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Amores da Copa: conheça as histórias das gaúchas que foram viver com australianos que conheceram em 2014

Casais surgidos naqueles dias inesquecíveis de junho fizeram prosperar o que parecia ser apenas uma paixão fugaz

Por: Leonardo Oliveira
14/07/2017 - 11h00min | Atualizada em 14/07/2017 - 14h52min
Amores da Copa: conheça as histórias das gaúchas que foram viver com australianos que conheceram em 2014 Reprodução/Arquivo Pessoal
Foto: Reprodução / Arquivo Pessoal  

Nem só de festa, cerveja e futebol foi a Copa do Mundo de 2014 em Porto Alegre. Houve amor também. Tanto que, três anos depois de desmontado o circo da Fifa por aqui, alguns casais surgidos naqueles dias inesquecíveis de junho fizeram prosperar o que parecia ser apenas uma paixão fugaz. Mesmo que entre eles estivesse um oceano, como, por exemplo, nos casos das gaúchas Roberta Ramalho, Júlia Menezes e Marcela dal Corso Silveira, que foram construir suas novas vidas na Oceania, ao lado de seus parceiros australianos.

Houve quem tenha feito o caminho contrário. O viúvo Hartwig Theodor Hansen, o Jimmy, trocou Flensburg, no norte da Alemanha, por Santa Maria, onde se casou com a jornalista Carla Regina.

Os dois cristalizaram a mistura cultural em um bistrô e padaria no bairro Camobi.

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Esses romances duradouros chamam atenção diante da coleção de histórias de pegação daquele Carnaval temporão.

A Lima e Silva, rua mais notívaga da Cidade Baixa, virou o coração da Copa. Bebeu-se e comeu-se muito por ali.

— Principalmente no dia de Austrália versus Holanda. Abrimos às 11h e só fechamos por volta da 1h, com o bar lotado — conta Rodrigo Bressan, dono do bar Boteco Exportação.

Embora os holandeses tenham demarcado território por aqui, com o Orange Day, foram os australianos que invadiram a cidade. Eles só vieram em menor número do que os argentinos. Dados da Secretaria Municipal de Turismo apontam que 14 mil australianos passaram por Porto Alegre.

Ainda hoje, os comerciantes da Lima e Silva suspiram ao lembrar deles. Primeiro, porque australiano não divide cerveja. Cada um toma a sua. Geralmente, de litro. Eles também não dividem comida. Um garçom do Boteco Cotiporã lembra de servir de forma individual pratos que normalmente são repartidos por três clientes.

Bem alimentados, embalados por litros de cerveja e com sua reconhecida alegria, os australianos se sentiram em casa em Porto Alegre. Tanto que alguns deixaram o coração por aqui. Mas não demoraram a voltar para buscá-lo.

Ponte aérea Porto Alegre-Sydney e casamento bilíngue marcado

A gaúcha Marcela e o australiano Rowan conheceram-se durante a Copa, em Porto Alegre Foto: Reprodução / Arquivo Pessoal

Em setembro, um casamento bilíngue em Porto Alegre selará uma relação que começou no burburinho da Cidade Baixa em 17 de junho de 2014, enquanto a Seleção Brasileira patinava em um 0 a 0 insosso com o México. Passados três anos, a relações públicas Marcela dal Corso Silveira,

25 anos, e o australiano Rowan Moon, 26, dirão o sim diante de um celebrante que conduzirá a cerimônia em inglês e português. Foi a saída encontrada para agradar as duas turmas de convidados. Rowan trará do outro lado do mundo os pais, os irmãos, as cunhadas e mais 11 amigos. Marcela estará com a família em peso como testemunha de um relacionamento que criou uma ponte-aérea Porto Alegre-Sydney.

Até setembro do ano passado, os dois se alternavam em períodos de três meses no lado oposto do planeta. Foi quando Marcela fez as malas e se mudou para Sydney.

A decisão já estava tomada havia mais de um ano. Parecia iminente desde os primeiros dias em que se conheceram.

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Marcela estava com as amigas diante do bar Pinguim, na Rua Lima e Silva. Espiavam o jogo do lado de fora, na calçada. Posicionaram-se para fazer uma selfie quando um grupo de cinco australianos chegou com aquela conversa mansa, sorriso fácil e garrafas de cerveja na mão. Houve abertura, e Rowan estacionou ao lado de Marcela. Alongou o assunto e cativou a guria. Tanto que, quando ela se deu conta, chovia, passava da 1h e a manhã seguinte era de trabalho como estagiária de relações públicas numa assessoria de imprensa.

