The New York Times

O time de futebol que ninguém quer encarar

Por: The New York Times
18/05/2017 - 14h37min | Atualizada em 18/05/2017 - 14h37min

Porto, Portugal – A sequência começou no fim de outubro: o Canelas 2010, time de futebol amador obscuro, de repente não perdia mais. Foram dez partidas, uma atrás da outra, sem perder nem um único ponto, nem mesmo tomar um gol, desempenho que fez surgir a possibilidade de deixar o campeonato local e subir para a terceira divisão nacional.

Foi o tipo de atuação que, em circunstâncias normais, atrairia a atenção dos olheiros, maravilhados com tal milagre. Só que ninguém apareceu para ver o Canelas jogar. E nem podia. Não havia ninguém assistindo.

Embora cada um desses resultados tenha sido registrado como vitória do Canelas por 3-0, na verdade nenhuma das partidas aconteceu. Depois de um jogo sem gols contra a Padroense, em 23 de outubro, a equipe não voltou a atuar em 2016. Seus jogadores foram considerados violentos demais em campo e intimidadores demais para os juízes. Eles se tornaram um time sem adversários, com quem a divisão inteira ficou com medo de jogar.

"É injusto. Não somos violentos. Jogamos no mesmo nível que todo mundo; não queremos perder, então corremos, brigamos pela bola e damos tudo de nós dentro de campo", reclama o capitão, Fernando Madureira.

Mas não é assim que os outros times veem a coisa. Em outubro, os presidentes das outras equipes da divisão fizeram várias reuniões escondidas e resolveram, praticamente por unanimidade, se recusar a enfrentar o Canelas novamente. A associação local do Porto alertou as agremiações das consequências: multa de 750 euros (pouco mais de US$800) por cada jogo e vitória por WO para o Canelas, mas elas se mantiveram firmes na decisão.

"Tem coerção, intimidação; nem os árbitros têm coragem que escrever na súmula o que aconteceu realmente. É coisa muito séria e já vem de anos. Resolvemos que alguma coisa tinha que ser feita", desabafa Manuel Gomes, presidente do Grijo, um dos times que pediu o boicote.

Sua justificativa veio na forma de uma coletânea de vídeos do YouTube que registram os atos de violência aparentemente gratuitos dos jogadores – voadoras, gravatas, cotoveladas – de partidas anteriores.

Mais assustadores, porém, foram os depoimentos de antigos adversários. Vários deles disseram que os integrantes da equipe tinham o hábito de avisar os rivais e juízes de que "sabiam onde as famílias deles moravam". Em circunstâncias normais, ameaças assim poderiam ser consideradas bombásticas, mas vazias – só que não com o Canelas.

Isso porque Madureira não é só o capitão de um clube menor de uma divisão amadora local. Conhecido pelo apelido, Macaco, ele também é o líder da Super Dragões, a maior torcida do FC Porto, e também a mais poderosa e mais temida. A maioria de seus colegas, aliás, também ocupa posições de destaque na organizada. Suas palavras, e principalmente suas ameaças, têm um peso nefasto.

É difícil atribuir a reputação de comandante instigador e controverso de um exército de cinco mil torcedores ferrenhos a Madureira descontraído e simpático que chegou ao Estádio do Dragão, a casa do Porto, para a entrevista em uma manhã ensolarada de quinta-feira, em abril.

Um grupo de crianças brincava do lado de fora enquanto ele se aproximava. Os integrantes de um time de juniores de futsal, que tinham acabado de concluir a excursão pelo estádio, pararam para olhar. Seu cargo na Super Dragões faz de Madureira meio que celebridade por aqui. O técnico infantil perguntou se ele podia fazer uma foto com a garotada.

Madureira concordou, solícito, enquanto a meninada se reunia ao seu redor; carinhosamente, bagunçou o cabelo do garoto ao seu lado.

