Sexta-Feira Santa

Eles estão no meio de nós: como é a vida de quem leva o nome de Jesus

Quem ganha a mesma alcunha do "filho de Deus" — de acordo com a fé cristã — convive desde sempre com a associação praticamente inevitável entre o nome e a figura de Cristo

Por: Fernanda da Costa
13/04/2017 - 21h09min | Atualizada em 13/04/2017 - 21h16min

Enquanto um Jesus está todo final de semana na igreja, onde foi presidente do conselho paroquial e ministro da Eucaristia, outro é analista de sistemas e toca bateria em uma banda de heavy metal. Os gaúchos Jesus Noely Sortica, 83 anos, e Jesus Tarabini Júnior, 42 anos, fazem parte de um seleto grupo de brasileiros: o dos batizados com o nome do messias do Cristianismo.

Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontam que, até 2010, haviam sido registrados 33.756 homens e 2.018 mulheres com o nome Jesus no país. De 2000 a 2010, 1.960 pessoas foram registradas assim. Quem ganha a mesma alcunha do "filho de Deus" — de acordo com a fé cristã — convive desde sempre com a associação praticamente inevitável entre o nome e a figura de Cristo.

Coordenadora do Núcleo de Psiquiatria e Espiritualidade (Nupe) da Associação de Psiquiatria do Rio Grande do Sul (APRS), a psicóloga Anahy Fagundes Fonseca explica que, ao registrarem o filho com esse nome, os pais geralmente têm expectativas relacionadas a religiosidade ou espiritualidade em relação ao filho.

— Sabemos que o nome não determina a personalidade, mas nele estão depositadas expectativas dos pais em relação ao filho — afirma Anahy. — E são essas expectativas que, inconscientemente, podem influenciar no desenvolvimento das crianças, como o desejo de que o filho tenha valores associados a Jesus, como solidariedade, compaixão e fraternidade.

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Ainda segundo a psiquiatra, estudos mostram que as crianças costumam responder a esse tipo de expectativa dos pais, seja correspondendo ou se revoltando, principalmente na adolescência. Isso explicaria porque alguns se orgulham e outros odeiam ter o nome Jesus — pedindo para serem chamados por apelidos ou outros nomes.

ZH conversou com a esposa de um Jesus que não gosta do nome e, por isso, atende apenas pelo sobrenome. Ela relatou que, por causa de parentes muito religiosos, o marido não se sentia bem sendo chamado de Jesus. Outro problema seriam as recorrentes piadas que ele costuma ouvir por causa do nome. O homem, é claro, não quis participar da reportagem que trataria da relação dele com o próprio nome.

Nem o "messias" escapa do bullying

"Jesus voltou", "Jesus está entre nós" e "Agora conheci Jesus" são algumas das tiradas clássicas que acompanham os Jesus ao longo da vida. Psicóloga e professora da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), Carolina Lisboa explica que é preciso diferenciar brincadeiras e bullying. O bullying, segundo ela, acontece de forma sistemática, dia após dia, resultando na exclusão. Por isso, tem de ser combatido, e as vítimas precisam procurar ajuda.

Mas piadinhas não são necessariamente bullying, e podem ser encaradas de diferentes formas.

— Os Jesus podem levar essas piadas de forma adaptativa, entrando na brincadeira, ou dizerem que isso os incomoda — afirma a psicóloga. — Quem fica chateado precisa falar que não gosta das brincadeiras.

O metaleiro filho de Maria

Foto: Omar Freitas / Agencia RBS

Ao deparar com a barba e o cabelo até a metade das costas cultivado por 21 anos, muita gente achava que Jesus era o apelido de Jesus Tarabini Júnior, 42 anos. Às vezes, quando revelava que o nome de Cristo era de batismo, ele tinha de mostrar a identidade para que as pessoas acreditassem. E aí vinha outra surpresa: o documento também comprova que ele é filho de Jesus e de Maria.

A escolha do registro foi do pai, que desejava ver em um filho o mesmo nome que carregava. Jesus Júnior nasceu em Uruguaiana, onde estudou em um colégio de freiras.

— Adivinha quem era o Jesus todo o final de ano na apresentação de Natal? — brinca Jesus que, embora tenha pais católicos, optou por não seguir nenhuma religião. — Chegou uma época em que eu até tinha roupa pronta para isso em casa.

Fã de rock, o analista de sistemas deixou o cabelo crescer por volta dos 20 anos de idade. Embora o estilo conte com calças rasgadas, camisetas de bandas e tênis All Star, o cabelão e a barba acabaram criando uma imagem semelhante às versões mais frequentes da representação de Cristo. Foi assim que as pessoas passaram a achar que o nome era um apelido.

— Por isso, eu nunca tive um apelido na vida. Na banda, sou o único sem apelido — afirma, dizendo-se em uma fase "muito Nirvana".

Quando resolveu cortar o cabelo, no ano passado, Jesus deixou amigos e conhecidos "em estado de choque". Júnior é baterista na Old Barreiro's Grandsons, que tem músicas autorais mas também interpreta clássicos de bandas como Led Zeppelin, Black Sabbath, Deep Purple, Metallica e Iron Maiden. Por causa do repertório pesado, o grupo costuma ser chamado com mais frequência para tocar em encontros de motoclubes ou festas temáticas de heavy metal.

Quando mais jovem, Jesus ficava incomodado com piadas envolvendo o seu nome. Com o tempo, aprendeu a levar as situações com bom humor, formulando até respostas prontas para as frases que mais ouve.

— Sempre tem alguém que me pede para transformar água em vinho, eu digo que, se não tiver gosto de vinho, é porque a pessoa não mereceu — conta Jesus. — Tem também quem me dê feliz aniversário no Natal. Então, eu falo que estou esperando o presente.

