The New York Times

A verdade sobre Harper Lee em novo livro

Por: The New York Times
08/05/2017 - 13h33min | Atualizada em 08/05/2017 - 13h34min

Auburn, Alabama – Wayne Flynt acabou fazendo o discurso no funeral de Harper Lee no ano passado, mas esse historiador e escritor do Alabama não se deu muito bem com a romancista, quando se conheceram, em 1983, na pequena cidade de Eufaula, no Alabama.

Ele pediu que ela assinasse sua cópia de "O Sol é Para Todos".

"Ela disse: 'Não, só dou autógrafo para crianças'. Eu achei muita grosseria. De fato, tinha a ver com as coisas que tinha lido a seu respeito", contou Flynt, rindo, durante uma entrevista.

Mas nos 25 anos que se seguiram, o professor emérito de História na Universidade de Auburn, de 76 anos, disse que se aproximou de Lee, que ficou famosa pela reclusão, e faria 91 anos no dia 28 de abril. Seu novo livro, "Mockingbird Songs: My Friendship With Harper Lee" (O Canto da cotovia: minha amizade com Harper Lee), se baseia na relação dos dois, nas coisas que ele captava durante as visitas que fazia à casa de repouso, onde ela passou seus últimos anos, e nas cartas que ela lhe mandava, que dão uma ótima noção da personalidade de um dos grandes enigmas literários dos últimos cinquenta anos.

Em uma delas, escrita em março de 2006, ela chama Truman Capote, seu amigo de infância e rival literário, de mentiroso.

"Não sei se você via isso nele, mas suas mentiras compulsivas eram do tipo que, se você perguntasse 'Sabia que JFK foi assassinado?', ele responderia, 'Sim, eu estava dirigindo o carro em que ele estava'", escreveu ela.

Em seus escritos, Lee disse que a bebida e a miséria de Capote azedaram sua amizade. O ciúme acabou com tudo de vez.

"Eu era sua melhor amiga, mas fiz uma coisa que Truman não podia perdoar: escrevi um livro que fez sucesso. Ele alimentou sua inveja por mais de 20 anos", escreveu ela.

O livro de Flynt oferece um raro vislumbre por trás do muro que Lee construiu em torno de si mesma depois que o sucesso repentino de "O Sol é Para Todos" a tornou famosa. O romance sobre a injustiça racial na década de 1930 vendeu mais de 40 milhões de cópias, ganhou o Pulitzer em 1961 e criou tamanho interesse em torno dela que, por fim, Lee se retirou da vida pública.

Parou de dar entrevistas na década de 1960 e disse a Flynt que geralmente vomitava antes de dar uma palestra – o problema era tão grande que ela arranjou uma fala para estimulá-la, "um mantra bem egoísta", para ajudar a aliviar a pressão.

De acordo com uma carta de 2006, ele era assim: "Sou mais velha que qualquer um aqui, sei mais que qualquer um aqui, então por que deveria ter tanto medo?"

"Funcionava por cerca de 15 minutos."

Flynt e sua esposa, Dartie, eram umas das poucas pessoas que continuavam a fazer parte do círculo íntimo de Lee, que encolheu nos anos que antecederam sua morte, aos 89 anos. A amizade nasceu, segundo ele, das semelhanças de senso de humor e do amor que partilhavam pela história do Alabama.

Lee disse que não queria que ele escrevesse sobre ela enquanto ainda estivesse viva, mas, de acordo com Flynt, não falou nada sobre escrever depois de sua morte.

"Isso permite que ela fale do além, sem qualquer risco à sua privacidade", disse ele.

Pelo menos dois outros livros sobre ela estão previstos para os próximos anos: o escritor da revista The New Yorker, Casey Cep, vai explorar um romance inacabado de Lee em um livro para Alfred A. Knopf no ano que vem. A família de Lee também está procurando um biógrafo, porque os parentes dizem não estar satisfeitos com a biografia não autorizada de Charles J. Shields sobre ela, de 2006. Isso totaliza pelo menos seis livros de grandes editoras sobre uma mulher que escreveu apenas dois.

O livro de Shields, "Mockingbird: A Portrait of Harper Lee", que vendeu muito bem, foi bem recebido. Garrison Keillor, em sua crítica no New York Times, descreveu Shields como "um jornalista escrupuloso que respeita a privacidade da escritora, mesmo quando escancara sua vida".