— Ele já me deu a mão, superapaixonado.

Achava que gringo era mais galinha, que trovava todas. Ficamos juntos, lembro de ter encontrado vários amigos e apresentado o Rowan para eles — conta Marcela, em conversa pelo Messenger, pedindo silêncio para o namorado, entusiasmado com um jogo de rúgbi na TV.

A empatia naquela noite chuvosa foi recíproca. Rowan convidou a guria para sair na noite seguinte. Marcaram no Shamrock Pub, no bairro Farroupilha. Marcela se produziu e foi.

O australiano, não. Como ele tinha viagem marcada para o dia seguinte, ela imaginou que havia sido trocada pela despedida de Porto Alegre com os amigos. Na mesma noite, uma mensagem espocou em seu celular. Era Rowan, justificando a ausência. Como o irmão mais novo tinha de falar com a namorada em Sydney e precisou voltar ao hotel, ele ficou com receio de deixá-lo sozinho nas ruas escuras de Porto Alegre.

— Quando começamos a namorar, o irmão dele confirmou que foi essa mesmo a razão para ele me dar o bolo. Na época, não acreditei nem um pouco — conta Marcela, aos risos.

De volta à Austrália, os dois seguiram com as trocas de mensagens. O que custava olheiras e noites quase em claro por causa do fuso horário.

As famílias já haviam sido apresentadas nas chamadas por Skype. Os dois viviam um estranho namoro virtual. De contato físico, mesmo, haviam sido quatro horas. Foi quando o australiano fez uma proposta:

— Quem sabe fazemos uma viagem juntos, para vermos se essa relação funciona mesmo?

Era outubro de 2014 quando Marcela e Rowan se encontraram no aeroporto de Cancún. Passaram 12 dias juntos nas águas translúcidas do Caribe mexicano. No retorno, a certeza de que estavam apaixonados e namorando. Só havia um problema: os 12.529 quilômetros entre Porto Alegre e Sydney.

— Na volta ao Brasil, tinha caído na realidade, era sério. Gostava dele. Bateu o pavor pensar que ele morava em Sydney e eu, em Porto Alegre, com minha vida aqui, a faculdade (estava na metade do curso) — recorda Marcela.

Os dois combinaram que levariam o relacionamento adiante. Ficariam três meses separados e três meses juntos, alternando períodos no Brasil e na Austrália. Em dezembro de 2014, Marcela desembarcou em Sydney. Em março, voltou e retomou a vida, com o estágio, a faculdade e as madrugadas ao celular. Três meses depois, Rowan retribuiu a visita. A longa estadia era obtida com licenças no trabalho. Nos três meses longe da amada, ele trabalhava sem folgas e fazia economias para se bancar em Porto Alegre.

No final de 2015, Marcela voltou a Sydney para mais três meses. O tom da conversa foi mais sério. Decidiu que só seguiria na ponte-aérea transoceânica com garantias de futuro no relacionamento. Rowan concordou. Os dois tinham marcado uma viagem de férias até a Tailândia em fevereiro. Marcela imaginou que voltaria do paraíso asiático noiva. Enganou-se. Antes disso, o namorado convidou-a para almoçar com amigos em Harbour Bridge, cartão postal de Sydney e região predileta dela na cidade.

Saíram de casa com um espumante sob o braço. Ela nem desconfiou. É comum em muitos restaurantes de Sydney o cliente levar sua própria bebida. Os dois se sentaram na esplanada sobre a Harbour Bridge e entabulavam uma conversa quando Rowan se ajoelhou e tirou do bolso uma aliança. Marcela tremeu. Conta que a voz falhou. Quando conseguiu respirar, falar e chorar ao mesmo tempo, disse o sim. Famílias que caminhavam por ali pararam a aplaudiram a ousadia do noivo. Mas ainda havia mais.

— Ele me disse que tinha gente me esperando. Fomos até um pier, e a família dele e um casal de amigos nos esperavam numa lancha, com algumas comidas e bebidas. Passeamos pela baía, com todos celebrando muito — recorda ela.

Marcela voltou noiva para Porto Alegre em março de 2016, para concluir a faculdade e começar a preparar sua mudança. Em junho, Rowan desembarcou por aqui, para a formatura da amada. Três meses depois, ela partiu em definitivo. Como o casamento será no Brasil, os dois aproveitaram a cultura australiana de celebrar o noivado e fizeram uma prévia do que será a cerimônia de setembro. Em janeiro, receberam cem convidados em uma festa com música, boa comida e bebidas que deixam os locais ainda mais animados.

