The New York Times

Sul-sudaneses, tentando se integrar, se destacam no basquete australiano

Por: The New York Times
16/05/2017 - 14h15min | Atualizada em 16/05/2017 - 14h15min

Blacktown, Austrália – Os adolescentes batem a bola rapidamente pela quadra sabendo que a equipe perdedora terá de enfrentar mais uma sessão de corrida que transforma o ginásio emprestado no centro atlético da polícia em um lugar ainda mais limitado.

"Bola, bola", grita Henry Makeny. Ele tem 16 anos, 1,98 metro de altura e espera receber a bola de seu amigo, Gum Majak, que é dois centímetros e meio mais alto.

Os passes vão sendo feitos fora da área do garrafão, em meio aos gritos dos adversários. Finalmente, Henry recebe a bola; imediatamente gira e pula. Está perto do aro, mas não tem muito controle e erra.

"Ele precisa aprender a ir mais devagar às vezes, usar a velocidade com inteligência", diz Mayor Chagai, 32 anos, um dos treinadores, que migrou do Sudão do Sul e aprendeu basquete em um campo de refugiados no Quênia.

Como Henry, esse time de sudaneses naturalizados australianos que se intitulam Savannah Pride ("pride", além de orgulho, é o coletivo de leões, em inglês), acabou indo dos jogos casuais para algo muito mais ligado aos centros de poder do basquete.

Henry e Gum, que chegaram aqui quando eram crianças, com milhares de outros refugiados enviados para a Austrália durante a guerra civil do Sudão, estão agora sendo recrutados para jogar em escolas de ensino médio de elite nos Estados Unidos. Entre os que trilharam um caminho semelhante antes deles estão Deng Gak, de 2,10 m de altura, líbero do time da Universidade de Miami; seu irmão mais velho, Gorjok Gak, que atua na Universidade da Flórida, e Kouat Noi, que joga na Universidade Cristã do Texas.

Jogadores do Sudão do Sul em outras cidades australianas, como Thon Maker, do Milwaukee Bucks, também foram recrutados, juntamente com dezenas de outros que chegaram aos Estados Unidos para o ensino médio e universitário com bolsas de estudos garantidas pelo basquete.

Chagai não esperava nada disso. Ele e alguns outros refugiados sul-sudaneses começaram a jogar por diversão quando chegaram aqui, dez anos atrás, e começaram a treinar apenas porque era algo de que a comunidade precisava. Muitas crianças chegaram sem os pais. O novo país – generoso, rico e muitas vezes bastante racista – precisava ser explorado.

E então, o ginásio aqui nos subúrbios de Sydney rapidamente virou o que é hoje: um enclave em si – apertado, com o cheiro do suor dos adolescentes, com um mural de Michael Jordan pendurado sobre a quadra –, onde os filhos da horrível guerra do Sudão podem jogar duro e encontrar orientação com outros rapazes e homens que entendem suas lutas e seu potencial.

"Isso meio que une todo mundo. Você tem sempre algo para fazer. Treinamos todos os dias, e depois do treino jogamos até umas 9 horas, depois comemos e vamos para casa. E fazemos a mesma coisa no dia seguinte", disse Gorjok Gak, que também tem 2,10 m como seu irmão Deng.

"A relação com Mayor é realmente superforte. Eu o vejo como outro pai", acrescentou.

O desafio para o Pride agora é como preservar essa missão paterna ao mesmo tempo em que gerencia o interesse internacional e as pressões que vêm com ele.

Outros treinadores e equipes na Austrália já veem o time como um fornecedor de talentos, recrutando seus melhores jogadores, às vezes, forçando-os a priorizar torneios que entram em conflito com a escola ou o treino do Pride. Chagai tem dificuldade de responder a todos os telefonemas e e-mails de treinadores de todo o mundo e, em anos anteriores, alguns jogadores, que foram atraídos por olheiros americanos duvidosos, acabaram indo para escolas que eram pouco mais que fábricas de atletas. Cerca de doze voltaram para a Austrália depois de abandonar o programa da escola ou da faculdade.

