Litoral Norte

Demolição do Hotel Siri abala memória afetiva de moradores e veranistas de Tramandaí

 Edifício deve ir totalmente abaixo até quarta-feira

Por: Guilherme Justino
12/05/2017 - 17h28min | Atualizada em 12/05/2017 - 17h41min
Demolição do Hotel Siri abala memória afetiva de moradores e veranistas de Tramandaí Tadeu Vilani/Agencia RBS
Foto: Tadeu Vilani / Agencia RBS  

Símbolo de Tramandaí e palco de décadas de história para uns, prédio antigo praticamente em ruínas para outros, o icônico Hotel Siri está desaparecendo no litoral do Rio Grande do Sul. Com o processo de demolição em andamento há cerca de três semanas, o edifício deve ir totalmente abaixo até quarta-feira. Conforme caem as paredes e desaparecem os quartos um dia habitados, prefeitura e construtores pregam renovação, enquanto moradores assistem, entre curiosos e tristes, o destino final do hotel.

No amplo terreno, defronte a uma praça e considerado à beira-mar pois não tem outras construções à frente, será erguido um condomínio residencial com duas torres de 18 andares. E, se a prometida vista eterna para o mar pode atrair potenciais compradores, a visão de um prédio, agora destruído, que chegava a ser considerado parte da paisagem praiana traz preocupações.

— Eu praticamente me criei nesses quartos. Faz parte da minha infância e da história de muitos veranistas e moradores. É uma pena que o Siri tenha decaído até chegar nesse ponto — lamenta Alex Portal, 39 anos, que trabalha com o pai em um mercado ao lado do antigo hotel.

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Há 47 anos no mesmo ponto, o pai de Alex, Pedro Cardoso de Oliveira, conhecido como Pedrinho, viu o Hotel Siri passar por diversas fases. Desde os tempos áureos, nas décadas de 1950 e 1960, até períodos, mais recentes, de quase abandono, até que o último proprietário decidiu entregar a administração a um grupo de hotéis. Pedrinho conta que a empresa Mar e Mar fez reformas, instalou ar-condicionado em alguns quartos, tentou revitalizar o empreendimento, mas não foi suficiente.

— De 2015 para cá, o hotel teve esse último suspiro. Até passou esses dois verões bem movimentado, mas o pessoal relatava que tudo parecia velho lá dentro. Aí não deu — diz o empresário de 75 anos.

A demolição é acompanhada de perto por vários moradores — e, a cada um, vê-lo sendo destruído traz um sentimento particular. De celular em punho, o serralheiro Valdemir Almeida aproveitava um intervalo no trabalho para registrar uma escavadeira derrubando as paredes que, até quinta-feira, apenas mantinham o "hotel" do letreiro visível no alto. O "Siri" já havia caído.

— Dá um pouco de tristeza, né? Sempre via ele aí, e agora não vou ver mais. Era uma referência para todo mundo aqui na praia — aponta Valdemir.

Há 20 anos trabalhando em um condomínio anexo ao Hotel Siri, também construído na mesma época pela empresa do engenheiro civil Leo Lubianca, morto em 2002, o zelador José Evanir, 47 anos, é outro que registra diariamente o desmonte de um dos mais tradicionais hotéis do litoral norte gaúcho. Desde o início do processo, no final de maio, ele tem feito fotos e vídeos para guardar na memória o que ainda resta do prédio. Esses registros são encaminhados aos moradores que passam boa parte do ano longe do condomínio.

— Quem não voltou para cá depois do veraneio vai estranhar quando chegar, porque o prédio já vai ter ido abaixo. As pessoas ficam curiosas, querem saber o que está sendo feito. Muitas lamentam — afirma o zelador.

Moradores das proximidades relatam que o hotel passou a última temporada repleto de hóspedes durante os dias mais quentes. Só parou de aceitar reservas e de receber clientes no dia 30 de março, data que marca o fim de suas operações.

No lugar do hotel, torres residenciais

A aquisição do hotel e do terreno ficou por conta de uma incorporadora de Tramandaí. Todo o empreendimento, incluindo o nome "Hotel Siri", trocou de mãos em 2016, quando os herdeiros de Juarez Moreira, que deteve a propriedade do local ao longo de 20 anos, resolveram vendê-lo. Não há, porém, mais a intenção, antes até cogitada, de reerguer ali um prédio comercial. Duas torres residenciais de 18 andares, a serem construídas nos próximos seis anos, passarão a ocupar a paisagem onde antes se via, como um marco, o tradicional hotel.

O condomínio residencial tomará o lugar que antes fazia do Siri o hotel mais próximo do mar em Tramandaí. Seus 18 andares se unirão ao poucos outros prédios que chegam ao limite de altura definida pelo Plano Diretor da cidade, redefinindo o cenário à beira-mar para moradores e veranistas.

— Foi uma transação imobiliária normal. A família não queria mais administrar o hotel, e nós compramos — descreve o construtor Luciano Coruja.

— O hotel estava bem velho. Agora vai virar um empreendimento novo, moderno — completa o sócio Cícero Bobsin.

Os projetos de demolição do hotel e construção do condomínio, assim como o licenciamento ambiental, já foram aprovados pela prefeitura.

— Aquilo não era um prédio histórico, era um edifício em ruínas. As pessoas precisam entender e se adaptar, porque as coisas mudam, a cidade evolui — defende Antonio Augusto Galaschi, secretário de obras e serviços públicos do município.

Coruja diz que guardou alguns dos itens que estavam na recepção, como quadros e porta-chaves. Diante da repercussão da demolição dentro da cidade, diz que pensa em abrir alguma espécie de memorial quando da inauguração dos novos prédios, preservando assim um pouco da história do Hotel Siri.

 
 
 
 
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