The New York Times

Uma ex-primeira-dama prega um islã mais tolerante e feminista

Por: The New York Times
19/04/2017 - 14h45min | Atualizada em 19/04/2017 - 14h46min

Jacarta, Indonésia – As mulheres transgênero muçulmanas examinaram a recepção com espanto. Estava lotada de homenagens opulentas de líderes estrangeiros: espadas decoradas com filigranas douradas do Kuwait, urnas com pinturas elaboradas da China e versos do Corão em molduras elegantes. Por fim, a anfitriã, Sinta Nuriyah, 69 anos, surgiu em sua cadeira de rodas, passando pelo busto gigante do marido, Abdurrahman Wahid, ex-presidente e voz poderosa da facção moderada do Islã.

As mulheres, todas de véu de cabeça e vestidos tradicionais, procuraram Sinta em busca de conselho. A escola islâmica feminina que frequentavam foi fechada por uma organização linha-dura em meio à repressão nacional contra instituições LGBT, e não sabiam o que fazer para reabri-la.

Sinta, usando um xale de batik com um véu que cobria parte do cabelo, estava bem-humorada como sempre, ouvindo com atenção e usando as pausas na conversa para dar conselhos. "Procurem o chefe do distrito regional. Todo mundo tem direito a louvar Deus, não só alguns. Essa é a verdade do Islã."

E deu um sorriso radiante para as mulheres à sua frente, segurando suas mãos e abraçando-as enquanto se amontoavam ao redor da cadeira para tirarem selfies.

"Não existe outra pessoa na Indonésia como ela, que se importe tanto com os grupos marginalizados", afirma Shinta Ratri, líder da escola, emocionada.

Desde a morte do marido, em 2009, Sinta, especialista em Estudos Feministas que ficou paraplégica após um terrível acidente de carro, nos anos 90, leva adiante a campanha da família por um Islã feminista e mais tolerante. "Vivemos entre pessoas de religiões, etnias e culturas diferentes. É necessário confrontar os extremistas", afirmou em uma entrevista.

De uns anos para cá, o sofrimento é cada vez mais aparente no tecido pluralista indonésio, principalmente porque os grupos religiosos mais radicais que antes viviam à margem da política nacional passaram a exercer uma influência inédita. O primeiro governador cristão de Jacarta em décadas, Basuki Tjahaja Purnama, também conhecido como Ahok, está sendo processado por "insultar o Corão", após uma campanha vigorosa por parte dos linha-dura para tirá-lo do poder.

Sinta foi uma das poucas figuras muçulmanas de destaque a defender Basuki depois que ele foi indiciado, em 2016, elogiando-o em uma aparição recente na TV como "um homem corajoso a ponto de se manifestar e tomar sua posição em relação ao grupo dominante".

Seu ativismo em nome das minorias frequentemente a coloca como objeto de críticas dos extremistas. Há 16 anos ela faz questão de viajar pelo país durante o Ramadã, organizando cerimônias de quebra do jejum interconfessional para promover a tolerância.

No ano passado, em uma igreja católica em Semarang, foi confrontada por um grupo cujos membros a acusavam de promover a mistura das tradições das duas religiões. O caso foi registrado com tanto alarde pela imprensa que o líder da divisão regional da Banser, uma milícia islâmica moderada, anunciou que mobilizaria seus homens para proteger os eventos dela no futuro.

"Eles têm que ser enfrentados. Se não for assim, vão se entusiasmar e se tornar ainda mais ousados", disse, referindo-se aos radicais que tentaram interromper inúmeros programas que ela organizou no ano passado.

Sinta também briga para promover os direitos da mulher. Em um talk show que será televisionado no fim deste mês, o apresentador lhe perguntou se era contrária à poligamia, comentando que tinha ouvido falar a respeito de um homem que era totalmente justo com suas doze mulheres.

"Quem consegue ser justo tendo várias mulheres?", ela retorquiu.

Nada na infância de Sinta dava ideia de sua ascensão meteórica.

Nascida em 1948 em Jombang, interior da Java Oriental, era a mais velha dos 18 filhos de um calígrafo casado com uma mulher só. Foi educada no colégio interno islâmico feminino, onde impressionou os professores por sua religiosidade e ambição acadêmica.

