The New York Times

Um monumento cristão na cidade de Mao

Por: The New York Times
15/05/2017 - 13h52min | Atualizada em 15/05/2017 - 13h52min

Changsha, China – Elevando-se como uma enorme plataforma de esqui de vidro e metal, uma nova igreja protestante domina a área de terra revirada, árvores recentemente plantadas e fontes inacabadas de um parque suburbano em construção.

Com cerca de 80 metros de altura e uma cruz no topo, a Igreja de Xingsha é maior até do que a maior estátua de Mao Zedong na China, a menos de 16 quilômetros a oeste daqui.

Na Ilha Tangerina, no largo Rio Xiang, o enorme busto de granito do líder revolucionário parece supervisionar o mundo, mas, com 32 metros, a escultura tem menos de metade da altura da igreja.

Essa disparidade, na cidade onde Mao passou sua juventude e abraçou ideias politicamente radicais, enfureceu seus mais fervorosos admiradores por todo o país.

Pressentindo um desafio ideológico a seu herói, que fundou a República Popular em 1949 e denunciou o cristianismo como uma ferramenta do imperialismo estrangeiro, milhares de fãs "vermelhos" de Mao pegaram seus smartphones e computadores este ano e iniciaram uma batalha verbal contra essa contaminação do solo sagrado.

Eles protestaram contra o tamanho e o simbolismo da igreja, dizendo que construí-la em um espaço público foi uma apropriação indevida de recursos do Estado, oficialmente ateu.

"A opção pelo cristianismo ameaça fortemente a segurança ideológica da nossa nação," escreveu Zhao Danyang, do site Red Morality Think Tank, em um post típico da onda de protestos que irrompeu em fevereiro.

Com medo de uma crise política, autoridades de Changsha se apressaram para tentar controlar a controvérsia.

Guardas foram postados no Parque Ecológico de Xingsha, onde a igreja, um centro de estudos da Bíblia, escritórios administrativos e dependências residenciais estão perto de um jardim usado pelos namorados locais. As reportagens desapareceram da internet. O debate público esfriou. Várias ligações telefônicas para a sede provincial da associação estatal protestante não foram respondidas. A censura veio com força total.

Mas nas ruas de Changsha, a capital da província de Hunan, os moradores parecem não saber nem se importar muito com o choque entre cristianismo e comunismo que ocorre à sua volta. Questionadas sobre isso, várias pessoas deram de ombros e se recusaram a comentar, ou disseram que não tinham ouvido falar sobre o assunto.

Se tal despreocupação na antiga casa de Mao parece surpreendente, para um dos moradores ela faz completo sentido.

"Em Hunan, contradições não são contradições. Elas são normais. A vida aqui é um pouco como a comida chinesa, tipo, basta jogar um monte de coisas diferentes em um wok e mexer bem", disse Han Shaogong, autor de "O Dicionário de Maqiao", um romance que explora a extraordinária diversidade linguística da região montanhosa.

Na aldeia ao lado de Changsha, onde ele cuida da terra e escreve, Han disse que o cristianismo coexiste alegremente com outras tradições. "Há algumas senhoras que creem em Jesus, mas também acreditam no Buda", ele disse.

Embora o Estado comunista tenha reprimido a religião como superstição até depois da morte de Mao, em 1976, reconheceu cinco delas: protestantismo, catolicismo, budismo, taoismo e islamismo, gerenciadas por meio de associações "patrióticas".

As estimativas variam, mas muitos colocam o número de protestantes em aproximadamente 60 milhões, metade deles adeptos da igreja aprovada pelo governo, o resto frequentando "igrejas ilegais". Um clérigo protestante no Parque Ecológico Xingsha, que deu apenas seu sobrenome, Jiang, disse que as igrejas protestantes oficiais de Changsha tinham cerca de cem mil membros.