Ele conta que começou a se envolver com o Canelas, time de um subúrbio do sul do Porto, segunda maior cidade portuguesa, quando ainda era adolescente. Jogou ali como aspirante antes de desistir da carreira incipiente, há 25 anos, para se dedicar integralmente à Super Dragões.

"Eu era um jogador mediano, mas sou um chefe de torcida muito bom", comenta.

E prossegue, contando que "trabalha 24 horas por dia, sete dias por semana" para o grupo, organizando transporte para as partidas, distribuindo ingressos entre os cinco mil membros da torcida, encomendando faixas gigantescas para serem desenroladas e exibidas durante os jogos, puxando o coro logo depois do apito inicial. Sua renda vem de um restaurante, um hotel e o aluguel de alguns apartamentos que possui, mas seu trabalho mesmo é com a Super Dragões.

Em 2012, ele e alguns de seus companheiros decidiram que queriam jogar juntos e se estabeleceram no Canelas – só que nem todo mundo gosta de enfrentá-los.

"Canelas é o único clube da divisão que não tem árbitro local. Dizem que é porque eles têm medo da gente, então temos que pedir que venham do campeonato nacional. E ainda mandam polícia especial, tipo SWAT", explica Madureira.

Para ele, esse tipo de precaução não tem razão de ser. E faz questão de explicar que "ultra" não é sinônimo de "hooligan": embora seu lema seja "Nenhum passo atrás", a Super Dragões não existe só para brigar. "É só mesmo contra o Benfica, nosso arquirrival, que a violência é inevitável", garante.

Entretanto, não é tolo; sabe que os torcedores não são anjos.

"Na Super Dragões tem gente ruim, claro, traficante, assassino... mas tem gente boa também. Tem todo tipo de gente na sociedade, por que seria diferente na torcida?".

É irredutível, porém, ao dizer que seus integrantes não devem ser impedidos de jogar só por serem de uma organizada. "Seria discriminação se não deixassem um africano, cigano ou chinês jogar, não seria? Por que tem que ser diferente com a Super Dragões?".

Por causa da violência em campo? "Esses vídeos que estão espalhando aí são de dois anos atrás", explica, tentando minimizar os golpes duros. "E são de um jogo só. Ficam repetindo. A imprensa está interessada só por minha causa, por causa da Super Dragões e do Porto. Se não tivesse a ver conosco e o mesmo acontecesse, ninguém ia falar nada."

Sua explicação para os boicotes – o segundo, de seis meses, foi instaurado este ano – é que são um exercício de politicagem cínica, e não uma cruzada moral.

E observa que o influxo de ultras no Canelas aconteceu há cinco anos, embora o medo pareça ter afligido os adversários justamente quando o time começou a temporada inesperadamente bem, vencendo seis dos sete primeiros jogos.

"Tem muito dinheiro envolvido nessa divisão. Tem clube que paga os tufos para seus jogadores; o orçamento deles é muito maior que o nosso para tentar subir. O Canelas aconteceu sem dinheiro por trás, aí decidiram dar um basta quando assumimos a ponta."

Madureira conta o que aconteceu desde o segundo boicote: o Canelas jogou as duas últimas partidas da temporada e depois, graças principalmente às vitórias por WO, se viu entre os seis semifinalistas disputando o campeonato e uma possível vaga na divisão superior.

Nessa disputa, até agora, a disciplina ainda não foi problema. "Não recebemos muitos cartões, não. Alguns amarelos, mas nenhum vermelho", conta Madureira.

A regra é uma coisa; a exceção, outra. A expulsão foi de Marco Gonçalves, membro da Super Dragões, a dois minutos do início do jogo contra o Rio Tinto, em abril – que reagiu com uma joelhada no árbitro.

O atleta foi proibido até de assistir aos jogos e ainda pode ser preso por agressão. Os juízes do país reagiram, boicotando os jogos do Canelas que, por sua vez, o demitiu – o que prova que, apesar do lema e de toda a justificativa, Madureira, o Canelas e a Super Dragões acabaram baixando o tom.

Por Rory Smith

 
 
 
 
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