior escala.

Para Rummy Pandit, diretor executivo do Instituto Lloyd D. Levenson de Apostas, Hospitalidade & Turismo da Universidade Stockton, em Nova Jersey, é irrelevante o fato de o decreto ter sido suspenso temporariamente (e entrado em vigor novamente, com mudanças). "Agora há uma percepção de que os EUA são um país de instabilidade e essa visão vai afetar o volume de visitas ao país", sentencia.

Para Gregory Daco, economista da Oxford Economics, além de prejudicar o setor de viagens, o decreto pode ter implicações negativas na economia norte-americana em termos gerais.

Por Shivani Vora

 
 
 
 
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