The New York Times

Minha Pequim, a cidade sagrada

Por: The New York Times
15/05/2017 - 15h15min | Atualizada em 15/05/2017 - 15h15min

Quando estive em Pequim pela primeira vez, em 1984, a cidade dava a impressão de ser empoeirada e meio caída, uma capital que já fora grandiosa, com templos e palácios, que Mao prometera transformar em uma paisagem de fábricas e chaminés – e parecia que fora bem-sucedido. A fuligem entrava por todas as frestas das janelas e todas as camadas de roupa, não importando se as pessoas estivessem andando de bicicleta ou nos ônibus fedendo a diesel que circulavam pelas ruas antigas.

Na época, tanto quanto hoje, era difícil imaginá-la como o centro sagrado do universo espiritual da China, mas ao longo da maior parte de sua história, ela foi exatamente isso.

Não era uma cidade santa como Jerusalém, Meca ou Banaras, locais onde até mesmo o solo é sagrado, tornando-as centros de peregrinação; apesar disso, as ruas, muros, templos, jardins e vielas de Pequim faziam parte de uma trama cuidadosa que refletia as constelações no céu, as forças geomânticas aqui embaixo e a sobreposição invisível de montanhas sagradas e deuses. Era uma verdadeira obra de arte, simbolizando o sistema político-religioso que guiou o país tradicional durante milênios. Era a encarnação da crença chinesa.

A cosmologia da cidade mudou no século XX, principalmente após a tomada do poder pelos comunistas, em 1949. Seus belos muros e muitos dos templos e vielas tão pitorescas, os chamados hutongs, foram destruídos para abrir espaço aos novos ideais de uma sociedade industrial e ateia. A década de 80 chegou trazendo reformas econômicas e um desenvolvimento imobiliário desenfreado que praticamente dizimou o que restara do centro velho. Perdeu-se não só uma cidade medieval de quase 40 km², mas também um estilo de vida, exatamente como aconteceu com os grandes núcleos de outras culturas do mundo, engolidos por nossos tempos impacientes.

Ao longo dos anos, acompanhei parte dessa transformação, primeiro como estudante, depois como jornalista e agora como escritor e professor. Como muitos que se apaixonaram por ela, fiquei desapontado e achava que a cultura local tinha se perdido.

De uns anos para cá, porém, comecei a achar que estava errado. A cultura pequinesa não morreu; está renascendo em cantinhos inusitados, das formas mais improváveis. Não é a mesma coisa de antes, mas, ainda assim, é vibrante e real, estilos de vida e crenças que refletem os dias de então.

Vejo isso em dois lugares desta metrópole onde atualmente vivo: um é na região do Templo do Sol, na zona leste; o outro, um templo taoista no oeste. São lugares que parecem esquecidos e irrelevantes, mas vêm adquirindo uma importância renovada conforme os chineses buscam novos valores e crenças em que basear sua sociedade pós-comunista.

Praticamente desde que me mudei para cá, sempre morei pertinho do Templo do Sol. Parque de vinte hectares na região de Jianguomenwai, onde ficam as embaixadas, ele foi construído em 1530, um dos quatro santuários onde o imperador adorava os principais corpos celestes. Os outros eram dedicados à Lua, a Terra e ao Céu.

Como praticamente todo monumento em Pequim, a estrutura foi seriamente danificada durante a Revolução Cultural. O período de 1966 a 1976 foi de violência comunista radical, durante o qual todo local de adoração e muitos símbolos do passado foram atacados. O altar principal de pedra, um disco plano de uns seis metros de diâmetro, foi despedaçado por maoístas fanáticos. Mais tarde, quando as muralhas que cercavam a cidade foram postas abaixo, o parque se transformou em lixão.

Conheci o local oito anos após o encerramento desse período traumático. Estudei Língua e Literatura Chinesas na Universidade de Pequim entre 1984-85 e passava por ali de bicicleta porque tinha se transformado na principal região diplomática da cidade. Eu me lembro de atravessar o parque a pé e ver o altar recém-reconstruído, embora muitas outras estruturas estivessem tão dilapidadas que a sensação geral era de abandono.

Em 1994, voltei para trabalhar como jornalista. Acabei me mudando para um dos complexos diplomáticos e o bairro se tornou meu lar nos sete anos seguintes. Na época, o parque cobrava entrada, o que o mantinha relativamente vazio, especialmente naquela que já era uma cidade populosa e movimentada. Ainda era possível caminhar ao longo da trilha de pouco mais de 1,5 km e encontrar apenas algumas pessoas.

