The New York Times

Mie Hama, a atriz japonesa que foi Bond girl e abandonou a carreira por "uma vida normal"

Por: The New York Times
13/03/2017 - 13h45min | Atualizada em 13/03/2017 - 13h45min

Hakone, Japão – Em 1967, Mie Hama explodiu em Hollywood como seu mais novo símbolo sexual. Naquele ano, a atriz japonesa de 23 anos apareceu, ao lado de Sean Connery, no filme de James Bond chamado "Com 007 Só Se Vive Duas Vezes", na pele da beldade de biquíni, Kissy Suzuki. Posou também para a Playboy, que a proclamou "a Brigitte Bardot do Japão".

Apesar do alarde, Mie nunca apareceu em outro filme nos EUA. Poucos anos depois, cancelou o contrato com estúdio japonês Toho para se casar e ter filhos, dizendo aos executivos, estupefatos com a decisão, que queria "uma vida normal". Continuou sendo celebridade na terra natal, mas mudou completamente a imagem pública, tornando-se apresentadora de TV e rádio, ativista na defesa da preservação de fazendas e técnicas de lavoura antigas, conhecedora de arte folclórica, além de autora de 14 livros sobre a educação dos filhos, boas maneiras e autoconhecimento que fazem um sucesso enorme com o público feminino.

Durante várias décadas ela raramente comentou o filme do 007 e seu status como uma das primeiras Bond girls asiáticas (ao lado da colega, também japonesa, Akiko Wakabayashi), mas agora que o longa completa 50 anos de lançamento, ela parece estar mais disposta a falar sobre a felicidade e as agruras de seu momento como estrela mundial e a decisão de largar tudo em busca de algo mais autêntico e pessoal.

"Foi uma honra ser Bond girl, mas uma vez basta. Não quis ficar ligada àquela imagem para sempre. Na verdade, sou uma pessoa discreta e firme, mas senti que muita gente estava querendo criar uma personagem chamada Mie Hama", conta ela, aos 73 anos, em entrevista em sua casa, localizada neste balneário tranquilo nas montanhas.

Mesmo 50 anos depois, ela parece fazer questão de se distanciar de sua antiga persona como atriz de cinema. Usando um quimono bege e verde elegante, o cabelo curto acima das orelhas, ela se mostra completamente diferente da imagem da beldade em estilo ocidental que a transformou em heroína da era de ouro do cinema japonês, no início dos anos 60. Sua casa, feita de toras centenárias recolhidas de antigas sedes de fazenda, é decorada como um verdadeiro museu de arte tradicional, com urnas de cerâmica grandes, tecidos estampados e pinturas do Monte Fuji à vista.

O que não se vê são pôsteres, fotos ou qualquer outro sinal de sua carreira cinematográfica prolífica no Japão, muito menos do breve momento de fama internacional como Bond girl.

"Está tudo em algum canto no porão. Não gosto de viver no passado", resume.

Mie confessa que nunca se sentiu à vontade na telona. Nascida em uma família simples de Tóquio cuja microempresa de papelão foi destruída na Segunda Guerra Mundial, teve infância pobre. Começou a trabalhar de cobradora de ônibus aos 16 anos, quando o Toho a descobriu. Não demorou muito para se tornar estrela nacional, mas passava quase todo o tempo livre tentando fugir, como mochileira, para a Europa e a Índia, em viagens em que fazia torturada, sem saber se continuava atuando ou não.

Já tinha participado de quase 70 longas, de filmes catástrofe a romances adolescentes, quando foi convidada para o filme de 007, em 1966. E confessa ter achado que o diretor, Lewis Gilbert, a escolheu por ter visto "King Kong vs. Godzilla", um longa japonês de 1962 no qual encarnava a paixão do gorila gigante.

"Eu nunca tinha visto um filme do 007, não tinha ideia de que fosse um sucesso internacional tão grande", admite.

E só percebeu no que estava se metendo quando chegou a Londres e alguém do estúdio fez questão de olhar o que trazia na mala. Obediente, ela abriu para revelar algumas camisetas e jeans.

"Agora você é uma Bond girl. Nós é que vamos cuidar de suas roupas, joias, e até da maquiagem", ouviu.

No dia seguinte, vestidos caros começaram a aparecer na porta de sua suíte.

"Eles decidiam tudo, desde o peso que deveria ter até o tamanho do salto que teria que usar. Pode até parecer glamouroso, mas para mim era um sacrifício sem tamanho", prossegue.

Durante essa experiência solitária, conta ter recebido um apoio emocional importante do colega, Sean Connery, que descreve como uma pessoa bondosa, vinda também de uma família operária – e que se tornou seu modelo, um profissional simples nos bastidores, mas que conseguia se transformar no superespião charmoso e bem-vestido ao ouvir "Ação!".

"Eu era muito novinha. Todo dia ele me perguntava se estava tudo bem, se estava enfrentando dificuldades. Tinha tido uma vida difícil antes de se tornar ator, então sabia o que eu estava passando."

Até hoje, respeitosa, ela o chama "Sean Connery-san". E diz que se arrepende de não ter tentado manter contato ou conhecê-lo melhor, pois nunca mais se encontrou com ele depois do lançamento do filme. (O escocês se recusou a ser entrevistado para este artigo através de um representante, que disse apenas que o astro está aposentado.)

No Japão, onde grande parte do filme foi rodada, o papel reforçou seu status, colocando-a no minúsculo panteão de atores nacionais que chegaram a Hollywood e incluía apenas Toshiro Mifune e Machiko Kyo. E também ajudou a reforçar sua imagem, pois, com 1,70 m, ficava de igual para igual com os atores conterrâneos.

"Mie Hama era considerada uma beleza moderna, no mesmo nível de qualquer beldade ocidental; pena que não era a atriz de verdade, só sua imagem", escreveu Sota Setogawa, autor de vários livros sobre o cinema pós-guerra.

Imagem essa que Mie até tentou manter durante um tempo. Fotos desse período a mostram invariavelmente de biquíni branco. Interpretou um papel semelhante em pelo menos outro filme no Japão, encarnado como a agente estrangeira e vilã Madame Piranha em "King Kong Escapes", de 1967.

Porém, afirma que recusou várias ofertas de Hollywood para continuar vivendo a mesma linha de personagens. E desistiu do cinema de vez para se casar com um executivo da TV – com quem continua até hoje – e ter quatro filhos. Dizia ainda estar em busca de algo, mas não sabia o que era.

Até que, aos 40, finalmente teve uma revelação enquanto andava de carro pelo interior japonês e passou por um vilarejo agrícola antigo, abandonado para a construção de uma represa. Pediu ao motorista que parasse e ficou desolada ao se deparar com uma idosa sendo despejada.

"O Japão estava deixando de lado seus princípios verdadeiros por causa do desenvolvimento econômico. Percebi ali que tinha que resgatar suas raízes. Como eu", conta.

E explica que passou as três décadas seguintes incentivando os fãs a valorizar o lado mais autêntico do Japão e de si mesmos. Em seu livro mais recente, "Solitude Can Be a Wonderful Thing", ela encoraja as mulheres a viver como bem entenderem, mesmo que os outros sejam contrários a isso.

"Viver segundo as próprias regras pode ser solitário, mas é o único caminho para a verdadeira felicidade. Foi o que aprendi com minhas experiências", conclui.

Por Martin Fackler

 
 
 
 
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