The New York Times

Grupo de teatro de exilados faz sucesso em Berlim

Por: The New York Times
20/04/2017 - 14h33min | Atualizada em 20/04/2017 - 14h34min

Berlim – Kenda Hmeidan chegou de Damasco em novembro. Ela deixou para trás sua família e um país em guerra. A separação foi dolorosa, mas seu caminho não foi o esperado. Ela é atriz e veio se juntar à recém-criada Exil Ensemble.

Trata-se de um grupo de sete intérpretes vindos da Síria, dos territórios palestinos e do Afeganistão que não podem prosseguir com sua arte em seus países e que agora contam com uma bolsa do Teatro Maxim Gorki, um dos palcos públicos mais criativos da Alemanha.

Quando a guerra começou, Hmeidan, de 24 anos, viu seus amigos fugirem para a Europa, mas escolheu ficar na Síria e conseguiu seu diploma de atriz em 2015.

"Eu não queria vir ilegalmente porque quero voltar para lá um dia", disse recentemente, sentada na cafeteria do Gorki.

Mas como você transforma sua própria chegada em arte com tanta rapidez? Como você encara o trauma? E como se expressa em um novo idioma?

Para Hmeidan e a Exil Ensemble, a resposta é "Winterreise" (Jornada de Inverno), um docudrama tragicômico construído em torno de uma viagem de ônibus que os atores fizeram pela Alemanha nas semanas mais frias de janeiro. A primeira produção de palco do grupo – uma poderosa confluência de arte, política e diáspora – recebeu ótimas criticas depois de estrear no Gorki.

"Eles estão no meio de um processo muito delicado. A guerra na Síria ainda está acontecendo. Eles têm famílias lá. As feridas estão abertas", conta Yael Ronen, diretora do Gorki que escreveu e dirigiu "Winterreise".

Algumas histórias que surgiram durante os ensaios eram muito cruas para serem colocadas no palco, então "Winterreise" se tornou uma espécie de meditação sobre exílio e chegada, construída mais em torno de uma jornada do que de um enredo.

"Tentamos mantê-la muito pessoal para não transformá-los em representantes ou naqueles que falam em nome dos refugiados que estão vindo para a Alemanha", explica Ronen, de 40 anos, que se mudou de sua Israel nativa para Berlim e ganhou elogios na Alemanha e na Áustria pelos monólogos que se baseiam na vida dos artistas. (Sua peça "The Situation", no Gorki, sobre israelenses e árabes em Berlim, foi escolhida no ano passado como a melhor da competição Theatertreffen para dramas de língua alemã.)

Os atores da Exil Ensemble possuem contratos de tempo integral no Gorki até o fim de 2018. Sua função é criar duas produções por ano, além de realizar oficinas e estudar para se preparar para fazer carreira nos palcos alemães. O Gorki é financiado pela cidade de Berlim e tem um grupo de 18 atores. A bolsa do Exil é patrocinada por 1,2 milhões de euros do governo federal alemão, da loteria de Berlim e da instituição privada Mercator Foundation.

A Munich Kammerspiele mantém uma iniciativa semelhante, o Open Borden Ensemble. Esses novos grupos são parte de uma crescente resposta cultural alemã ao influxo de mais de um milhão de pessoas do Oriente Médio que pediram asilo desde 2015, o que tem causado uma busca pela identidade nacional. Esse aumento também levou a um crescimento dos partidos políticos de direita, que argumentam que o país recebeu refugiados demais.

"Eu descreveria o clima da sociedade como muito frágil", afirma Philipp Ruch, diretor artístico do Center for Political Beauty, que produz "intervenções" artísticas com mensagens políticas contundentes.

"Os políticos dizem que já demos abrigo suficiente aos refugiados; agora isso tem que parar", conta ele.

Em um país rico como a Alemanha, que ainda está tentando lidar com seu passado nazista, "isso não tem nada a ver com a realidade", afirma.

