The New York Times

Por que o otimismo pode ser bom para a saúde

Por: The New York Times
13/04/2017 - 14h36min | Atualizada em 13/04/2017 - 14h36min

"Veja o lado positivo da vida".

"Vire o rosto na direção do sol que as sombras vão se esconder atrás de você".

"Talvez nem todo dia seja bom, mas há algo bom todos os dias".

"Veja o copo meio cheio, não meio vazio".

Os pesquisadores estão descobrindo que pensamentos como esse, marca registrada das pessoas muitas vezes chamadas de "otimistas cegas", conseguem mais do que apenas elevar o moral; podem melhorar a saúde e prolongar a vida.

Não há mais nenhuma dúvida de que o que acontece no cérebro influencia o que se passa no corpo. Diante um problema de saúde, cultivar ativamente as emoções positivas pode reforçar o sistema imunológico e combater a depressão. Estudos mostram uma ligação indiscutível entre uma visão de mundo positiva e os benefícios para a saúde, como pressão sanguínea mais baixa, menos doenças cardíacas, melhor controle do peso e níveis mais saudáveis de açúcar no sangue.

Mesmo encarando uma doença incurável, sentimentos e pensamentos positivos podem melhorar muito a qualidade de vida da pessoa. A Dra. Wendy Schlessel Harpham, autora de diversos livros para quem sofre de câncer, incluindo "Happiness in a Storm", era residente quando descobriu que tinha linfoma não Hodgkin, câncer que atinge o sistema imunológico, há 27 anos. Durante os quinze anos seguintes de tratamento para as oito vezes em que a doença voltou, ela conta que, em todas, se preparou para a felicidade e esperança, através de atitudes como se cercar de pessoas que a animavam; manter um diário de gratidão; fazer algo bom para outra pessoa; assistir a filmes engraçados e motivadores. Seu câncer agora está em remissão há doze anos.

"Nutrir emoções positivas me ajudou a fazer da minha vida o melhor que ela poderia ser. Elas tornaram as situações difíceis mais suportáveis, mesmo não fazendo diferença nenhuma nas células cancerosas", diz.

Embora a Dra. Harpham tenha uma disposição natural para ver o lado mais positivo da vida, mesmo quando os prognósticos são sombrios, novas pesquisas estão mostrando que as pessoas podem aprender habilidades para ajudá-las a vivenciar emoções mais positivas quando enfrentam o alto nível de estresse de uma doença grave.

Judith T. Moskowitz, professora de Ciências Sociais Médicas da Faculdade de Medicina Feinberg da Universidade Northwestern, em Chicago, desenvolveu uma série de oito passos para ajudar a desenvolver o positivismo. No estágio inicial das pesquisas da Universidade da Califórnia, em San Francisco, ela e os colegas descobriram que as pessoas recém-diagnosticadas com HIV que praticavam essa sequência tinham uma carga menor do vírus, mais probabilidade de tomar os remédios corretamente e chances menores de necessitarem de antidepressivos para ajudá-los a lidar com a doença.

Os pesquisadores analisaram 159 pessoas que tinham recebido recentemente o diagnóstico de HIV e as dividiram, aleatoriamente, para receber ou cinco sessões de treinamento de emoções positivas, ou cinco de apoio em termos gerais. Um ano e três meses depois da descoberta da doença, os que aprenderam os oito passos mantinham níveis mais altos de otimismo e poucos pensamentos negativos em relação à infecção.

Um objetivo importante do treinamento é ajudar as pessoas a se sentirem felizes, calmas e satisfeitas em meio à crise. A melhora na saúde e a longevidade são um bônus. Cada participante é estimulado a aprender pelo menos três dos oito passos e praticar um ou mais todos os dias. Os oito passos são:

– Reconhecer um evento positivo todo dia.

– Vivenciá-lo e registrá-lo por escrito ou contar para alguém.

– Começar um diário de gratidão.

– Identificar uma qualidade pessoal e perceber como faz uso dela.

– Estabelecer um objetivo alcançável e observar seu progresso.

– Registrar um estresse relativamente pequeno e listar várias formas de reavaliá-lo de forma positiva.

– Reconhecer e praticar pequenos atos de gentileza diariamente.

– Praticar a atenção plena (mindfulness), concentrando-se no aqui e agora em vez do passado ou presente.

Judith conta que se inspirou nas observações de que quem sofre de Aids, diabete tipo 2 e outras doenças crônicas vive mais se demonstra emoções positivas. E explica: "O passo seguinte foi ver se o ensinamento dessas noções teria algum impacto na forma de lidar com o estresse e na saúde física no futuro."

Ela enumerou como objetivos: a melhoria da qualidade de vida do paciente, mais disposição em relação à medicação, desenvolvimento de um comportamento mais saudável e a geração de recursos pessoais que resultem em um apoio social mais amplo e mais atenção às coisas boas da vida.

Gregg De Meza, arquiteto de 56 anos de San Francisco que soube estar com HIV há quatro anos, me disse que aprender a técnica da "positividade" transformou sua vida. Confessou se sentir "um burro descuidado" por ter sido infectado e, a princípio, manteve o diagnóstico em segredo.

"Quando entrei para o estudo, senti que um mundo inteiro estava se desvendando para mim. O treinamento me fez lembrar que devo contar com minha rede social e decidi ser honesto com os amigos. Percebi que, para mostrar minha verdadeira força, preciso primeiro mostrar minha fraqueza. Fez com que me sentisse mais positivo, mais solidário, e hoje estou me sinto mais saudável do que nunca", confessa.

Em outro estudo com 49 pacientes com diabete tipo 2, uma versão on-line do curso de desenvolvimento de emoções positivas foi efetivo porque aumentou o otimismo, reduzindo automaticamente o negativismo e o estresse. Estudos anteriores mostraram que, para os diabéticos, os sentimentos positivos estão associados a um melhor controle do nível de açúcar no sangue, um aumento na atividade física e alimentação saudável, menor consumo de cigarros e menor risco de morte.

Judith conta que a mesma alternativa, utilizada em um estudo piloto com 39 mulheres com câncer de mama em estágio avançado, ajudou a diminuir a depressão das pacientes. E também de cuidadores de pacientes com demência.

"O conceito não é complicado ou revolucionário. Simplesmente reuni essas habilidades e passei a testá-las de modo científico", afirma.

Em um estudo relacionado com mais de quatro mil pessoas de 50 anos ou mais, publicado no ano passado no Journal of Gerontology, Becca Levy e Avni Bavishi, da Faculdade de Saúde Pública de Yale, provaram que encarar o envelhecimento de forma positiva pode ter uma influência benéfica na saúde e, consequentemente, resultar em longevidade.

Becca Levy disse que dois possíveis mecanismos são responsáveis por esses resultados: psicologicamente, pode reforçar a crença da pessoa em suas próprias habilidades, diminui o estresse e estimula um comportamento saudável; fisiologicamente, quem encara o envelhecimento como algo positivo tem um nível menor de proteína C-reativa – índice de inflamações causadas por estresse associada às doenças cardíacas e outros problemas de saúde –, mesmo depois de se levar em consideração fatores como idade, estado de saúde, sexo, raça e educação em relação aos pessimistas. E vivem muito mais tempo.

Por Jane E. Brody

 
 
 
 
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