The New York Times

Como o Hulu e "The Handmaid's Tale" ressuscitaram duas carreiras

Por: The New York Times
09/05/2017 - 14h37min | Atualizada em 09/05/2017 - 14h37min

Um dos seriados mais aguardados da TV este ano, "The Handmaid's Tale", estreou no Hulu sob críticas entusiasmadas e pode representar um raro sucesso para o serviço de streaming.

Só que isso não teria sido possível sem Danny e Fran.

Até pouco tempo atrás, a produtora administrada por Daniel Wilson, 87 anos, e sua sócia, Fran Sears, de 70, andava mais ou menos parada. O trabalho tinha minguado e Hollywood a tinha esquecido há anos.

"Quando o telefone tocava, eu sempre achava que era alguém querendo saber se a gente ainda estava vivo", conta ela, em entrevista recente, rindo.

Wilson, porém, tinha um trunfo muito especial na manga: o controle de uma grande parte dos direitos sobre o romance de 1985 de Margaret Atwood, "O Conto da Aia", que transformou em um longa totalmente descartável em 1990. E se o Hulu queria levar a história para a TV, teria que ser através da Daniel Wilson Productions.

E foi assim que, graças a uma virada do destino, uma negociação oportuna e um cenário televisivo altamente competitivo, Danny e Fran voltaram à ativa.

Resumindo a saga, eles tiveram que, entre outras coisas, ressuscitar uma empresa que estava praticamente fechada e estudar um setor que tinha mudado drasticamente e para o qual os serviços de streaming se tornaram cada vez mais importantes. Além disso, tiveram que se familiarizar com tarefas totalmente novas, como a criação de uma identidade digital.

"Olhamos um para o outro e dissemos: 'Ai, Jesus, não vai ter outro jeito. Vamos ter que fazer", comenta Fran sobre a criação do site. "Somos um lixo com a página na Wikipédia e no IMDb. Não faz parte da nossa sensibilidade, sabe?".

Wilson é franco: "Não ficou muito bom, não", confessa.

Há pouco tempo, em Manhattan, a dupla (eles não são casados um com o outro) discutia a volta um tanto improvável no apartamento dele, no Upper East Side. Ao longo do bate-papo que durou uma tarde inteira, Fran teve que se desculpar várias vezes para atender ao telefone, sussurrando "Daniel Wilson Productions" toda vez que atendia.

Uma estante estava lotada com os prêmios que Wilson ganhara nos anos 70 e 80, incluindo diversos Emmy, embora fosse meio difícil identificar em quais categorias, pois as placas estavam até desgastadas.

Embora Wilson e Sears não sejam responsáveis por "The Handmaid's Tale", os dois se viram, com certa surpresa, no papel de produtores executivos. Com isso, receberam prioridade no desenvolvimento do roteiro, seleção de elenco e no processo de produção, além da liberdade de oferecer comentários aos roteiristas e executivos responsáveis pela série.

E ficaram maravilhados com as mudanças no setor. "Os executivos da TV de hoje são muito menos belicosos", constata ele. "Passaram de magnatas de charuto espetado na boca a jovens hipsters", resume ela.

E havia também o planejamento diário de cada dia de filmagem – e o que antes era um processo exaustivo que levava horas para produzir, agora podia ser visto pelos dois, em imagem de altíssima qualidade, em suas respectivas casas, às oito da manhã.

"Eu levantava, fazia minhas coisas, de pijama e com a minha xícara de café, assistia à programação diária e depois era só ligar para o Danny para perguntar se ele tinha visto também", se maravilha Fran.

Os dois se conheceram nos anos 60, quando trabalhavam em um programa infantil da ABC. Não demorou muito e a Daniel Wilson Productions já estava na ativa e eles, fazendo especiais com títulos como "The Terrible Secret" e "Me and Dad's New Wife".

Conforme os prêmios começaram a se acumular, resolveram se aventurar com os filmes para a TV e minisséries. A produtora tinha doze funcionários e escritórios em Nova York e Los Angeles.

Foi no fim da década de 80 que, por sugestão de sua mulher, Wilson leu "O Conto da Aia", um romance distópico que mostra um futuro sombrio para as mulheres norte-americanas. Impressionado, ele se encontrou com a escritora para garantir os direitos de filmagem do livro, compartilhado com a produtora independente Cinecom, que ajudou a financiar o filme.

