Proa

Julia Dantas: "Quando tudo ao nosso redor desaba"

Quando você buscar algum sentido em tudo que nos violenta, felizmente haverá sempre artistas. Quando faltar sentido, quando faltar vida, quando faltar sobrevivência, eles nos darão, pelo menos, um pouco mais de fôlego

Por: Julia Dantas
15/07/2017 - 10h00min | Atualizada em 15/07/2017 - 10h00min

Por que a arte? Uma pergunta besta, que interessa a quase ninguém, mas ainda há quem crie, ainda há quem acredite que no fim desse túnel longo, tão longo, haverá uma saída à esquerda com paisagens mais humanas. Para que fazer arte? Alguns anos atrás, Ferreira Gullar respondeu a essa pergunta dizendo: "A arte existe porque a vida não basta".

Leia mais
Zuenir Ventura: "O Brasil não está sangrando. Está purgando"
"Raças não existem. Trata-se de um conceito inventado", garante o geneticista Sérgio Pena


Antes de mais nada, é preciso dizer que eu acredito na arte. Porque se você alguma vez já sentiu qualquer tipo de arrebatamento em um museu, diante de um grafite, no meio de um livro, no refrão de uma canção, você entende o valor visceral de uma obra de arte. Você entende que, quando tudo ao nosso redor desaba tal qual castelo de cartas, você encontra algum sentido na arte. Você recorre à arte enquanto vê humilhados os servidores do Estado e do município que recebem seus salários às migalhas, enquanto as madames do jockey club do Rio de Janeiro lamentam a troca de champanhe por cerveja (ainda por cima nacional, o horror, o horror!), enquanto a polícia porto-alegrense, numa madrugada fria, remove de um prédio abandonado dezenas de famílias, enquanto um vereador ofende e agride servidores municipais, enquanto o prefeito da cidade que nos dói perde tempo com piadas de mau gosto em decretos de fim de semana, enquanto proíbe os carrinhos de reciclagem, enquanto humilha os vendedores ambulantes. 

Enquanto a cidade nos dói, você busca sentido na arte. Enquanto senhores engravatados aprovam no escuro, sob a fina brisa do ar-condicionado, a reforma que vai moer os trabalhadores, você busca sentido na arte. Enquanto os trabalhadores pobres pagam o pato, e muito apropriado que seja um enorme pato amarelo maior do que a Avenida Paulista, porque esse imenso, ridículo e opressor pato vai ser sempre pago pelos mais pobres, enquanto os idealizadores do pato comem filé mignon, você vai, sim, buscar sentido na arte. Porque de algum lugar a gente tem que tirar, se não muito sentido, alguma espécie de sobrevivência.

Enquanto a vida desanda, aonde nos leva uma obra de arte? Pedi a mais de 30 escritores que me enviassem uma breve reflexão sobre a máxima de Ferreira Gullar. Alguns disseram: sim, a vida falta, por isso a arte, para completá-la. Outros discordaram: a arte não é bengala da vida, existe de forma independente, autônoma e livre. Por fim, aqueles nos quais me incluo: a vida sobra, por isso a arte, para dar conta das arestas. Mas, às vezes, a vida chega ao fim antes da hora.

 Na segunda-feira, nos deixou Elvira Vigna, escritora que até seus últimos dias viveu literatura. "Incontornável", a definiram. Uma artista que construiu sua carreira sem concessões, firme e irreverente. Uma mulher de quem não conheci a vida pessoal, mas desconfio que só seria possível reprimir a brevidade. Elvira deixa uma obra transbordante e ainda alguns livros inéditos: impossível saber se a vida lhe bastava, mas o tempo, em definitivo, foi curto. E diante de todas as respostas possíveis, e diante de todas as respostas impensáveis, só podemos concluir que em tudo aquilo que a vida nos falha, a arte nos salva. Quando você buscar algum sentido em tudo que nos violenta, felizmente haverá Elvira Vigna e, por sorte ou milagre, haverá sempre artistas. Quando faltar sentido, quando faltar vida, quando faltar sobrevivência, eles nos darão, pelo menos, um pouco mais de fôlego.

Leia as últimas do Caderno DOC


 
 
 
 
Zero Hora No jornal Zero Hora você encontra as últimas notícias sobre esportes, economia, política, moda, cultura, colunistas e mais.