A Exil Ensemble também possui um componente de turismo educacional. "Winterreise" ficará no Gorki até julho e depois vai viajar pela Alemanha até Zurique, apresentando-se em teatros que coproduziram a peça. O objetivo é aumentar a conscientização sobre os imigrantes, diz Shermin Langhoff, diretora artística do Gorki, que se mudou da Turquia para a Alemanha quando era criança e que frequentemente encomenda trabalhos que abordam questões de identidade.

Na Alemanha, aqueles que chegam da Síria "são todos chamados de pessoas dos botes. Mas é claro que entre eles também há artistas, intelectuais, cientistas, todos fugindo da guerra", afirma Langhoff.

A premissa de "Winterreise" é que um alemão, Niels (Niels Bormann) está hospedando seis pessoas recém-chegadas a Berlim. (A sétima integrante do grupo está de licença maternidade.) Depois que eles dizem que não o entendem – e que querem saber onde o relacionamento vai chegar – ele os leva a uma viagem de ônibus pela Alemanha. (O título da peça é inspirado no ciclo de músicas sóbrias e assustadoras de Schubert com o mesmo título que exploram a rejeição, a alienação e a solidão.)

Em Dresden, Niels quer mostrar a eles a capital do romantismo alemão, mas ao invés disso encontram uma demonstração da Pegida, um movimento anti-imigração cujo nome significa Patriotic Europeans Against the Islamization of the West (Europeus Patrióticos Contra a Islamização do Ocidente).

Na cena, Hussein, interpretado pelo ator de Damasco Hussein Al Shatheli, e Karim, vivido por Karim Daoud, campeão de parkour de Qalqiya, uma cidade palestina na Cisjordânia, olham pela janela do hotel para ler os cartazes dos manifestantes. "Fatima Merkel", diz um, referindo-se à chanceler alemã.

"Eu achei que era Angela", diz Karim em árabe.

Hussein responde: "Talvez seja seu nome do meio, como Barack Hussein Obama".

A cena arrancou aplausos na estreia. (Os diálogos da peça são em inglês, alemão e árabe, traduzidos em legendas em inglês e alemão.)

Em outra cena, Shatheli, de 32 anos, que nasceu na Síria e é filho de pais dos territórios palestinos, explica como chegou à Alemanha no começo de 2105. Ele voou para a Turquia, pagou um contrabandista para levá-lo para a Grécia, e pegou um avião para a Alemanha por Zurique depois de comprar um documento de identidade italiano falso.

"Eu gostaria de viajar livremente. Ser forçado a partir não é meu estilo de viagem", afirmou Shatheli em uma entrevista.

Shatheli também se formou pela Academia de Artes Cênicas de Damasco onde, com Hmeidan e Mazen Aljubbeh, outro sírio que integra o grupo, estudou com Ayham Majid Agha, de 36 anos, diretor artístico da Exil Ensemble, que ajudou a recrutá-los.

Os críticos de teatro alemães também elogiaram a maneira como "Winterreise" aborda, com humor, o choque cultural do sexo. Maryam Abu Khaled, de 26 anos, é de Jenin, um campo de refugiados palestinos que possui costumes sociais conservadores, e na peça sua personagem sofre para entender seu novo namorado alemão que está em um relacionamento aberto. "Deve haver alguma coisa para mim entre um casamento arranjado e um relacionamento aberto", diz ela.

Além do humor, há desvios pelo lado escuro da questão – inevitáveis, dadas a história e as circunstâncias. O grupo também visitou o campo de concentração Buchenwald. Agha conta que essa foi a parte mais difícil da viagem. Escritor e cineasta de origem checheno-armênia que cresceu na Síria – e estudou o método Stanislavsky em Damasco com professores russos – ele é casado com uma dramaturga alemã de origem russa-judaica, com quem têm dois filhos.

Se a filha de Agha conseguir um passaporte alemão, "ela será a responsável por essa história. Se eu conseguir um passaporte alemão, essa será a minha história.

Por Rachel Donadio

 
 
 
 
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