Já o Templo do Sol não ficava só vazio como também parecia inóspito. Foi uma época em que os parques chineses quase não tinham nem grama; a terra dura e exposta era rastelada por funcionários da manutenção algumas vezes por semana. Era estranho, mas havia também uma beleza austera nas árvores de ginkgo e nos caquizeiros que ladeavam as trilhas.

Quando voltei ao país, em 2009, para trabalhar como professor e escritor, tudo isso tinha mudado: a China tinha se beneficiado de quase três décadas de crescimento econômico e os cofres públicos estavam pelas tampas. Além de porta-aviões, o trem-bala e a Olimpíada, investiu seu dinheiro em parques e em muito verde. O templo ganhara grama, flores e bambu.

Melhor que isso, as autoridades se livraram da cobrança da entrada – e de repente o parque virou parte da cidade, bem-recebido pelos moradores, ávidos por atividades.

Porém, para o governo, o parque voltou a ser uma forma de reforçar sua legitimidade. O governo tem um museu minúsculo onde exibe recriações das peças do altar espatifado como se fossem reais. Além disso, pôs uma cerca de aço enorme ao redor do altar para mostrar sua determinação em proteger o patrimônio cultural e montou um quadro de avisos explicando a história da estrutura, mas omitindo qualquer detalhe sobre as perdas ocorridas na era de Mao. O objetivo? Garantir aos chineses que o Partido Comunista, que antes atacava as tradições, agora era seu guardião.

Recriar valores tradicionais é uma das principais políticas nacionais do líder Xi Jinping, mas qualquer coisa que se assemelhasse a um retorno ao passado parecia impossível nos anos 80. Por ter sido criado em uma família relativamente religiosa, sempre tive curiosidade para saber no que os chineses acreditavam.

À procura da religião local, saí de bicicleta em uma tarde de outono, rodando durante uma hora até chegar ao Templo da Nuvem Branca, centro nacional da religião local, o taoismo, surgido no século II da mistura das crenças religiosas populares com ensinamentos filosóficos. Ele data do século XIII e é a sede da Associação Taoista Nacional.

O santuário é belo, mas parecia meio sem propósito. O corredor principal, que liga cinco salas dedicadas a várias divindades, tinha praticamente sido poupado pela Revolução Cultural; no entanto, não havia fiéis. Cercado por conjuntos da era comunista e uma usina poluidora, ele se parecia muito com o Templo do Sol no sentido de ser o símbolo de outro período.

Entretanto, ao longo dos últimos dez anos, os chineses começaram a procurar um significado para a vida. Depois de passar décadas adotando ideologias estrangeiras como o fascismo, o comunismo e o neoliberalismo, passaram a questionar o que sobrara de sua cultura. Templos como o da Nuvem Branca e sistemas de crenças como o taoísmo fazem parte da busca por respostas.

O governo, astutamente, tem investido nas religiões. Esse último, por exemplo, está tentando recuperar parte do patrimônio médico tradicional; para isso, abriu uma clínica em uma de suas alas recém-reformadas. O Estado também abriu uma nova academia taoista para treinar sacerdotes. Aos poucos, o taoismo vai se recuperando pelo país.

Comparada com a cidade sagrada do passado, a Pequim de hoje é uma área urbana ligeiramente fora de controle, cheia de vias expressas e arranha-céus, metrôs e subúrbios. A antiga trama cosmológica está em pedaços.

Mas é um espaço onde os lugares têm significado. O historiador urbano Jeffrey F. Meyer, que escreveu "The Dragons of Tiananmen: Beijing as a Sacred City", observa que as capitais chinesas sempre refletem a ideologia governante. Isso vale para todas, é claro, e Meyer também escreveu um livro sobre as ideias por trás dos monumentos de Washington.

Porém, ao contrário das sociedades abertas, mais bagunçadas, onde a mensagem oficial geralmente se perde ou, pelo menos é suavizado por vozes concorrentes, Pequim ainda é a capital de um Estado autoritário. Seu recado ainda é o mesmo que o do governo, talvez não precisamente igual, mas, ainda assim, perfeitamente audível. E as autoridades, que já desprezaram as tradições, hoje as apoiam. Assim, a cidade muda – não para uma volta ao passado, mas sim rumo a algo feito a partir delas – e ganha dedicação filial, respeito pelas autoridades, religiões tradicionais e privilégios para os ricos. Como diz Meyer: "Tanto quanto antigamente, a Pequim de hoje, antes de ser uma cidade, foi uma ideia".

Por Ian Johnson

 
 
 
 
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