The New York Times

Uma viagem psicodélica que não tem fim

Por: The New York Times
15/05/2017 - 14h54min | Atualizada em 15/05/2017 - 14h54min

Oakland, Califórnia – Em um fim de semana, no fim de abril, milhares de pessoas reunidas no espaço amplo se mostravam cada vez mais animadas. Ali o cabelo colorido era o mais comum, como também calças de sede roxa e o cheiro forte de maconha que uma salinha criada para os fumantes da erva exalava. Membros do público olhavam para o palco com um interesse ávido, de vez em quando levantando, de pés descalços, para aplaudir e vibrar.

Não, não é o festival de Coachella, realizado no mesmo fim de semana a 800 km mais ao sul, mas sim uma convenção da Associação Multidisciplinar para Estudos Psicodélicos (MAPS, na sigla em ingês), a primeira em quatro anos. Em vez de roqueiros, cientistas de instituições como a Johns Hopkins e a Universidade de Nova York foram as principais atrações, reunindo provas que defendem o uso de drogas psicodélicas como a psilocibina (ingrediente ativo dos famosos cogumelos mágicos) para alívio da ansiedade suicida, ajudando a aprofundar as práticas de meditação, a buscar o sustentáculo compartilhado da vida espiritual e, de acordo com um novo estudo, explorar um possível tratamento para a depressão severa.

Paul Austin, 26 anos, de Grand Rapids, no Michigan, empreendedor social que administra um site chamado The Third Wave ("A Terceira Onda"), dedicado ao fornecimento de informações sobre substâncias psicodélicas, estava ali para se reunir com outros integrantes da comunidade e compartilhar sua visão de como a próxima geração deve proceder. "Muita gente que lidera o movimento, baseada em estudos acadêmicos e pesquisa, está hoje com 60, 70 anos, mas para catalisar a mudança é preciso falar às pessoas, conquistá-las em um nível emocional", opina.

A conferência estava sendo realizada perto de Bay Bridge, na mesma cidade que introduziu os psicodélicos ao imaginário nacional, no início dos anos 60, quando o LSD era relativamente novo, legal e visto por aqueles que o usavam como um portal para a expansão da consciência, uma vida mais profunda e uma sociedade iluminada e humana.

Só que essa visão, mais associada ao passado de San Francisco que o setor de tecnologia atual, não se desenvolveu como seus defensores esperavam e o governo estadual da Califórnia proibiu a substância em 1966.

Mais de 50 anos depois, os partidários reunidos aqui ainda acreditam que as drogas psicodélicas, incluindo o LSD, os cogumelos mágicos e a MDMA (ou metilenodioximetanfetamina, também conhecida como ecstasy ou Molly), estão conquistando um lugar no dia a dia. "Não somos contracultura, mas sim a cultura", define Rick Doblin, diretor executivo da MAPS.

Os mais de três mil participantes eram uma mistura surpreendente de todas as idades e tipos, acadêmicos de blazer lado a lado com uma demografia mais associada ao Burning Man do que com os salões de conferências acarpetados do Marriott. Todos unidos pela crença arraigada no fato de que as drogas psicodélicas, longe de serem apenas uma diversão, têm o poder de iluminar, durar doenças e mudar a maneira com que as pessoas se relacionam umas com as outras e com o planeta.

Sem dúvida, ninguém é mais ativo na campanha dessa divulgação que Doblin: desde 1986, quando fundou a organização sem fins lucrativos, arrecadou mais de US$40 milhões de fontes como o Dr. Richard Rockefeller, o Dr. Bronner's Soap e a Fundação Libra, criada pela família Pritzker. Decidiu concentrar cerca de 90 por cento dos recursos da MAPS na MDMA que, segundo ele, não carrega o peso do histórico do LSD, símbolo dos protestos hippies contra a guerra e o governo. E também é "menos exigente" em termos psicológicos, referindo-se aos efeitos que tem no processo de pensamento, apesar dos especialistas que afirmem o contrário.

Doblin está decidido a evitar a ruptura explícita com o movimento psicodélico inicial, à qual o então presidente Richard Nixon reagiu, declarando o LSD uma droga da Tabela 1, o nível mais restrito entre as substâncias proibidas, em 1970. Na época, a maioria dos norte-americanos ainda pouco conhecia a ioga e a atenção plena (mindfulness) e evitava discutir assuntos como a morte. "Acontece que estamos num momento de muito perigo, não só para a espécie humana como para a saúde do planeta. O senso geral é de que há uma crise iminente e, ao mesmo tempo, o reconhecimento de que a solução será espiritual e psicológica, e não material."

