The New York Times

Marrakesh, o clube de campo que voltou a ser chique

Por: The New York Times
11/05/2017 - 13h57min | Atualizada em 11/05/2017 - 13h57min

Palm Desert, Califórnia – Era noite de festa no Clube de Campo Marrakesh; dentro do labirinto de seus muros e corredores cor-de-rosa, passando o telhado em cone do gazebo na entrada, a trilha ladeada por pés de petúnia e oliveiras podadas para se parecerem com poodles vegetais, uma fila de carros despejava os convidados em fantasias de Papai Noel e suéteres enfeitados de pisca-piscas de LED.

Dentro da sede, garçons trajados de estampa argyle em verde e vermelho pegavam os pedidos das bebidas e dezenas de casais de meia-idade dançavam ao som de "Play that Funky Music", de Wild Cherry.

Cortando um pedaço de costela, Stephen Drucker, ex-editor de várias publicações de estilo de vida, anuncia que enfeitara o pórtico de sua casa de linhas marroquinas com cortinas brancas de lona. "Um toque da antiga Hollywood; lembra as festas de aniversário nas quais o 'Tio' Gary Cooper levava a pequena Christina Crawford para andar a cavalo", comenta.

"Exatamente o tipo de coisa para as quais o comitê está criando provisões, o que me deixa muito feliz", comenta Steven Price, historiador de arquitetura, referindo-se ao Comitê de Paisagismo e Arquitetura do clube.

Patrick Dragonette, vendedor de móveis modernos de Los Angeles, concorda. "Pois é, você viu a casa com as colunas espichadas para fora. Ninguém gostou", sussurra, a voz baixa equivalendo a uma sobrancelha levantada.

Há 45 anos, infalivelmente, o principal atrativo dessa comunidade residencial particular que fica na bacia formada pelas Montanhas San Jacinto e as Santa Rosa, foi o campo de golfe executivo de 18 buracos, mas hoje em dia é tanto uma meca para os idólatras de projetos sofisticados como para aqueles que rezam para águias e pássaros. Seu deus: o arquiteto John Elgin Woolf, que criou os 364 casarões marroquinos, em rosa e branco, e as 14 casetas de piscina no estilo que é sua marca registrada, o Hollywood Regency.

"O deserto era movido a golfe; agora o grande motor da economia daqui, ou pelo menos de Palm Springs, é o estilo. Não dá para comprar arquitetura dessa qualidade, por esse preço, por aqui", afirma Drucker.

Além dele, Dragonette e Price, quem também adotou os telhados com água-furtada e as paredes de estuque rosa do Marrakesh foi a magnata do mobiliário Annie Selke, o decorador de Nova York Joe D'Urso, o arquiteto e decorador de Los Angeles Tim Morrison, e Susie Coelho, ex-apresentadora do HGTV e ex-mulher de Sonny Bono que, antes de ser eleita para o Congresso, foi prefeita de Palm Springs.

Em 1967, quando Bono ainda estava casado com Cher, um golfista amador e arquiteto de campos do esporte chamado Johnny Dawson alugou quase 63 hectares em Palm Desert e, inspirado pelas semelhanças da propriedade com a cidade de quem emprestou o nome, cercada pelas Montanhas Atlas, criou um clube com tema marroquino. A paleta salmão/rosa da comunidade era sugerida pelas paredes e muros róseos de arenito e a sede no topo da colina, antecedida por uma escada d'água em estilo do Oriente Médio, colocada ali para dar vista das mansões, como um casbá se erguendo em meios aos riads.

Depois disso, o tema marroquino meio que perdeu o rumo. Isso porque John Woolf, contratado para projetar o clube, em 1968, tinha um vernáculo todo próprio. Ele saíra de Atlanta, rumo a Los Angeles, para se tornar ator; entretanto, tinha também estudado Arquitetura e quando a carreira artística não deu certo, fez uso de seus contatos em Hollywood para se tornar arquiteto das estrelas.

Eventualmente conhecido como Hollywood Regency, o estilo característico de Woolf mistura o regência inglesa e o regência francesa com o glamour dos cenários cinematográficos e uma sutileza modernista. Suas casas oferecem simetria e proporções elegantes, entradas dramáticas e cômodos perfeitamente proporcionais, pontuados por colunas neoclássicas e janelas elípticas. Essa opulência discreta agradava aos membros da elite de Hollywood como Greta Garbo, Judy Garland, Cary Grant e Katharine Hepburn. "Elas eram muito teatrais, mas tinham tudo a ver com o pessoal do ramo do entretenimento", diz Price, que está escrevendo um livro sobre o arquiteto.