Indicações da ligação de Mao com a cidade estão por toda parte: luminárias de parede com sua imagem decoram o novo metrô; restaurantes anunciam seus pratos favoritos, incluindo porco assado vermelho; as pimentas, também amadas por Mao, estão em todos os pratos.

"Nós realmente gostamos de pimenta. E somos esquentados. Isso é visto como um sinal de força", contou Han.

Wu Aiyun era uma das várias mulheres distribuindo amostras de xampu grátis perto de estátua de Mao, na Ilha Tangerina, onde desabrochavam inúmeras flores da primavera. Ela nem pensou antes de responder à pergunta: "O que Mao, que tentou acabar com o capitalismo, pensaria disso?".

"Eu acho que ele iria adorar o que estamos fazendo. Aquela era outra época. Isto aqui é o agora."

Apontando para o busto, para o cabelo de Mao, ela brincou: "E ele era um cara bonito! Cabelo bom".

Quando jovem, Mao frequentou escolas em Changsha, incluindo uma faculdade de formação de professores que não cobrava mensalidade e oferecia alojamento barato, contou o jornalista americano Edgar Snow em "Red Star Over China".

"Nesse período, minhas ideias políticas começaram a tomar forma. Aqui também vivi minhas primeiras experiências em ação social", disse Mao a Snow. Ele leu Adam Smith e filósofos alemães na biblioteca pública de Changsha, inaugurada em 1905, sob a influência de missionários ocidentais.

Mao organizou greves de estudantes e trabalhadores em Changsha, ajudando a formar um movimento camponês do tipo que mais tarde tomaria toda a China.

"Nós dizemos que todos os homem de Xiang são soldados", contou Han, usando um nome local de Hunan.

Mas a região também é conhecida por sua reverência acadêmica, disse ele. "Em Guangdong, ao sul, um herói local seria um homem de negócios. Em Hunan, tradicionalmente seria um acadêmico."

Refletindo esses valores militares e acadêmicos, Mao fazia caminhadas vigorosas pelos campos. Ele acreditava que os chineses deveriam se fortalecer se quisessem expulsar imperialistas e missionários.

Changsha era um centro cristão. A Sociedade Missionária Estrangeira de Yale, que mais tarde se tornou a Associação Yale-China, foi fundada aqui, em 1901, uma conexão que perdura até hoje. New Haven, em Connecticut, onde fica a Universidade de Yale, está desenvolvendo uma relação de cidade irmã com Changsha.

"Já houve muitas igrejas em Changsha, mas várias foram derrubadas", disse Tan Hecheng, ex-jornalista nativo de Hunan cujo relato de um massacre na província durante a Revolução Cultural de Mao, "The Killing Wind", foi lançado recentemente em inglês, mas não pode ser publicado na China continental.

Apesar do sofrimento, para muitos habitantes, Mao é uma fonte de orgulho, e sua fama confere status à cidade.

"Mao era filho desta cidade. E foi imperador, o homem mais bem sucedido na China. É claro que é uma grande honra para Hunan e Changsha", disse Tan.

"A crença no partido morreu, e tudo hoje se transforma em vantagem e desvantagem. Nessas condições, não queremos saber nada, realmente. Mao? Tudo bem. Cristianismo? Tudo bem também. É tudo meio irrelevante", disse ele.

Mais de dois meses após o início da controvérsia, a associação protestante de Hunan não quis comentar sobre o que vai acontecer com a igreja, mas pessoas ligadas a círculos cristãos da China dizem que uma das possibilidades que havia sido discutida para apaziguar os críticos foi isolá-la do resto do parque com um muro e remover a cruz.

"Algum tipo de comprometimento apaziguaria o espírito de um lugar onde as pessoas são valentes, mas amam, acima de tudo, uma boa diversão", disse Han.

"Durante os anos revolucionários, todos estavam muito ocupados, mas agora só querem saber de comer, beber e jogar. Você pode até dizer que há algo degenerado aí, mas não é também adorável?"

Por Didi Kirsten Tatlow

 
 
 
 
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