The New York Times

A ilha selvagem que é a paixão de um artista

Por: The New York Times
12/07/2017 - 14h14min | Atualizada em 12/07/2017 - 14h14min

Lá estava eu nas docas desgastadas com John Anderson, que olhava na direção sul, do outro lado da baía do Mississippi, para a Ilha Horn, e seu cabelo, que mais se parece com a juba de um leão, balançava ao vento, como se já estivéssemos cruzando as águas. O Golfo do México estava especialmente agitado e o barco que eu havia contratado ignorava os avisos para pequenas embarcações. A Ilha Horn fica a 13 quilômetros da costa, um traço na nebulosa linha do horizonte; mesmo assim, parecia estar ao nosso alcance. "O fato de que nem sempre posso visitar a ilha me faz valorizá-la ainda mais", disse John.

Ele se tornou um perito na ilha por meio de seu pai, o artista Walter Anderson, que provavelmente fez mais viagens a Horn do que qualquer outra pessoa. E chamava o mar agitado de "batalha do equinócio", a mesma que Bóreas, o deus grego do vento norte, e Notus, do sul, lutaram, pela supremacia, mantendo o mar em agitação constante. Eu já tinha visto essa batalha muitas vezes ao longo dos anos, quando fiz pesquisa para um livro sobre o golfo.

Fiquei fascinado pela Horn desde minha primeira visita ao Museu de Arte Walter Anderson, em Ocean Springs, Mississippi, anos atrás. Desde o final da Segunda Guerra Mundial até sua morte em 1965, Anderson completou milhares de desenhos e pinturas na ilha. Remando e velejando em um barquinho meio gasto, ele passou semanas a fio entre os seres vivos da Horn, usando a embarcação como abrigo quando precisava, entregando-se aos caprichos da ilha. Ele se tornou, segundo suas próprias palavras, "o filho predileto da sorte".

Eu estava ansioso para ver a ilha onde ele tantas vezes buscou a plenitude criativa e espiritual, um lugar sem cânions espetaculares, cachoeiras ou montanhas, mas, apesar disso, fez com que "percebesse" sua relação com a natureza.

A Horn tem seu próprio esplendor. Com 16 quilômetros de extensão e 1,2 de largura, ela conta com um pico de 6 metros de altura e uma sequência de dunas brancas que Anderson venerava como "o dorso de Moby Dick". No final de março, aves migratórias aparecem aos milhares para descansar e se reabastecer. O outono brilha com o desabrochar de inúmeras flores que convidam abelhas e borboletas, incluindo as monarcas durante sua migração. Em todas as estações, o sol nasce e se põe no mesmo golfo, às vezes em silêncio, surgindo em meio à "vermelhidão das nuvens", outras vezes com "explosões selvagens de cores", mas sempre, como disse Anderson, "com muito bom gosto". Durante essa "hora mágica", a hora da refeição, alcatrazes, gaivotas e pelicanos mergulham no mar coalhado de peixes, enquanto batuiruçus e maçaricos ciscam nas águas rasas. Caranguejos se escondem em tocas na areia.

A Horn é uma faixa de terra baixa, mas tem uma origem mais escarpada. Sedimentos originários das Montanhas Apalaches e transportados por correntes costeiras formaram a ilha há 4.500 anos. A maioria das ilhas do Golfo do México se formou dessa mesma maneira, e, pela própria natureza de sua existência, elas constantemente se transformam, em tamanho e forma. "Tudo parece se alterar nas ilhas", escreveu Anderson.

Durante alguns anos, a Horn tinha um farol e um zelador, até que uma tempestade arrastou ambos para o mar, em 1906. Uma família que criava gado e porcos permaneceu até a década de 1920. Durante a Segunda Guerra Mundial, o exército foi para lá para desenvolver armas biológicas e incinerar, em grandes fogueiras, as capturadas do inimigo. Trinta anos após a desocupação da ilha, o exército divulgou que também havia afundado esse tipo de munição nas águas que a circundavam.