Com Henry Makeny em particular, Chagai, que é voluntário e tenta gerenciar um programa para cerca de 200 garotos, está trabalhando duro para encontrar algo melhor. Ele conhece a família Makeny desde que viviam juntos em um campo de refugiados no Quênia. Henry tem convites de cinco escolas nos Estados Unidos e, recentemente, o treinador de uma faculdade apareceu para assistir ao treino aqui e rapidamente fez uma oferta.

"É muita pressão para conter a situação, para fazer pesquisa. A família confia em mim", disse Chagai, tomando chá na casa dos Makenys, que o menino compartilha com a mãe e seis outros parentes.

A área de Blacktown, onde Chagai vive desde que chegou, é uma região diversificada e em evolução de Sydney, com 340 mil habitantes, com uma grande população aborígene e onde 38 por cento dos moradores nasceram no exterior. É um trecho multicultural, mas tribal, de shoppings e casas simples, onde os imigrantes querem ficar com seus iguais e onde também há choques ocasionais, e Chagai ansiava por algum tipo de estrutura e conexão quando chegou.

Ele começou a jogar basquete algumas semanas depois de chegar e encontrou outros refugiados sudaneses que haviam se familiarizado com o jogo em seus próprios campos de refugiados. O grupo contava com um dos irmãos mais velhos de Henry Makeny. Juntos, chegaram ao Clube de Jovens da Polícia de Blacktown, ou PCYC.

Chagai disse que começou a ser técnico, em parte, para expandir o círculo de jogadores. Os meninos iam para o ginásio querendo jogar, mas sem saber como.

"Precisavam que alguém os ensinasse. Fomos nós", disse ele.

Deng Gak retornou ao PCYC Blacktown há alguns meses. Entre arremessos e brincadeiras, ele disse que passou uma mensagem aos jogadores que parecia ter se originado no bom basquete e na identidade sul-sudanesa: "Não pare de tentar. Ouçam o treinador".

O respeito pelos mais velhos e mais experientes está profundamente arraigado na cultura do Sudão do Sul, e o sucesso do Pride como programa de desenvolvimento vem, pelo menos em parte, da aprendizagem entre gerações. Além dos irmãos Gak, que vão retornar em breve para outra rodada de orientação, Luol Deng também concordou em promover um acampamento de três dias para os jogadores sul-sudaneses em Melbourne, em julho. E vários treinadores e outros voluntários são irmãos mais velhos que já jogaram.

Hoje em dia são eles que incentivam os mais jovens, que chegam a ater até 10 anos, a priorizar o Pride, e compartilham com eles a história de como o basquete os ajudou de uma maneira que não tem nada a ver com o esporte.

Como os irmãos Gak, eles falam sobre os treinadores que visitavam suas casas, verificavam a lição de casa, faziam churrascos para as famílias mais pobres e os incentivavam a nunca desistir.

"Se treinarmos bastante aqui, aprendemos como batalhar e treinar duro para o resto da vida", disse Christopher Abujohn, um dos alunos que estava com um irmão mais novo começando no Pride.

Os garotos mais velhos, como Henry e Gum, parecem estar adotando a filosofia incondicionalmente. Nos treinos, Henry em particular já se comporta como um líder, se dedicando mais do que qualquer outro, batendo palmas para que jogadores menos talentosos terminem os exercícios.

Sua irmã mais velha, Adol Makeny, 34 anos, técnica de laboratório em um hospital, disse que ele sempre foi maduro, "um adulto em corpo de criança" – embora agora as coisas parecer ter se equilibrado.

E o mesmo aconteceu com seus sonhos. Seus olhos brilham quando ele fala sobre os irmãos Gak.

"Eles estavam praticamente na mesma situação em que estamos agora. E podemos vê-los na TV", ele me disse um dia depois do treino.

Com o principal torneio sul-sudanês-australiano de julho se aproximando rapidamente, o treino no ginásio PCYC está se intensificando. Há cerca de 40 jogadores tentando conquistar uma das 22 vagas em duas equipes masculinas, com idades até 16 anos. Recentemente, um treinador da Universidade Cristã do Texas passou por lá para avaliar a ação. E imediatamente ofereceu a Henry um lugar na equipe.

Não importa onde jogue, Henry disse que está pronto. Está preparado para jogar o melhor basquete de sua vida, ainda tão curta, longe de casa.

Por Damien Cave

 
 
 
 
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