Estrelado por Robert Duvall e Natasha Richardson e roteiro de Harold Pinter (a escritora não se interessou), o longa foi lançado em 1990 e foi um fracasso de bilheteria. ("Não foi tão bom quanto poderia ter ido", admite Wilson.)

Logo depois disso, suas carreiras começaram a perder fôlego. Wilson descobriu que a mulher sofria do mal de Alzheimer e deixou o trabalho de lado para cuidar dela. Fran disse que só voltaria ao trabalho caso se apaixonasse por um projeto.

"Acho que porque não botava fé que fosse acontecer alguma coisa", confessa.

E aí tudo mudou.

Há cerca de cinco anos, com os seriados já bombando em Hollywood, a MGM decidiu levar adiante o plano de adaptar "O Conto da Aia" para a TV porque assumiu que tinha o controle dos direitos – até descobrir que não era bem assim.

"Quando percebemos foi aquele 'pera, pera, pera, para tudo que não é nosso'. Tínhamos que ligar para o Danny Wilson. Mas por onde ele andava? Ninguém sabia. E não conseguiam encontrá-lo", explica Steve Stark, diretor de desenvolvimento e produção para a TV do estúdio.

Levou um tempão para localizá-lo e, a princípio, Wilson se mostrou irredutível. A Cinecom tinha falido e ele achava que, com isso, possuía os direitos integrais à obra quando, na verdade, a MGM tinha adquirido os 50 por cento da produtora quebrada.

"Mesmo no esquema de direitos autorais de Hollywood, às vezes meio confuso, essa odisseia foi excepcional", diz Stark. E foi preciso uma negociação longa e lenta para convencer Wilson a embarcar no projeto.

"Decidimos transformá-lo em produtor executivo, demos uma fatia generosa e planejamos tudo", prossegue Stark. Wilson não falou em detalhes financeiros, mas o acordo, caso a série emplaque a terceira temporada, deve atingir US$1 milhão.

Originalmente o seriado fora escrito para o Showtime por Ilene Chaiken, veterana de "The L Word"; só que Wilson não gostou do roteiro dela por ser, segundo suas próprias palavras, "sexualmente explícito ao extremo".

"Queriam ficar mostrando a mulherada de peito de fora", resume.

Ilene logo se comprometeu com o novo sucesso da Fox, "Empire", e a história voltou ao mercado. De repente, FX e Hulu estavam disputando o seriado no mano a mano.

Mas Hulu?

"Para mim, o Hulu era onde você via os episódios antigos de 'The Andy Griffith Show' se estivesse a fim", dispara Fran.

Wilson não botava muita fé no serviço, até Stark convencê-lo de que era uma boa opção.

"Foi o Steve que me contou, mas eu estava totalmente cético. E ele continuou, dizendo que, por ser novidade, o pessoal ia defender e cuidar da série com unhas e dentes."

"Aí, sim, me entusiasmei", conta Wilson.

Bruce Miller, o novo showrunner de "The Handmaid's Tale", escreveu o roteiro que Wilson adorou. Elisabeth Moss, a veterana de "Mad Men", parecia ideal para encarnar a personagem principal, Offred. Para o Hulu, que não conseguira ainda gerar o mesmo frisson com seriados originais como as concorrentes Amazon e Netflix, a adaptação poderia finalmente representar o dramalhão que gerasse interesse e atraísse assinaturas.

E também não fez mal nenhum o fato de o governo Trump aumentar a relevância dos temas sombrios para uma parcela do público.

"O momento agora é muitíssimo melhor do que quando o filme foi lançado. O livro de Margaret é extraordinário, mas fala de outra época. Quem ia imaginar que se tornasse tão relevante para nós nos dias de hoje?", comenta Fran.

Os sócios torcem para que "The Handmaid's Tale" seja apenas o primeiro passo na retomada dos negócios.

E, recentemente, eles puderam comemorar da forma mais espontânea possível.

Circulando pela suíte do Beekman Hotel, na festa de lançamento do seriado, com um remix de "Raspberry Beret", de Prince, a todo volume. E o que esses dois produtores renascidos das cinzas acham de sua volta ao showbiz, tantos anos depois?

"Do barulho!", responderam em uníssono.

Por John Koblin

 
 
 
 
Zero Hora No jornal Zero Hora você encontra as últimas notícias sobre esportes, economia, política, moda, cultura, colunistas e mais.