Ninguém vive na Horn, mas ela não é desabitada. Apesar do tóxico interlúdio militar, há muita vida lá, de esponjas até coelhos, em meio a lagoas salobras, áreas planas com pinheiros e zonas úmidas de pântano.

É a maior das quatro ilhas barreiras do Mississippi, que incluem a Cat (uma vez usada pelo Exército para treinar cães de guerra), a Petit Bois e a Ship. As quatro são paralelas à costa, na mesma formação que outras assumem em torno do Golfo. Funcionam como para-choques para o continente, pois suavizam o golpe das tempestades. Também transformam o fluxo da água doce do rio em baías salinas e igarapés, fazendo do golfo um dos estuários mais ricos do mundo.

Em algum momento da década de 1920, pontes começaram a ligar o continente às ilhas. Em algumas delas, a quantidade de pessoas, carros e concreto se tornou tão grande, que chegamos quase a perder a percepção de que estamos cercados de água.

Aquela que alimentou a criatividade, o corpo e a alma de Anderson nunca vai se desenvolver. A Horn e suas três irmãs são parte da Costa Nacional das Ilhas do Golfo, estabelecida pelo Congresso, em 1971, e agora gerenciada pelo Serviço Nacional de Parques. Seguindo 260 quilômetros rumo a leste da Ilha Cat até o oeste da Flórida, essas ilhas perfazem o maior litoral do país. Sete anos depois, os cidadãos relembraram o legado de Anderson – "Vocês vão derrubar a igreja do Walter?" – e persuadiram o Congresso a demarcar Horn e Petit Bois como áreas selvagens.

Ela parecia fora do alcance para John e eu até que, após semanas de espera, conseguimos uma brecha nas brigas dos deuses do vento e partimos para a Horn. Uma viagem que levava várias horas para Anderson, velejando e remando, fizemos em apenas uma. Para John, contar com a pressa barulhenta de um barco a motor não é a mesma coisa que se aproximar da ilha à vela, quando a viagem é meditativa e o leva à "realidade natural".

Mesmo assim, o motor nos transportou, e a Horn se tornou nosso ponto focal, nosso novo mundo. Poderíamos ver o que deixamos para trás, visível como um reino arquitetônico tênue, mas nossa perspectiva mudou totalmente. O tempo não estava mais em nossos pulsos ou smartphones; estava no movimento da luz e das sombras e nos hábitos de vida selvagem. As grandes pegadas bifurcadas da garça-azul encontravam as de um caranguejo, mas apenas as da garça continuavam. Linhas marcadas na areia, feitas pelo rabo de um jacaré marcavam uma passagem entre uma lagoa e a praia e percebemos que deveríamos montar nossa barraca em outro lugar.

Acontecimentos em tempo real chegam com o vento, um agente da realidade natural. Ele sopra constante, e nos envolve e aguça nossos sentidos, fazendo com que nos tornemos parte da ilha. Você a sente, saboreia, cheira e ouve – a areia massageando seus pés, a doçura das lagoas artesianas, o farfalhar dos pinheiros e seu cheiro de resina. Os sons não são altos, mas tudo é amplificado. "A borboleta aqui bate os pés", escreveu Anderson. Até mesmo um ninho de ovos de bacurau, camuflado na areia, chama sua atenção. Será que eles vão sobreviver aos guaxinins? A ilha faz isso, você começa a pensar em conexões.

"A Horn nos deixa cientes de que forças maiores moldam a sua existência", disse John. Percebi-me parando periodicamente para absorvê-las conforme íamos seguindo as trilhas mantidas pelo Serviço Nacional de Parques, que vinham do continente para o golfo, passando pela vegetação, pelo pântano e por um vale branco de dunas. "Estamos percorrendo os caminhos do meu pai e vendo através de seus olhos", disse John.

Por Jack Davis

 
 
 
 
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