Para Doblin, é essencial trabalhar com o governo; vestir terno e gravata; deixar bem claro que sua causa, a defesa do uso legal de psicodélicos, não é "coisa de hippie, nem de maluco. É também para os estados vermelhos (republicanos e conservadores), para as pessoas que têm que lidar com a 'morte por desespero'. É algo que atinge a todos".

Doblin e sua equipe estão estudando o potencial de uso terapêutico da MDMA para a síndrome do estresse pós-traumático; já estão entrando na Terceira Fase, a última exigida para obter aprovação do FDA (órgão que controla os alimentos e remédios nos EUA). Eles torcem para que a droga seja legalizada e passe a ser receitada como parte de terapias até 2021. E, surpreendentemente, a eleição de Donald Trump não fez arrefecer seu otimismo; pelo contrário, acredita que a antipatia geral do novo líder em relação à regulamentação facilite a aprovação de drogas experimentais pelo FDA.

Outras figuras há muito associadas com o movimento psicodélico também se voltaram para a ciência, como Amanda Feilding, também conhecida como a Condessa de Wemyss e March, membro da velha guarda do movimento, que "descobriu" o LSD na Inglaterra, na década de 60.

É difícil falar dela sem mencionar o fato de que, em 1970, abriu um pequeno furo no crânio para ajudar a "expandir a consciência", prática conhecida como trepanação, mas, em abril, sentada no salão de conferências claro em Oakland, usando roupas verde-esmeralda, cor que virou sua marca registrada, analisava várias fotos de resultados de neuroimagens mostrando o cérebro de várias pessoas cheio de traços de neon, indicando atividade. Era o material da pesquisa que tem o apoio da Fundação Beckley, que fundou em 1998 para combater a estigmatização e a ilegalidade das drogas psicodélicas.

"Essas substâncias se tornaram um tabu tão grande que, para reintegrá-las à sociedade, temos que usar as melhores provas científicas para mostrar como agem no cérebro e como são benéficas para o ser humano", diz ela, exibindo uma foto comparativa do órgão à base de LSD e outro, normal, para mostrar que, no primeiro, há um aumento significativo na "conectividade", ou seja, na comunicação entre os neurônios, dando credibilidade à ideia antiga de que uma "viagem" de ácido pode levar a novas ideias.

Não que ficar deitado do chão, em um estupor paralisante seja para todos, principalmente para os perfis multitarefas do século XXI.

E talvez por isso é que a microdosagem – prática de consumir doses tão pequenas de um psicodélico que mal se nota sua presença – está se tornando incrivelmente popular em todos o país, tantos nos bolsões da elite inovadora que busca espaço no Vale do Silício, como entre aqueles que simplesmente estão tentando se sentir melhor, trabalhar e se concentrar mais. "Os efeitos são tão sutis, tão leves, que não assustam ninguém", garante James Fadiman, psicólogo que participou de algumas das pesquisas inicias sobre o LSD, nos anos 60.

Embora a droga tenha sido classificada como ilegal, muitos de seus compatriotas, como Timothy Leary e Ken Kesey, continuaram a se dedicar a ela, mas Fadiman parou. "Não sou fora da lei. E nem ia conseguir me dedicar a ela e trabalhar ao mesmo tempo."

Agora septuagenário, Fadiman assumiu a tarefa de reunir os mais de mil relatórios escritos feitos por "cientistas cidadãos" que lhe escrevem de todas as partes do mundo com descrições dos benefícios que obtiveram com essas dosagens ínfimas, no humor, na saúde, no trabalho e até para combater cólicas menstruais.

Mas por que estamos testemunhando o que muitos chamam de "renascimento" das drogas psicodélicas se elas existem há tanto tempo?

Há muitas teorias, inclusive a de que as soluções dos grandes laboratórios para as doenças mentais não são satisfatórias para todos; que a internet está ajudando a divulgar conhecimento sobre o poder e o potencial delas; que a ayahuasca, ou o famoso chá de Santo Daime, se tornou tão popular em certas regiões dos EUA que está colaborando para reviver o interesse em outras substâncias psicodélicas, ou simplesmente pelo fato de que os "baby boomers" que descobriram as maravilhas do LSD nos anos 60, agora em idade avançada e mais próximos da morte, estão procurando, novamente, uma forma de se conectar com sua espiritualidade.

Por Casey Schwartz

 
 
 
 
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