Na área de TI, Ele é sempre o salvador

No trabalho, as piadas são direcionadas à tecnologia da informação (TI):

— Quando fazemos um código, aparece o nome do autor. Aí, sempre tem alguém que diz que aquele código não pode falhar porque foi feito por Jesus.

O analista de sistemas diz que "encarnou tanto o personagem" que até fez uma tatuagem. Por sugestão da mulher, Manuela Tarabini, decidiu tatuar o personagem que inspirou seu nome. Mas não queria "um Jesus triste". Quando um amigo o presenteou com uma estátua de Jesus representado no filme Dogma, de Kevin Smith, que representa Cristo piscando e fazendo um sinal de positivo, estava definido o desenho da tatuagem, feita no braço direito.

Foto: Omar Freitas / Agencia RBS

Nesta Sexta-Feira Santa, Jesus deve passar o feriado com a família de Manuela. Como os sogros são católicos, devem respeitar a tradição de não comer carne, optando pelo peixe.

— Não seguimos nenhum rito religioso, mas respeitamos essa tradição. Nossa Páscoa é uma reunião de família — explica Jesus.

E para aquelas pessoas que dizem que ele morrerá hoje, já tem uma resposta:

— Domingo, estou de volta!

Lucy queria ser freira, mas casou-se com Jesus

Foto: Omar Freitas / Agencia RBS

Quando ele nasceu, há 83 anos, a parteira disse para a mãe de Jesus Noely Sortica que ele teria poucas chances de sobreviver. Católica fervorosa, Erondina Machado Sortica começou a rezar pela vida do bebê. Prometeu que, caso ele sobrevivesse, teria o mesmo nome de Cristo.

Essa teria sido, segundo Sortica, a primeira vez que foi salvo pelo "verdadeiro Jesus". A segunda seria anos mais tarde, quando servia ao Exército em Itaqui, na Fronteira Oeste. Com cerca de 20 anos, ele e outros colegas de quartel estavam em um caminhão que capotou durante uma viagem. Oito pessoas morreram na hora, e outras quatro, no hospital. Com a clavícula quebrada, Jesus passou 42 dias internado.

Desde os 22 anos, Jesus vive em Porto Alegre, onde conseguiu uma vaga em uma empresa de seguros, ramo no qual atuou até se aposentar. Primeiro, foi funcionário das seguradoras. Depois, montou seu próprio negócio, hoje gerido pelo filho:

— Muita gente brincava que não trocava o seguro de Jesus por nada.

Paralelamente ao trabalho, ele foi envolvendo-se cada vez mais com a religião católica. Uma figura importante nesse processo foi a mulher, Lucy da Silva Sortica, com quem é casado há 52 anos.

Lucy queria ser freira e chegou a estudar em um colégio interno em Veranópolis, mas acabou impedida pela família. Quando conheceu o pretendente, pediu a Nossa Senhora que enviasse um sinal autorizando a aproximação.

— Aí ele me disse que o nome dele era Jesus. Entendi o sinal — completa Lucy.

— Ela não queria casar com Jesus? Então, casou — brinca o marido, que acrescenta nunca ter ficado chateado por causa das piadas com o nome.

Foto: Omar Freitas / Agencia RBS

Igreja, segunda casa do homônimo do messias

O casal participa ativamente das atividades da Igreja Nossa Senhora da Saúde, no bairro Teresópolis, onde vive. Um dos exemplos é o Encontro de Casais com Cristo, do qual já participaram por 35 edições. Lucy foi professora da catequese, e Jesus, presidente do conselho paroquial.

— Também fui ministro da eucaristia por 35 anos. Só parei porque tive um AVC (acidente vascular cerebral) que dificultou meus movimentos da perna — relata.

Com dois filhos e dois netos, o casal vai à missa todos os domingos, fazendo da igreja uma segunda casa. Com exceção das procissões, Jesus e Lucy vivem intensamente todas as programações da igreja no período de Quaresma. De quinta a domingo, missas todos os dias estão na programação do casal. Nesta sexta, dia em que se lembra a morte de Cristo, os dois ficam sem comer carne e também permanecem mais silenciosos do que de costume. Participarão da missa às 15h. No sábado, pretendem ir à igreja à noite e, no domingo, pela manhã. É quando começa, para o casal, o clima festivo:

— Depois da ressurreição — explica Jesus.

Total de registros com o nome ao longo das décadas:
1930 — 723
1950 — 7.976
1960 — 7.912
1990 — 1.814
2000 — 1.960
— Até 2010, foram registrados como Jesus no país 33.756 homens e 2.018 mulheres.
— No Rio Grande do Sul, foram registrados 3.499 homens e 140 mulheres.

Fonte: banco de dados "Nomes no Brasil", do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE)

O Cristo que vive na Capital

Conhecido na Redação de ZH (e também fora dela) como Jesus, o ilustrador Gabriel Renner lida diariamente com brincadeiras a respeito de sua semelhança com a imagem mais difundida de Cristo. E aceita com naturalidade e bom-humor o apelido. Confira abaixo um breve relato sobre a sua experiência como o Messias do Cristianismo que transita diariamente entre os fiéis da Capital.

Um cara de quem todo mundo gosta 

Gabriel Renner
gabriel.renner@zerohora.com.br


Minha mãe se chama Maria, e ostento o nome do anjo mensageiro. Já me disseram que sou um Jesus universal, e até uma agente de fronteira do Conesul brincou com a minha Carteira de Identidade.

Percebo que Jesus é um cara de quem todo mundo gosta, indiferentemente de crença. Acho curioso como um personagem relacionado com tantas coisas específicas conquistou uma popularidade tão ampla.

Perguntam se não fico brabo com as piadas, e apenas digo que capitalizo-as a meu favor.

 
 
 
 
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