A mãe de Marcela estava entre os convivas. Ela, que no início estava temerosa com a decisão da filha mais velha (tem ainda um casal de gêmeos de 20 anos), passou 40 dias em Sydney. Voltou para Porto Alegre com o coração sossegado. A filha está realizada com o conto de fadas que começou a escrever em um dia de empate insosso do Brasil.

Uma noite na balada e reencontro via Facebook

Júlia e Matt no Jardim Botânico, em Porto Alegre  Foto: Reprodução / Arquivo Pessoal

Júlia Menezes, 27 anos, saiu de casa com uma amiga na noite daquele sábado disposta a entrar no Thomas Pub, na Padre Chagas. Mas a fila serpenteava na calçada, e ela decidiu badalar na Dublin, 10 metros à frente e com acesso livre. Jamais imaginava que essa decisão tomada na fria noite de 14 de junho de 2014 a faria desembarcar em Sydney um ano depois.

Dentro da Dublin, Júlia encontrou um casal de amigos e sentou-se à mesa com eles. Ao lado, um grupo de quatro ou cinco australianos entornava algumas cervejas e especulava na noite porto-alegrense. Os amigos de Júlia haviam morado no país e engataram conversa com os gringos. Logo, as mesas se juntaram e, ao lado dela, sentou-se Matt Andrew, típico australiano de 25 anos, com pinta de surfista. Os dois ficaram, e a noite acabou com parada no McDonald's e carona à trupe de australianos até o hotel no centro de Porto Alegre. Foi preciso dar algumas voltas para achar o endereço. O vocabulário de Matt e seus amigos em português e restringia a "Plaza" e à frase "Duas cervejas, por favor". Julia bateu direto no Plaza São Rafael para despachá-los. Não era esse o hotel deles. Foram ao Plazinha. Também não era. Teve de recorrer ao GPS para descobrir que havia um terceiro Plaza, no Centro, o Porto Alegre, na Rua Senhor dos Passos.

A busca liquidou com a bateria do seu celular. Como Matt havia deixado o telefone no hotel, os dois se despediram com a promessa de se acharem no Facebook. No dia seguinte, ela tentou. Mas a busca mostrou uma infinidade de Matt Andrew. Como imaginou que ele não havia decorado seu nome, desencanou. Até porque não estava certa de que o australiano havia dado o nome verdadeiro e também se ele era realmente solteiro.

Quatro dias depois, seu perfil no Facebook recebeu a solicitação de amizade de Matt. Ela aceitou na hora. Levou alguns segundos para decidir se lhe escreveria. Antes que resolvesse, uma mensagem espocou no celular:

— Oi, tudo bem? Lembra de mim?

Matt estava em Florianópolis. Insistiu para que Júlia fosse encontrá-lo. Para quem havia atravessado o mundo, 460 quilômetros era como ir à esquina. Ela resistiu e recusou. O australiano assistiu à sua seleção contra a Espanha, em Curitiba, e fez escala nos EUA antes de chegar em casa. Mas se manteve em contato no restante da viagem. Pedia dicas de passeio, perguntava sobre amenidades, arrumava algum assunto.

A Copa do Mundo terminou, e Júlia retomou a rotina. Estava no último semestre de Relações Públicas na Famecos, da PUCRS, e tinha um TCC para entregar. O que a forçou a ficar mais caseira. Indiretamente, isso colaborou para que aumentasse o vínculo com o australiano. Era sagrada, nas madrugadas destinadas a escrever o texto do TCC, uma rápida conversa com ele nas pausas para o cafezinho.

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Passado o primeiro mês, a pausa do cafezinho já não bastava. Ele acordava lá na Oceania e dava bom dia. Ela ia dormir aqui e dava boa noite. Qualquer acontecimento trivial do dia era razão para mandar uma mensagem. Júlia tinha planos de morar alguns meses fora do Brasil depois da formatura. Quando tocava no assunto, Matt rebatia:

— Pode ser aqui na Austrália.

Até que, em novembro, ele chamou-a no Messenger:

— Acabei de comprar passagem para Porto Alegre. Vou passar um mês aí em março.

O australiano virou hóspede de Júlia no apartamento do bairro Santana que dividia com a mãe, a daschund Maya e o fox paulistinha Bob.