De uns anos para cá, a reputação de Woolf voltou a se destacar. O livro do produtor Robert Evans, "The Kid Stays in the Picture" (e o filme baseado nele, "O Show Não Pode Parar') uma biografia e uma peça sobre a agente de Hollywood Sue Mengers deram destaque à escada projetada por Woolf em Beverly Hills. E a reportagem da Vanity Fair sobre ele revelou uma vida pessoal que de ortodoxa não tinha nada: por razões profissionais, o arquiteto adotou seu amante e sócio, Robert Koch Woolf, bem como o namorado desse, Gene Oney Woolf. Juntos, ficaram conhecidos como Woolf Pack (trocadilho para a expressão em inglês para "alcateia").

No mercado imobiliário de Los Angeles, as casas de Woolf eram consideradas verdadeiros troféus. Entre os donos mais recentes das residências criadas por ele estão o produtor John Goldwyn e seu marido, o hotelier Jeff Klein; o decorador Nate Berkus e o empresário Sean MacPherson. No ano passado, Jill Tavelman Collins (ex-mulher de Phil Collins, mãe de Lily) comprou uma casa Woolf em Beverly Hills por US$12,5 milhões, 40 por cento a mais que o preço pedido.

As mansões do Marrakesh, embora modestas em tamanho e preço – cada unidade pode ser adquirida por menos de US$400 mil – não se limitam ao drama woolfiano. Todas têm pátios compridos, telhado com água-furtada e portas de entrada altas e estreitas, que fazem qualquer um que passe por elas se sentir como a Loretta Young (que também tinha uma casa Woolf). Lá dentro, pé-direito de três metros, closets do tamanho de quartos e átrios arejados ligados ao banheiro da suíte principal.

Originalmente voltado para a burguesia local e o pessoal fugindo do frio do Canadá e Chicago, a adesão ao Marrakesh oferecia o resgate do estilo de vida boa do início dos anos 70.

A promessa daquela época está definitivamente consagrada à residência cercada de buganvílias que fica entre o oitavo e o nono buracos. A casa que Ann Judy, moradora do Vale Santa Ynez, herdou dos pais, se mantém praticamente intocada desde que foi decorada, há mais de 40 anos.

"Se não está quebrado, para que consertar? É leve, é clara, é divertida. E pitoresca", afirma ela.

Você pode até dizer que, apesar do padrão do exterior, toda casa no Marrakesh é única. "Woolf projetou estruturas Hollywood Regency nuas para dar a cada dono a chance de adaptá-la de acordo", explica Dragonette.

Ele e o companheiro, Charles Tucker, dividem a casa de dois quartos que chamam de Orchid House, mesmo nome do broche de diamantes da Tiffany cuja venda financiou sua compra. Depois de reformar levemente os quartos, o casal colocou piso de porcelanato e papel de parede de couro. Modelos cobiçados de móveis de Billy Haines e John Dickinson estão bem representados ali, mas o grande destaque é a tela gigante da série de Mike Cockrill, "Baby Doll/Clown Killer", que retrata três menininhas torturando um palhaço.

Entre Rod Youngson, arquiteto que conheceu o Woolf Pack (e também Loretta Young e sua filha) e seu sócio, Bill Ruegge, corretor imobiliário e construtor, os dois reformaram oito casas no condomínio. "Elas foram muito mais bem construídas do que qualquer coisa que esteja no mercado", afirma Youngson, que gosta de renovar os imóveis quebrando as paredes internas e instalando portas que vão do chão ao teto.

Como a maioria das comunidades pequenas, o Marrakesh não está imune à polêmica: segundo Price e outros moradores, o bate-papo no campo de golfe que se refere às "muitas atividades da Semana do Modernismo" e "o problema de Palm Springs" são códigos para o número "excessivo" de gays.

Mas essas tensões são exceção nesse condomínio rosa. É raro caminhar ou passar de carro em Kasbah Drive ou Minzah Way sem ser cumprimentado várias vezes. "O desenho aberto da casa faz com que todo mundo se conheça, se veja, se encontre. Um dos meus filhos passou a primavera inteira na piscina brincando de Barbie com a nossa vizinha de 70 anos. Quisera eu ter tido uma infância assim", constata Daniel Nelms, pai solteiro de dois meninos.

Price resume da seguinte forma: "Foi o pessoal que escolheu morar no Marrakesh. Como você vai poder se levar a sério morando numa casa rosa?". Enquanto ele falava, o companheiro, Jeffrey Roberts, saiu do terraço que dá para o campo de golfe: "A cor está ficando bem legal agora!", gritou. Do lado de fora, o sol de inverno ia mergulhando na direção de San Jacintos, fazendo brilhar o vale lá embaixo. O efeito era espetacular.

Ou, como o pai de Ann Judy costumava dizer, "Bem-vindo a mais um dia infernal no paraíso".

Por Peter Haldeman

 
 
 
 
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