Elas têm a força

Dia das Mães: como Virgínia concilia a viuvez com a maternidade

A bancária Virgínia Cunha Betiatto, 30 anos, descobriu que estava grávida do primeiro filho três semanas depois de Adriano Luiz Schuch morrer em um acidente no aeroporto

12/05/2017 - 11h00min | Atualizada em 12/05/2017 - 11h45min
Dia das Mães: como Virgínia concilia a viuvez com a maternidade Mateus Bruxel/Agencia RBS
Virgínia com o pequeno Rafael, de dois meses, e a gata Sofia Foto: Mateus Bruxel / Agencia RBS  

"Bom dia, colação!", saúda Adriano Luiz Schuch, empregando uma corruptela de "coração" que ele e a mulher, Virgínia Cunha Betiatto, usavam como apelido carinhoso para se referir um ao outro. "Como é que você tá? Tomou café? Viu que eu trouxe um lanche da padaria? Deixei ali em cima do balcão." A voz sai de um arquivo de áudio enviado pelo aplicativo de mensagens instantâneas WhatsApp. Virgínia segura o celular junto à barriga para que Rafael escute a voz do pai. É uma fração de um diálogo antigo, única forma possível de contato. 

O primeiro filho vinha sendo planejado desde o começo do ano passado. Ao se mudarem para a casa nova, em Cachoeirinha, Virgínia e Adriano reservaram um quarto para o bebê. A bancária sonhava com o dia em que poderia dar a notícia da gestação ao marido: pensava em organizar uma surpresa, talvez presentear-lhe com um sapatinho simbolizando a boa-nova. Brincalhão, o futuro papai deu início ao enxoval comprando duas chupetas que simulavam uma boca com dentes graúdos à mostra. Se viesse uma menina, seria Luiza. Para um menino, o nome ainda não havia sido escolhido. 

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Virgínia se tornou viúva e mãe quase ao mesmo tempo. Descobriu que estava grávida três semanas após a morte do marido. A partir dali, teria de conciliar dois extremos, a alegria da maternidade e a ruína do luto, e encarnar o duplo papel de mãe e pai.

– Era um misto: eu chorava, ria – recorda Virgínia, hoje aos 30 anos, sobre o momento em que viu surgirem os dois risquinhos vermelhos do resultado positivo no teste de urina comprado na farmácia. – A sensação era a de um presente que o Adriano estava deixando. Pensei: ele vai ficar com a gente. 

Virgínia e o marido, Adriano Foto: Arquivo Pessoal / Divulgação

Mecânico da Latam, Adriano, 34 anos, teve a perna esquerda esmagada pelo trem de pouso quando a aeronave sob a qual trabalhava, no Aeroporto Salgado Filho, em Porto Alegre, foi movimentada pelo rebocador. Na madrugada de chuva torrencial de 11 de julho de 2016, Virgínia foi despertada por um telefonema comunicando-a do acidente e seguiu para o Hospital Cristo Redentor. Ao chegar, soube da necessidade de amputação do membro. A bancária lamenta não ter se despedido do companheiro de 12 anos de relacionamento. Na única vez em que esteve com ele durante o atendimento – Adriano respirava com a ajuda de aparelhos, mas o rosto, sem qualquer arranhão, dava-lhe um aspecto tranquilo –, projetou a melhora e a alta.

– Você tem que voltar para casa. A Sofia, eu, a Jojô estamos te esperando – disse ela à beira do leito, nomeando a gata e a cadela de estimação.

Adriano não resistiu à gravidade dos ferimentos e morreu horas depois. O inquérito concluiu que houve imperícia e imprudência do operador do rebocador, indiciado por homicídio culposo – o processo criminal está sob análise do Ministério Público. Na Justiça do Trabalho, a viúva move ação por danos morais e materiais contra a empresa aérea.

Virgínia voltou a morar com a mãe, o padrasto e o irmão. Reassumiu o quarto da época de solteira, que depois passou a acomodar também móveis para o bebê. Na gestação, a mãe da bancária, Núbia Susana Santos da Cunha, 49 anos, tornou-se a companhia constante da filha. Na primeira ecografia, emocionaram-se juntas com o som do coração batendo. 

A cada vez que Virgínia contava sobre a gravidez, testemunhava o susto dos interlocutores. Não houve chá de fraldas – pela certeza de que passaria a maior parte do tempo chorando –, mas ela decidiu posar para um ensaio de fotos e eternizar a fase que deveria ser apenas de alegria. Em uma das imagens, Núbia, diante da filha, afaga-lhe a barriga. 

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Rafael Cunha Schuch nasceu às 16h50min de 9 de março, com 3,470 quilos e 49 centímetros, no Hospital Moinhos de Vento. O prenome foi escolhido pelo significado: "Deus curou" ou "curado por Deus". Durante a cesariana, no local que costuma ser reservado ao pai do bebê, ao lado da parturiente, estava Núbia. Tão logo o recém-nascido foi colocado sobre o peito da mãe, Núbia fez uma foto e a enviou ao marido, que aguardava perto dali: de olhos fechados, Virgínia sorri ao primeiro toque no filho, os dois rostos colados. 

– Aquela foto diz muito. Me deu tranquilidade, por ver a satisfação dela. Estávamos tensos – recorda o comerciante Paulo Ricardo Sanchez, 50 anos. 

O bebê revigorou o dia a dia da família. Núbia passa à filha seus ensinamentos – pressiona as pernas do neto junto à barriguinha para aliviar o desconforto das cólicas. Ambas riem a cada "pum" do menino. A sequência de tarefas absorve a mãe estreante: dar o peito, fazer arrotar e adormecer, trocar fraldas. 

– Dá vontade de apertar – diz ela, enternecida com a visão do bebê envolto em uma manta.

Há uma combinação implícita: se Virgínia não fala em Adriano, os demais também não tocam no assunto. Ela costuma se refugiar no quarto para chorar. Revê fotos do casal, ouve repetidas vezes as conversas entre ambos no WhatsApp sobre tópicos corriqueiros que agora não existem mais.

– É uma alegria ter a criança, mas a dor está ali. A impressão que eu tenho é que ele vai voltar, que vou abrir o portão e ele vai estar ali – revela, chamando atenção para a aliança de casamento, ainda na mão esquerda. – O tempo passa mas não passa. Perdi a noção do tempo, das coisas. 

De vez em quando, Virgínia retorna ao endereço onde vivia com Adriano para buscar roupas. Como dispõe de um armário pequeno na residência da mãe, precisa fazer um rodízio entre as peças. Ainda não decidiu se volta em definitivo para o antigo lar. Não consegue pensar muito à frente, mas já se preocupa com o momento em que terá de narrar ao filho o que aconteceu com o pai. Núbia pensa em confeccionar um livro para contar a história de uma maneira mais sutil e explicar que o pai de Rafael "está no céu".

– Esse espaço do Adriano vai ficar faltando. A gente tenta, de uma forma ou de outra, preencher, mas a figura do pai vai faltar – prevê Virgínia.

O semblante dela se desanuvia ao falar da semelhança entre pai e filho. Ela lembra que, na gravidez, chamava o bebê de "Capitão América Thor Hilbert", emaranhado de nomes em referência a atores que considera bonitos (Chris Evans e Chris Hemsworth, intérpretes dos super-heróis, e o brasileiro Rodrigo Hilbert). Por temer o risco de se esquecer da fisionomia de Adriano, torcia para que Rafael fosse parecido com o pai.

– É igual, igualzinho – constata, numa mistura de riso e lágrimas. – Não tem nada meu.

 
 
 
 
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