Júlia e Matt  nas cataratas de Foz do Iguaçu: a vida agora é em Sydney Foto: Reprodução / Arquivo Pessoal

Por precaução, veio para ficar apenas as primeiras três semanas em Porto Alegre. Se a expectativa com a amada não se confirmasse, ao menos teria a última semana no Rio para se divertir. Logo caiu nas graças da sogra, dos tios e da infinidade de amigos de Júlia. Zanzou pela Cidade Baixa, voltou à Padre Chagas, foi à Arena, aprendeu a tomar chimarrão, esticou por alguns dias na casa da família dela em Garopaba e conheceu as Cataratas do Iguaçu, uma obsessão dos australianos. Despediu-se no Salgado Filho com lágrimas e desceu no Galeão. Quatro dias depois, telefonou:

— Não tem por que ficar aqui no Rio. Comprei passagem e estou voltando para Porto Alegre.

Mais 48 horas juntos e choradeira na despedida. Foi quando Matt tomou o controle da situação:

— Chega. Vamos organizar isso. Você vem para a Austrália comigo.

Semanas depois, ela se formou em Relações Públicas e decidiu tomar o caminho de Sydney.

O cargo de assistente de marketing numa agência de intercâmbios ajudou a resolver as burocracias da viagem. Júlia se demitiu e desembarcou na Austrália no dia 26 de junho de 2015, 377 dias depois daquela noite na Dublin. A experiência de três meses em Paris, aos 18 anos, a deixou escaldada. Havia sentido falta da família, dos almoços de domingo. Sofreu muito com a saudade na França. Por isso, solicitou visto de estudante, válido para apenas seis meses na Austrália. Faria uma experiência. Se desse certo, prorrogava.

O começo foi difícil. Ainda mais que nas primeiras semanas recebeu pelo telefone a notícia de que Bob, seu fox paulistinha, havia acabado de morrer. O calor dos Andrew ajudou a relativizar a saudade. Eles a adotaram como filha. Matt é o do meio numa família de três irmãos. Apesar de apaixonado, engrossa o coro de reclamação nos fins de semana, quando a mãe decreta que o cardápio de domingo dependerá do gosto da nora brasileira.

Passados quase dois anos, Júlia está tão adaptada à vida australiana que já começa a perder algumas palavras em português. Atualmente, mora sozinha no sul de Sydney e comemora as conquistas no seu novo mundo. Há alguns meses, foi promovida a gerente da loja de roupas masculina em que trabalha há dois anos. Em dezembro, encerra um curso de pós-graduação em marketing. O namorado mora no lado oposto da cidade, com os pais. No próximo ano, concluirá a faculdade de Paisagismo. É a última etapa para que deem o próximo passo.

— A gente já fala em casar. Mas ele já sabe: vamos fazer duas festas, uma aqui na Austrália, para a família e os amigos dele, e outra aí em Porto Alegre — explica Júlia, que, ao evitar uma fila, foi amar do outro lado do mundo.

Ela queria ver Messi ao vivo, mas acabou conhecendo Travis

Roberta e Travis em jogo do Giants, de futebol australiano (semelhante ao rúgbi) Foto: Reprodução / Arquivo Pessoal

Roberta Ramalho, 33 anos, agradece a Tite duas vezes. Pelo trabalho na Seleção Brasileira e por ter cruzado seu caminho no final da manhã de 18 de junho de 2014. Quando o técnico chegou ao Beira-Rio para ver Austrália x Holanda, o sobrinho de Roberta, Giovanni, à época com 15 anos, saiu em disparada em busca de uma selfie. Deixou a tia sozinha o tempo suficiente para uma abordagem do australiano Travis Kenny, 40 anos.

O que precedeu essa primeira conversa foi uma série de nós que o destino teve de desfazer para que a publicitária porto-alegrense e o australiano pudessem iniciar o relacionamento que viceja hoje em Melbourne. O primeiro, a obsessão de Roberta em assistir a Argentina x Nigéria. O pai havia ganho um par de ingressos de um banco. Deixou para a filha escolher a partida. Roberta cravou: queria ver Messi ao vivo. Mas quando comunicou o pai, só havia entradas para Austrália x Holanda.

Hoje, ela admite que foi ao jogo a contragosto. Andava em uma fase um tanto cinzenta, saía pouco de casa. Mas tomou o caminho do estádio. Afinal, era Copa e uma chance de quebrar a rotina. Aqui, o segundo nó. Roberta vestiu uma flamante camisa laranja da Holanda. O que na nossa (primitiva) cultura esportiva é o suficiente para repelir torcedores adversários.