Jovem e carismático, Wahid, filho do líder da Nahdlatul Ulama, maior organização muçulmana da Indonésia, era um deles. E se apaixonou pela jovem bonita e falante, na época com apenas treze anos. Ele ia à sua casa, depois da aula, para jogar xadrez com seu pai, até que um dia lhe pediu a mão da filha em casamento.

Sinta, porém, disse que não estava interessada. "Eu era muito jovem, o amor não tinha desabrochado ainda", conta. O fato de uma menina de família comum ter negado o pedido de Wahid foi considerado um escândalo, mas o pai deixou que ela se decidisse.

Foi o início pouco promissor de um lindo romance.

Depois que o rapaz se mudou para o Cairo para estudar e começou a ter problemas acadêmicos, Sinta lhe escreveu uma carta: "O homem não deve fracassar em tudo na vida. Se no momento você está tendo problemas com os estudos, não deveria também ser infeliz no amor."

Aproveitando a deixa, escrevendo então de Bagdá, para onde tinha se mudado, voltou a pedi-la em casamento. Dessa vez ela estava pronta, mas porque ele ainda teria que passar três anos no Iraque, foi o avô do rapaz que o representou na cerimônia.

Depois que Wahid retornou para a Indonésia, em 1971, Sinta se formou em Lei Islâmica, mas abdicou dos estudos para começar família. Acabou tendo quatro filhos, que criou fazendo e vendendo doces e congelados.

Em 1992, voltou a estudar, matriculando-se no curso recém criado de Estudos Feministas da Universidade da Indonésia. "Eu queria analisar até que ponto a religião molda a vida das mulheres e também como elas influenciam a religião", afirma.

Teve também o ano em que sofreu o acidente. Foi jogada para fora do automóvel e se viu no asfalto, incapaz de se mexer. Ela se lembra de ter passado uma época miserável e deprimente no hospital, cercada por outros pacientes, vítimas de AVCs e outros acidentes. Depois de um ano de fisioterapia, finalmente conseguiu mover os braços, mas continuou paralítica da cintura para baixo.

Ela queria continuar o curso, mas sua sala ficava no quarto andar do prédio. Quando o elevador quebrou, pediu aos amigos que fizessem uma maca de bambu e aos seguranças, que a levassem para a aula todo dia. "Sou do tipo de pessoa que, quando quer alguma coisa, não descansa até conseguir", admite.

O tema de sua tese final foi o efeito da gravidez nas meninas que são forçadas a se casar, o que a fez retomar o contato com uma antiga colega – e viu como sua vida poderia ter sido bem diferente. "Minha amiga tinha 16 filhos porque o marido era um religioso famoso que queria ter uma prole de 25", conta, balançando a cabeça.

Em 1999, depois que o ditador Suharto renunciou, seu marido se tornou o primeiro presidente da Indonésia a vencer uma eleição contestada. Enquanto a família Suharto, notoriamente corrupta, vivia no luxo ostensivo, Sinta aconselhou o marido a exibir uma humildade democrática, razão pela qual o casal ainda hoje é visto com carinho. "Nunca precisamos agir ou usar roupas para parecermos reis", afirma.

O marido foi impedido dois anos após a posse por não conseguir manter a ordem nos primórdios da democracia indonésia, mas ambos continuaram ativos na vida pública. Sinta criou uma rede de colégios internos islâmicos progressistas para promover a igualdade de gêneros nas áreas menos desenvolvidas e conservadoras da nação.

"Não é fácil apagar ensinamentos profundamente arraigados", constata, observando que embora os clérigos mais velhos tenham protestado contra sua revisão do currículo tradicional das escolas femininas, outros o adotaram com gosto.

E se confessa extremamente preocupada com a capacidade das instituições muçulmanas moderadas nacionais de reverter a maré do fundamentalismo islâmico.

"Agora a nossa luta é ainda mais importante do que a inicial, que foi contra as forças colonialistas e imperialistas porque hoje aqueles que enfrentamos não são estrangeiros; são integrantes da nossa nação."

Por Jon Emont

 
 
 
 
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