The New York Times

Vivendo a boa vida, mas pegando leve

Por: The New York Times
09/05/2017 - 14h14min | Atualizada em 09/05/2017 - 14h14min

Los Angeles – Antes de Mac DeMarco comprar uma linda casa azul com piscina em uma colina tranquila aqui em Silver Lake – o primeiro bem digno de adulto, conseguido com uma carreira surpreendente, baseada em sua aparência de preguiçoso afável –, ele deu seu endereço para os fãs, não acreditando que apareceriam aos montes.

"Aparece aí, eu faço café prá todo mundo", disse o cantor e compositor com ar travesso, quase que sem querer, no final de "My House by the Water", trilha instrumental de 2015. Sua casa de quatro quartos na praia de Far Rockaway, no Queens, era relativamente isolada, em frente à Baía Jamaica do Aeroporto Internacional Kennedy. Acessibilidade à parte, as pessoas logo começaram a aparecer e não pararam durante seis meses.

"Apareceram milhares de crianças, durante todo o dia, a qualquer hora. Foi uma loucura. Gostei muito", lembrou DeMarco recentemente em seu novo quintal, rodeado de cinzeiros transbordando, latas de cerveja e água com gás.

Fiel à sua palavra e reputação, ele bancou o anfitrião amável para quem fazia a peregrinação até Rockaway. Sua namorada de longa data, Kiera McNally, "aturou bem, o quanto pode", mesmo quando o verão chegou e o espaço ficou apertado. "Às vezes tinha umas 40 pessoas sentadas, encostadas na parede, nos vendo ensaiar", disse DeMarco.

Esse é o tipo de intimidade e simpatia que transformou DeMarco, que é de Edmonton, Alberta, em algo que hoje é meio peça rara: um novo ídolo de indie rock cuja produção consistente, principalmente guitarra pop suave no estilo de compositores dos anos 60 e 70, como Harry Nilsson, Neil Young e John Lennon, vem acompanhada de um fervoroso culto de personalidade.

Como uma espécie de líder da multidão de blogueiros, ele cuida de seu rebanho não tanto com truques das redes sociais, mas principalmente com a proximidade através de turnês ininterruptas e conexão humana direta.

Seu novo álbum, "This Old Dog", é o terceiro LP e quinto lançamento em cinco anos pela Captured Tracks, gravadora independente do Brooklyn. ("Salad Days", seu disco anterior, vendeu mais de cem mil cópias nos Estados Unidos.) Porém, em vez de lançar um som para grandes festivais e oportunidades variadas, DeMarco vem com uma coleção de suas canções mais tranquilas, mais pessoais, gravadas em sua casa em Los Angeles, principalmente com violão acústico.

"É engraçado, quando tudo vai progredindo, eu só quero continuar fazendo coisas cada vez menores. Tento manter um certo controle. Não sou obsessivo, mas não quero fazer nada que não queira fazer", disse DeMarco.

Ele também parece reconhecer como a conexão é importante para seu sucesso. Aberto, genuíno e inegavelmente carismático, DeMarco, de 27 anos, é um arquétipo reconhecível para qualquer um que esteja familiarizado com cenas musicais locais – um lançador de tendências que pode até chegar a se embebedar e baixar a calça no palco, mas que também é um compositor dedicado.

"Não sou o artista típico; só quero me divertir", disse DeMarco, mencionando que, na adolescência, se sentia atraído por bandas que o faziam pensar que também podia fazer aquilo. "A molecada me vê e pensa: 'Acho que Mac tomaria uma cerveja comigo'. E a resposta é, provavelmente, sim! Essas pessoas estão pagando minhas prestações da casa, pondo comida na mesa para mim e para minha namorada. Obrigado! E ainda gostam da minha música? É muito louco!"

Porém, mesmo sendo grato pelo apoio, DeMarco é realista e consciente ao reconhecer que sua vibe roqueira brincalhona e irreverente e seu senso de humor acabaram criando uma legião de seguidores quase que independentemente de sua música sólida, mas despretensiosa.

"Eu sou como um meme. Minha música é uma coisa, e existe também essa personalidade estranha que as pessoas ligam a ela." Isso gera expectativas. "Hoje, a coisa é meio 'Põe o cigarro entre os dentes, cara'. Mas eu já fiz isso."