Lee não gostou muito.

Em uma carta, datada de 28 de março de 2006, ela disse que o livro vai da "ficção à bobagem", e chamou Shields de "esquisito".

"Eu sei que ela odiou. Achou mal escrito", disse Claudia Durst Johnson, escritora e amiga de Lee.

Shields acha que Harper Lee e sua irmã Alice ficaram particularmente chateadas com a descrição de sua mãe, Frances Finch Lee, como maníaco-depressiva.

Hank Conner, sobrinho das duas, disse: "Acho que ele falou algumas coisas sobre minha avó que não eram verdade".

Shields afirmou que tentou ser discreto ao mencionar a saúde mental de Frances Finch Lee, mas disse que sentiu que o tema precisava ser abordado.

Harper Lee foi uma prolífica escritora de cartas. Suas missivas para Flynt muitas vezes passavam de 12 páginas em letra cursiva inclinada e um tanto desleixada. Nelas, o amor por Manhattan é aparente. Lee manteve um apartamento lá de 1949 até quando sofreu um derrame, em 2007, o que a trouxe de volta ao Alabama. Nova York era um refúgio para ela, que gostava de assistir aos jogos do Mets, aos shows na Broadway e de visitar o Museu Metropolitano de Arte. Ela escreveu que, se morresse em Nova York, ia querer que suas cinzas fossem espalhadas por Manhattan "sem cerimônia."

As cartas de Lee estão cheias de piadas autodepreciativas sobre sua degeneração macular, que nos últimos anos havia danificado sua visão – "'Cego' é agora uma palavra inaceitável, como 'pecado'" – e sobre sua luta com a fama. Não era só a luz forte do mundo das celebridades que a preocupava, mas os impulsos mais escusos que o estrelato pode provocar. Flynt conta que ela descreveu um encontro com um fã que a perseguiu de Birmingham até sua casa em Monroeville. "Isso só fortaleceu seu receio em termos de segurança", disse ele.

"Ela estava obcecada com a ideia de perseguição e assassinato; realmente tinha medo de ser morta por causa de neuroses alheias", contou Flynt.

Embora mantivesse o público à distância, Lee foi leal aos amigos e à família, cuidando de seu irmão, de seu pai e de seu agente literário, Maurice Crain, no final de suas vidas. "Ela tinha uma empatia incrível, e isso é uma parte de sua vida que as pessoas não entendem", disse Flynt.

Lee elogiou sua irmã Alice, que morreu em 2014, como "a pessoa mais notável que já conheci".

"Ela evita que eu seja presa", escreveu.

Flynt descreveu Lee como uma cristã realista, que não era sentimental em relação à religião e gostava de ler o apologista C.S. Lewis. Um livro de obras completas do autor estava sobre uma banqueta quando ela morreu, disse Flynt.

Em suas cartas, Lee frequentemente mencionava livros e escritores. Elogiou vários, de Frank McCourt a William Faulkner. Ela se referia a Eudora Welty como "minha deusa".

Quanto ao seu próprio trabalho, disse que estava contente com "O Sol", embora, apesar de sua popularidade, ela visse suas deficiências.

"Gostaria de saber qual seria a reação de todos se esse fosse um livro fosse complexo, azedo, sentimental, racialmente apaternalístico, porque Atticus era um filho da mãe", ela escreveu a Flynt no dia 31 de julho de 2006.

Na época ele não sabia, mas ela realmente havia escrito esse livro. Chamava-se "Go Set a Watchman", que retrata Atticus como racista, não herói – um primeiro rascunho que, no fim, foi reescrito e se tornou "O Sol".

"Watchman" ressurgiu e foi publicado em 2015, em meio a preocupações de que Lee, idosa e doente, talvez não tivesse participado da decisão de publicar seu primeiro romance há muito tempo esquecido e com falhas (que até agora já vendeu mais de três milhões de cópias, de acordo com a HarperCollins), mas, na época, Flynt garantiu que ela havia recebido bem a ideia da publicação.

Agora, em retrospecto, a carta de 2006 de Lee para Flynt nos dá uma ideia do porquê.

Por Jennifer Crossley Howard

 
 
 
 
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