The New York Times

O amor de Vera Wang por Paris

Por: The New York Times
10/03/2017 - 14h08min | Atualizada em 10/03/2017 - 14h08min

Paris – Estamos em 1969 e Vera Wang tem 19 anos. Sua carreira de patinação artística no gelo está terminando e ela estuda História da Arte na Sorbonne, durante o ano que passa no exterior. Caminha na rua com sua mãe. Ambas vestem peças de seu estilista favorito do momento: Yves Saint Laurent. Mamãe usa uma capa de chuva bege com cinto que vai até o meio da canela, bota Céline marrom e uma bolsa Hermès Kelly; Vera está com um casaco de lã azul marinho, calça de flanela cinza e uma blusa de gola alta.

"Foi quando eu realmente me tornei parisiense", disse Wang recentemente, tomando chá no Chez Carette, na Place du Trocadéro.

A estilista havia voltado à cidade porque foi uma das poucas americanas a recentemente ser condecorada com a Legião de Honra de França, a maior honraria dada a quem contribui para a glória do país (outros que receberam a honra incluem Ralph Lauren e Oscar de la Renta). No final da cerimônia, que aconteceu no primeiro dia da Semana da Moda de Paris, mostrou sua coleção de outono 2017 em um curta-metragem on-line que chama de "uma ode a Paris".

"Quando fiquei sabendo que receberia essa honra acho que fiquei em estado de choque, porque não sou uma estilista francesa. Sou americana, mas cresci com parte da minha vida ligada a Paris e à França. Vivi cinco vidas aqui. Talvez sete."

Wang, que cresceu em Nova York, visitou Paris pela primeira vez aos seis anos de idade. Seus pais lhe deram um par de sapatos cinza estilo boneca. "Eu olhava para meus pés e me sentia hipnotizada por eles", disse Wang.

"Foi a primeira vez que me senti intrigada pela moda, pelas coisas que usamos. De repente, a luz se fez", contou ela.

Vamos avançar para seu primeiro ano na faculdade. Wang namorava um colega patinador, Patrick Péra, que integrava a seleção nacional francesa. Ela comprava perfumes na Guerlain da Champs-Élysées, assistia a filmes no Toreador e frequentava o clube noturno Chez Castel, de propriedade de Jean Castel, astro do futebol francês.

"Eu não era sócia, mas meu namorado era. Muito sofisticado. Às vezes você via o Alain Delon por lá. Ou o Jean-Paul Belmondo." E acrescentou, com um pouco de eufemismo: "Não tive a vida típica de um estudante estrangeiro".

Ela passava os dias passeando pela Avenue Montaigne, pela Rue du Faubourg Saint-Honoré e pela Avenue Victor Hugo. Ia fazer compras na Kenzo, perto da Place des Victoires, no 2º Arrondissement, e depois ia para o pequeno restaurante Louis XIV, lá perto, para o almoço. "Procurei por ele, mas já fechou", disse ela.

Naquele ano, morou na Rue Spontini, perto da antiga loja de Yves Saint Laurent. "Quando minha mãe me visitava, bvia o estilista chegando para trabalhar às 10 da noite", disse Wang.

E continuou: "Minha mãe, que sempre adorou moda, dizia: 'Esse menino é muito magro. Ele trabalha demais'".

Quando o pai a visitava, se hospedava no Plaza Athenée. "Ele dizia que era a cafeteria mais cara do mundo, porque sempre pedia um hambúrguer e uma xícara de café", disse ela. E lhe deu um "smoking" de algodão branco trespassado. Ela adorou, mas acabou derrubando vinho tinto na roupa por acidente. "Eu me lembro de ter chorado. Normalmente não choro por causa de roupas. Isso dá a ideia do quanto a moda era importante para mim na época."

Mais tarde, naquele ano, Wang conheceu uma mulher que trabalhou como editora da Vogue Paris. "Fiquei louca, e disse: 'Quando eu terminar a faculdade, quero ser como ela'", Wang disse. E foi o que fez, passou 16 anos como editora da Vogue em Nova York.

Então, em 1982, aos 33 anos, saiu da revista e foi passar um ano em Paris para recuperar o fôlego. "Paris sempre foi minha fuga", disse ela. Ela comprou um apartamento no 16º Arrondissement (já foi vendido). "É o meu bairro", disse ela.

Wang corria no Bois du Boulogne, namorou um galerista de arte e se reinventou. Ao voltar para Nova York, foi trabalhar como diretora de projeto para Ralph Lauren. Em 1990, abriu sua própria boutique para noivas e então começou com seu prêt-à-porter. E foi assim que acabou voltando para cá.

"É preciso muita coragem para sair quando você está ocupada", disse Wang. "O meu país sempre esteve ligado à carreira: esse lance de fazer as coisas, estar sempre preocupada, sem perder tempo, tentar ser eficiente. Paris me ensinou a viver."

Por Rachel Donadio

 
 
 
 
Zero Hora No jornal Zero Hora você encontra as últimas notícias sobre esportes, economia, política, moda, cultura, colunistas e mais.