Comportamento

Jogo da Baleia Azul, que pode levar ao suicídio, é "perverso", dizem especialistas

Escolas já fazem ações para alertar estudantes sobre o assunto

Por: Angela Chagas, Larissa Roso e Itamar Melo
19/04/2017 - 17h38min | Atualizada em 20/04/2017 - 09h26min
Jogo da Baleia Azul, que pode levar ao suicídio, é "perverso", dizem especialistas Ver Descrição/Agencia RBS
Foto: Ver Descrição / Agencia RBS  

Enquanto mostram receios matizados quando falam do seriado 13 Reasons Why, profissionais que atendem jovens não escondem o horror se o assunto é outro fenômeno relacionado ao suicídio adolescente. Trata-se do Jogo da Baleia Azul, que está se espraiando mundo afora pelas redes sociais. Especula-se que mais de uma centena de suicídios na Rússia e até alguns casos no Brasil tenham ligação com a brincadeira macabra, uma espécie de gincana com tarefas a serem cumpridas ao longo de 50 dias. As "missões" seriam orientadas por um curador, que verificaria se os resultados alcançados pelos jogadores são satisfatórios, e apresentariam graus de dificuldade variados: assistir a filmes de terror, acordar de madrugada, desenhar baleias, criar inimizades e se automutilar. O 50º e último desafio seria o de tirar a própria vida.

Nos últimos dias, a polícia passou a investigar alguns casos que poderiam estar ligados à prática do jogo no Brasil. Nesta semana, por exemplo, teriam ocorrido em um único dia sete tentativas de suicídio entre adolescentes em Curitiba. Também há investigações no Rio de Janeiro, no Mato Grosso e na Paraíba.

— A série da Netflix tem um lado bom, que é fazer as pessoas conversarem e procurarem ajuda. O Baleia Azul é muito mais deletério, porque leva os jovens a uma coisa de assumir o risco, cumprir etapas, incluindo automutilação e autoagressão. É só ruim — critica o psiquiatra Neury José Botega.

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Rafael Moreno Ferro Araújo, coordenador do Comitê de Prevenção do Suicídio da Associação de Psiquiatria do Rio Grande do Sul (APRS), acredita que o Baleia Azul pode levar os adolescentes a se matarem por atuar na questão da habituação.

— Em geral, antes de acontecer o suicídio de forma letal, são necessários alguns requisitos. Se a pessoa tem medo de sofrer dor, a tendência é não tentar, por exemplo. Mas no momento em que ela vai fazendo pequenos testes de autodestruição, que vai acostumando o corpo a sofrer, pode-se chegar a uma tentativa de suicídio. Nesse jogo, eles começam com testes de dor, de sofrimento, e isso vai aos poucos habituando, deixando o jovem mais tolerante à dor, até que chega o ponto que ele tem de se matar. Quem inventou isso é muito perverso — avalia.

Como antídoto ao perigo, já começaram a surgir algumas iniciativas. É o caso do Baleia Rosa, uma página de Facebook criada por dois publicitários de São Paulo. Eles tentaram fazer exatamente o oposto do Baleia Azul, propondo uma lista de tarefas do bem. A página já passou de 145 mil curtidas.

Escolas fazem ações para alertar alunos sobre riscos do jogo Baleia Azul

A repercussão do jogo Baleia Azul entre adolescentes tem preocupado professores e gestores de escolas do Rio Grande do Sul. Algumas instituições começaram a fazer atividades para alertar os estudantes sobre os riscos do desafio, que inclui mutilações no corpo e até o suicídio. De acordo com a coordenadora das Comissões de Prevenção de Acidentes e Violência Escolar (Cipaves) da Secretaria Estadual da Educação, Luciane Manfro, o problema não é novo, mas se intensificou com o jogo e com a série da Netflix 13 Reasons Why, que aborda o suicídio de uma estudante.

Desde o ano passado, as Cipaves têm monitorado casos de automutilação e até tentativas de suicídio entre estudantes. Levantamento feito em 700 escolas estaduais apontou para 333 registros de automutilação no ano passado. Com a repercussão do jogo e da série, professores estão sendo orientados para que saibam identificar comportamentos de risco, como isolamento e agressividade, e até aspectos como cortes pelo corpo. Além disso, atividades de valorização da vida estão sendo incentivadas.

Em Novo Hamburgo, a Escola Estadual Ayrton Senna do Brasil reuniu todos os alunos a partir do 6º ano do Ensino Fundamental para um dia de atividades sobre o tema depois que alunos começaram a interromper os professores nas aulas para perguntar sobre o Baleia Azul. A mãe de um aluno, inclusive, procurou a instituição depois que flagrou mensagens do filho de 13 anos em um grupo de WhatsApp sobre o desafio.

— Nós chamamos o aluno para conversar e explicamos os riscos. Os adolescentes são muito curiosos e querem saber como é. O nosso foco tem sido estimular que procurem coisas saudáveis, o que os deixa felizes, que conversem com os pais e os professores — diz a orientadora educacional Deise Lousado Ostroski.

As escolas particulares estão sendo alertadas pelo Sindicato do Ensino Privado sobre a necessidade de prestar atenção ao comportamento dos estudantes e a importância de prevenir o bullying. O Colégio João XXIII, de Porto Alegre, passou a desenvolver, na última segunda-feira, um trabalho para tentar inverter a lógica destrutiva do jogo Baleia Azul. Os alunos foram incentivados a criar vídeos com exemplos de atitudes positivas, como ajudar os colegas e valorizar as coisas boas da escola.

— É papel da escola acionar os pais, o Conselho Tutelar, a rede de saúde, caso algum transtorno de comportamento seja percebido. E incentivar o diálogo sempre com os adolescentes, para que eles se sintam incluídos e possam relatar possíveis problemas — afirma a coordenadora das Cipaves, Luciane Manfro.

ONDE BUSCAR AJUDA

Centro de Valorização da Vida
Oferece ajuda por telefone, chat, skype, e-mail e presencialmente
Telefones 141 (24 horas, para todo o país) e 188 (gratuito, apenas para o RS)
www.cvv.org.br 
facebook.com/cvv141

— O Programa de Depressão na Infância e Adolescência do Hospital de Clínicas de Porto Alegre tem limitações de atendimento, mas é possível pedir encaminhamento para lá em qualquer posto de saúde pública

SITES COM ORIENTAÇÃO

Setembro Amarelo
Movimento Conte Comigo
Associação Brasileira de Estudos e Prevenção ao Suicídio
> Cartilha Suicídio: Informando para prevenir
Produzida pela Associação Brasileira de Psiquiatria e do Conselho Federal de Medicina. Disponível no site do CVV, na aba Conheça Mais, ou em zhora.co/cartilha-prevenir

 
 
 
 
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