The New York Times

Em "The President Show", Trump vira apresentador de talk show de fim de noite

Por: The New York Times
08/05/2017 - 14h13min | Atualizada em 08/05/2017 - 14h13min

Embora seja novo na função de apresentador de talk show de fim de noite, Anthony Atamanuik já começou a encher sua sala com pequenas mordomias: um Xbox, uma máquina Nespresso, garrafas de bourbon. A favorita, porém, talvez seja o púlpito de madeira onde dita os monólogos como Donald Trump, personagem que interpreta em "The President Show", novo programa semanal do Comedy Central.

"Eu me sinto mais à vontade quando estou ali em cima. Reescrevo na voz dele", diz.

Não faz muito tempo, encontrei esse comediante simpático de 42 anos no tal cenário, no escritório de Manhattan do "The President Show", revisando o roteiro com alguns membros de sua equipe.

O tema do piloto ainda inédito era as mães, principalmente a relação de Trump com sua genitora, Mary (que aparece ao longo de todo o programa como uma voz irritadiça, sem corpo nem forma, que só ele consegue ouvir). Para o segmento final, Atamanuik imaginou uma homenagem a "Psicose", onde seu personagem se sentaria em silêncio, usando a peruca e o xale da mãe, enquanto a voz desaprovadora dela martelaria sua mente.

Jason Ross, um dos produtores executivos, não tinha certeza se a cena arrancaria gargalhadas. "Não há piadas escrachadas; é uma coisa bem sutil do começo ao fim", explica ele, que tem no currículo uma passagem pelo "Daily Show".

Imbuído, talvez, do espírito do homem que imita para ganhar a vida, Atamanuik partiu para cima. "Posso estar totalmente errado, mas fiz uma defesa emocionada. Diz aí por que estou errado."

"The President Show", logo após o "Daily Show" de Trevor Noah, às quintas, é uma opção pouco comum, mesmo para o Comedy Central, onde começaram nomes como Jon Stewart e Stephen Colbert.

A premissa é que Trump é o apresentador de seu próprio programa de fim de noite, no qual faz um monólogo de abertura como se fosse uma coletiva e entrevista os convidados no Salão Oval enquanto faz piadas com seu assessor, o vice Mike Pence (interpretado por Peter Grosz de "Veep").

Enquanto vários outros programas da mesma faixa têm imitadores oficiais – Alec Baldwin no "Saturday Night Live", Jimmy Fallon no "The Tonight Show" – "The President Show" vai testar até que ponto o público quer passar meia hora com a desconstrução satírica do comandante-chefe.

É também uma excelente oportunidade para Atamanuik, membro veterano do Upright Citizens Brigade Theater e que também fez "30 Rock" e "Broad City", mas nunca estrelou nem foi o principal criador em uma série de TV só sua.

"Qualquer que seja o resultado, estou satisfeito por ter chegado até aqui", declara, tentando se manter otimista.

Porém, acrescenta: "Já tive muitos empregos em várias áreas diferentes. Fui até gerente de restaurante. Foi daí que aprendi a ser mandão".

Atamanuik, que foi criado em Chelsea, Massachusetts, tem um lado "Trump" pessoal no qual é superfácil se inspirar: caminha pelos corredores dos escritórios (que já abrigaram "The Colbert Report" e "The Nightly Show With Larry Wilmore") assobiando "Hail to the Chief"; gosta de fazer referência a pessoas importantes que conhece; é meio arbitrário, meio falastrão, e não nega nenhuma dessas características.

Quando pergunto qual a abordagem que escolheu para interpretar Trump, ele responde que tomou como referência a sombra junguiana, que assim descreveu: "É a parte de mim que não quero que o mundo veja, mas que estou exibindo o tempo todo".

"Quero ter um relacionamento com essa sombra, compreendê-la, e não rejeitá-la", explica.

Atamanuik também se compara ao personagem de Dustin Hoffman em "Tootsie". "Eu era um ator desempregado que não conseguia ser contratado para interpretar a si mesmo; aí pus uma peruca vermelha e, olha só, estou na TV."

O ator começou a imitar Trump em shows de improvisação, em agosto de 2015, logo depois de o original ter se declarado candidato à nomeação presidencial republicana de 2016. "Achei que seria engraçado porque tinha pinta de ser o mais improvável de todos", admite.

Porém, conforme a campanha política de Trump foi ganhando fôlego, Atamanuik passou a ser chamado com mais e mais frequência para imitá-lo: no monólogo "Trump Dump"; em uma série cômica de debates simulados, "Trump vs. Bernie", com o comediante James Adomian no papel do senador Sanders; no game show do Comedy Central, "@midnight".

Para Kent Alterman, presidente do canal, o trabalho de Atamanuik "transcende a imitação" e a premissa do programa permite que ele vá além da simples crítica ao presidente do país.

"Ele não está interessado só em pregar aos convertidos; acho que quer mesmo é levar o personagem para o mundo e expô-lo a todos os tipos de audiência", afirma.

O Comedy Central está em fase experimental de sua programação de fim de noite, testando novidades e formatos diferentes, incluindo uma série apresentada pelo comediante australiano Jim Jefferies e um spinoff do "Daily Show" sob o comando de Jordan Klepper para o segundo semestre.

Por outro lado, o canal não hesita em cancelar um programa que acha não estar dando certo, como "Nightly Show", de Wilmore, que terminou em agosto. Quando pergunto se qualquer imitação de Trump, por mais multifacetada que seja, será suficiente para manter a base de uma série inteiras, Alterman responde: "Essa é uma coisa que a gente só vai saber com o tempo".

"Se ficar uma coisa estagnada, não vai conseguir se sustentar por muito tempo, mas há uma relevância e uma sensação de urgência que, no momento, são muito estimulantes."

Atamanuik ajudou a definir o formato de "The President Show" com amigos do Upright Citizens Brigade, além de roteiristas e atores de peso, como Grosz, que também é um dos produtores executivos; Christine Nangle ("Inside Amy Schumer"); Emmy Blotnick ("@midnight").

E explica que a função deles foi, em parte, lhe ensinar quais as ideias que funcionam no formato televisivo.

"Tenho que respeitar o fato de que eles passaram e passam pelo crivo do público de uma forma que nunca aconteceu comigo. Vivo feito aposentado há dez anos."

Depois do processo de maquiagem que o transforma no personagem e dura uma hora, Atamanuik ensaiou vários segmentos do programa em um estúdio iluminado por candelabros propositadamente bregas.

Diante de uma plateia composta pelos roteiristas e produtores do programa, ele recita os comentários de abertura sobre sua mãe ("Eu a coloquei num daqueles meus complexos de apartamentos sensacionais", diz na voz familiar. "Chamo de complexo maternal, que existe até hoje") e faz a cena, inspirada em "Mister Rogers' Neighborhood", na qual Trump visita a Terra do Falso de Conta, cheia de cachorrinhos.

Ele também tem que declamar o monólogo de encerramento mais ou menos como planejara, em preto e branco, de peruca e xale, com um sorriso à la Norman Bates no rosto, enquanto a voz de sua mãe diz: "Você não mataria nem uma mosca."

Quando a cena arranca os risos pelos quais Atamanuik estava esperando, ele sai do palco todo orgulhoso, fingindo uma pomposidade que não possui.

"Aqui não tem nem discussão; é o que eu quero fazer e pronto", declara brincando.

Por Dave Itzkoff

 
 
 
 
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