Para sorte dela, australiano sabe usar bem a rivalidade. Ao perceber o movimento do sobrinho de Roberta atrás de Tite, Travis se aproximou. Usou uma ginga que seus ídolos da seleção australiana jamais exibiram na vida. Puxou a conversa sobre o jogo. Ouviu a resposta em um inglês fluente, afiado no ano vivido no Canadá para estudar design digital. O papo fluiu e, antes que cada um tomasse seu lugar no estádio, ele solicitou amizade no Facebook. Adicionou-a ali mesmo.

A conversa seguiu pelo Messenger depois do jogo. O australiano se convidou para conhecer a noite de Porto Alegre. Roberta levou-o à Cidade Baixa para beber e, depois, para jantar em um restaurante vegano vizinho à Redenção. Na sexta-feira, o novo amigo seguiu com seu grupo para Curitiba, onde veria Austrália x Espanha, três dias depois. Ficou a sensação de que a conversa era boa e poderia ter se alongado mais.

Na quarta-feira, enquanto Porto Alegre era estremecida pelos argentinos e pela presença de Messi contra a Nigéria, Roberta recebia no Facebook um convite tentador. Travis esticaria a viagem até o Rio antes de voltar à Austrália.

Queria seguir a conversa iniciada em Porto Alegre. A primeira resposta foi negativa. Havia mais um nó a ser desatado pelo destino. Era período de Copa, e os valores das passagens aéreas estavam salgadas. No final da noite de sexta-feira, Roberta conferiu, por curiosidade, quanto custaria um bilhete.

Roberta e Travis em Twelve Apostles, atração de Melbourne Foto: Arquivo Pessoal / Arquivo Pessoal

Foi surpreendida por uma promoção relâmpago. No sábado pela manhã, desembarcou no Galeão. Foram quatro dias no Rio. Na despedida, ficou a pergunta: e agora?

Havia um oceano e um fuso horário de 13 horas entre eles. A saudade bateu rápido. Mantinham conversas breves pelo Messenger e se esbaldavam pelo Skype no fim de semana. Roberta tinha, antes mesmo da Copa, plano de viajar por Tailândia e Vietnã. Em novembro de 2014, comprou passagem para embarcar em março. Dias depois, Travis ajeitou sua agenda (trabalha como encanador mecânico em sistemas de ar-condicionado) e avisou:

— Vou junto.

Foram 20 dias nas praias paradisíacas do sudeste asiático. E um sentimento em comum.

— Vimos que estávamos enrolados — conta Roberta.

Na volta a Porto Alegre, a publicitária convivia com um misto de alegria e incerteza. A vida profissional estava estabilizada. Havia demanda de sobra na produtora de vídeos em que trabalhava. Mas o coração ficou do outro lado do mundo. Em setembro, pediu férias e desembarcou em Melbourne. Passou um mês com Travis, conheceu família e percebeu que não tinha mais volta. A conversa ficou séria e acabou com os dois buscando informações com um agente de imigração. Roberta estava disposta a arriscar e se mudar para a Austrália.

A crise econômica do Brasil eliminou os resquícios de dúvida. O trabalho escasseou e, em março, ela deixou a produtora. No dia 17 de junho do ano passado, véspera de completar dois anos do dia em que conheceu Travis, ela desembarcou de mala e cuia em Melbourne. Roberta trabalha na Anistia Internacional e, em junho, veio a Poro Alegre rever a família. Ela é a caçula de três irmãos. Os pais, já na faixa dos 70 anos, apoiaram a decisão da guria.

— Minha mãe demorou um pouco a se dar conta da mudança. Mas hoje percebem que foi o melhor para mim. Querem ir em dezembro passar o Natal comigo — exulta Roberta.

A vida segue um ritmo tranquilo na Austrália. O fim de semana é reservado aos esportes. Os australianos, conta, são fanáticos. Rúbgi, futebol australiano (mistura do nosso futebol com o rúgbi) e tudo o mais que puder combinar com cerveja os faz parar diante da TV. Quando o horário permite, o casal assiste aos jogos do Inter. Travis virou um colorado fervoroso. Pelo slogan de "Clube do Povo" e, é claro, por influência de Roberta. Um adesivo do escudo do Inter decora o tanque de sua moto, e a camisa vermelha é traje de fim de semana. Por vezes, Roberta pensa até estar em Porto Alegre.

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