The New York Times

Será que os programas que ajudam os militares podem salvar as agências federais de artes?

Por: The New York Times
11/04/2017 - 15h07min | Atualizada em 11/04/2017 - 15h07min

Bethesda, Maryland – Primeiro eles pintam; depois, escrevem histórias ou expressam suas emoções tocando bateria ou piano.

Por fim, os militares que participaram da arteterapia no Centro Médico Militar Nacional Walter Reed criaram seu "projeto culminante", uma montagem de formas e palavras.

"Isso lhes dá uma voz visual", disse Melissa Walker, terapeuta do programa Creative Forces (Forças Criativas), uma parceria do Fundo Nacional para as Artes (NEA, na sigla em inglês) com as Forças Armadas.

No dia 28 de março, o fundo anunciou que o programa, existente em sete localidades em todo o país, se expandirá para mais quatro.

Os responsáveis pelo fundo descrevem a expansão, planejada há quase dois anos, como um reforço valioso para um programa que tem mostrado bons resultados com membros das forças armadas e veteranos. Eles dizem que não há nenhuma ligação entre o momento do anúncio e a necessidade de conseguir apoio para a agência federal, pois o presidente Donald Trump ameaça eliminá-la completamente.

Mas o crescimento dos programas que beneficiam militares e veteranos também ajudou a agência a conquistar apoio entre alguns republicanos e a rebater as críticas de que é um grupo elitista e de esquerda.

"As pessoas sabem que temos uma dívida profunda com nossos veteranos. Tirar isso deles seria um suicídio político. Não sei dizer por que o programa foi iniciado, mas não há dúvidas – pois os políticos e o público relutam muito em tirar qualquer coisa desse grupo – de que seria uma atitude sábia falar sobre arteterapia para os ex-combatentes", disse Mark Mellman, especialista em pesquisa de opinião que trabalhou na campanha presidencial do democrata John Kerry, em 2004.

Basta rever como Trump falava de questões dos veteranos durante sua campanha presidencial para compreender a força do debate sobre a adequação da assistência oferecida a seus militares. Agora, com o destino do Fundo Nacional para as Artes e do Fundo Nacional para as Ciências Humanas (NEH) nas mãos dos parlamentares republicanos que controlam o Congresso, aqueles que apoiam essas agências dizem que mencionar o trabalho que fazem com militares e veteranos é importante para o lobby no legislativo.

"Isso definitivamente chega aos ouvidos do Congresso, como deveria", disse Robert L. Lynch, presidente do grupo de defesa Americans for the Arts.

No centro médico em Bethesda, Maryland, porém, o foco está em melhorar, não em conquistar votos. Todos os pacientes de arteterapia sofreram traumatismo crânio-encefálico ou têm transtorno de estresse pós-traumático. Os organizadores dizem que o programa de um mês os ajuda a lidar com as memórias assustadoras, as deficiências e o futuro.

"Muitos deles têm dificuldade de verbalizar o que aconteceu", disse Walker.

O foco no início é em pintura de máscaras, cada uma tratada como uma folha em branco que ajuda o paciente a explorar feridas e identidade. Elas estão penduradas nas paredes e uma mesa de pintura salpicada de tinta na sala de terapia. Algumas são fraturadas, outras, macabras e poucas são pacíficas.

"Eu estava meio perdido", disse em uma entrevista por telefone Chris Stowe, fuzileiro aposentado que estudou pintura a óleo e aprendeu a tocar ukulele no programa.

Depois de ter servido no Iraque e no Afeganistão, ele conta que sofria com terrores noturnos e insônia. "Descobri essa coisa maravilhosa que é a arte."

Rusty Noesner, ex-membro dos SEALs da Marinha, foi ferido no Afeganistão. "Você vive a 160 km/h e depois de servir está sempre pisando no freio. O processo artístico é uma pausa para começar a pensar sobre como deve viver sua vida agora", disse ele por telefone.

Walter M. Greenhalgh, capitão da Marinha e diretor do National Intrepid Center of Excellence, que sedia o programa no Walter Reed, disse que os pacientes muitas vezes se surpreendem com a ajuda para "externar os demônios interiores".

A extensão dos programas do NEA em alguns setores militares vem crescendo desde a era do Vietnã, quando da doação de US$1.980 para apoiar uma exposição em West Point. No ano passado, houve 25 subsídios diretos relacionados aos militares no valor de US$499 mil que financiaram o Creative Forces, com um custo adicional de US$ 2,3 milhões.

O fundo salienta que sua expansão nessa área, desde a década de 1990, quando os críticos conservadores o acusavam de elitista e irrelevante, não é uma estratégia política, mas sim parte de um esforço para "aumentar o acesso às artes para todos os americanos". A agência diz que a mesma missão está por trás de sua decisão de financiar inúmeros projetos em cada distrito congressional.

Porém, os esforços não convenceram alguns conservadores, que dizem que o mesmo tipo de programa de arteterapia para os militares pode ser fornecido por organizações privadas sem fins lucrativos, e que alguns até já existem. "O envolvimento do NEA em programas para membros das forças armadas, por si só, não justifica a existência da agência", disse Romina Boccia, membro da conservadora Heritage Foundation.

O Creative Forces irá se expandir para Fort Campbell, na fronteira Kentucky/Tennessee, para o Hospital de Veteranos James A. Haley em Tampa, Flórida, Fort Carson, no Colorado, e o Naval Special Warfare Command em Virginia Beach, Virgínia.

Os programas do NEH para os veteranos ou o pessoal de serviço incluem o Warrior Chorus, em que eles apresentam textos clássicos e outros de sua própria criação. O programa recebeu US$650 mil da agência desde 2014, incluindo outros US$300 mil já anunciados.

Uma das suas produções, "Our Trojan War", foi encenada em março em Austin, Texas, e irá para o BAM Fisher em Nova York em abril.

Marco Reininger, que serviu no Afeganistão, participou de uma produção anterior, a peça "Filoctetes", de Sófocles. "Vi através da peça como pouca coisa mudou sobre a realidade do conflito armado e a experiência dos humanos encarregados de executá-lo, o que me tocou profundamente. Os soldados e os cidadãos da Grécia antiga tinham as mesmas perguntas e o mesmo trauma dos de hoje."

O destino de projetos como o Warrior Chorus provavelmente será determinado em comissões de fundos do Congresso, que vai considerar se as duas agências devem ser financiadas, e em que nível. No passado, os legisladores citavam os programas de militares e veteranos para justificar aumentos de orçamento dos fundos, que agora recebem cerca de US$ 148 milhões cada um.

Muitos membros do comitê não disseram se vão apoiar as agências, mas pelo menos um membro republicano, a senadora Lisa Murkowski, do Alasca, que é presidente do painel que supervisiona os fundos, já os apoiou.

Ao explicar seu motivo, ela falou do trabalho do NEA em seu distrito, incluindo o trabalho de arteterapia, que ela lutou para ampliar e está sendo realizado na Joint Base Elmendorf-Richardson em seu estado.

"Sempre apoiei os fundos para artes e ciências humanas e vi os benefícios desses programas em comunidades por todo o Alasca", disse Murkowski em uma declaração. Ela citou o programa do Alasca, que "trata de nossos militares feridos".

Por Graham Bowley 

 
 
 
 
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