Perplexidades à parte, DeMarco insiste que não tem uma ansiedade existencial em relação ao papel de bobo da corte, principalmente porque esse não é um personagem. "Sempre tentei manter o Mac público e o Mac pessoal alinhados um com outro para que não exista estranhamento." Ele também garante uma proteção à sua arte.

Mike Sniper, fundador da Captured Tracks, assinou com DeMarco basicamente pela força das músicas no Bandcamp, pois ficou maravilhado com as múltiplas facetas da carreira do cantor. "Ele garante privacidade total em sua música para fazer o que quiser. Quem mais consegue ser tão sério enquanto músico e tão pateta em pessoa? Não consigo me lembrar de ninguém que consiga fazer isso tão bem quanto ele", disse Sniper.

Mesmo hoje, cada atitude de DeMarco é analisada obsessivamente on-line. Além de seus 643 mil seguidores de Instagram, ao estilo de rappers, a ativa comunidade r/macdemarco no Reddit inclui especulações sobre não apenas seu trabalho, mas também sobre o efeito sanfona do seu peso, suas finanças e sua relação com McNally, que se tornou uma coestrela entre as personagens do mundo de Mac.

A outra é Agnes, sua mãe, que aceitou seu status de celebridade de nicho e agora dirige o fã-clube oficial do filho, que não é lá muito sério. "Desde o começo, essas crianças queriam ser minhas amigas no Facebook", disse ela em uma entrevista.

E descreveu o filho como uma criança curiosa e entusiasmada. "Sempre foi meio agitador, cheio de energia, assim como é agora. Ele atrai as pessoas. Mac sempre andou com um bando de moleques que, mesmo que não quisessem gostar dele, acabaram gostando".

As pessoas mais próximas de DeMarco sempre tiveram algum destaque em suas músicas e sua carreira, embora ele prefira o que chama de "temas vagos, comuns e bonitinhos, e letras não muito específicas, pequenas pérolas pop". Mas em "This Old Dog", que ele começou na casa de Rockaway e ao qual voltou depois de sua mudança para a Califórnia, parece mais temático que nunca e diz que as musicas tem "estilo de diário".

A faixa de abertura, "My Old Man", fala claramente do pai que não teve na infância e que lutava contra o vício ("Oh-oh, parece que eu estou vendo mais traços do meu pai em mim"). O álbum foi inspirado em parte porque os dois se reconectaram em circunstâncias adversas: um diagnóstico de câncer.

"Eu até me despediria, se achasse que te veria mais tarde, e diria que te amo se isso acontecesse", ele canta em "Moonlight on the River". O álbum termina com a frase: "E mesmo que vocês mal se conheçam, ainda assim dói vê-lo desaparecer".

"Foi a minha despedida", disse DeMarco sobre o disco discreto, cujas músicas se originaram como resultado da pesquisa mais profunda do cantor nas carreiras de Paul Simon, James Taylor e Yellow Magic Orchestra. Mas em uma reviravolta, seu pai se recuperou, superando o diagnóstico.

"Eu achei que ele não ia chegar a ouvir as músicas e agora ele me diz: 'Voltei!'. Só xingando", falou DeMarco.

O fato de que esse momento introspectivo coincide com mudanças e ajustes de estilo de vida provavelmente não é uma coincidência. "Eu me contenho mais, não me abro totalmente", disse ele de sua figura pública. Mas o amadurecimento é uma coisa engraçada para um cantor cujo estilo desenvolto e extrovertido é fundamental para sua popularidade.

"Já vivi em muitos lugares claustrofóbicos", comentou DeMarco, olhando seu quintal com espanto e proferindo uma sequência de palavrões para dar ênfase. "É um golpe de sorte, é incrível", disse apontando para a piscina, que até aquele momento ele ainda não havia usado. "Olha para isso! Dá uma sacada! Conseguir isso tudo só tocando guitarra? É ridículo."

Por Joe Coscarelli

 
 
 
 
Zero Hora No jornal Zero Hora você encontra as últimas notícias sobre esportes, economia, política, moda, cultura, colunistas e mais.