The New York Times

Os gestos da dança

Por: The New York Times
13/07/2017 - 15h01min | Atualizada em 13/07/2017 - 15h01min

Manchester, Inglaterra – Dez mil gestos, 25 dançarinos, uma hora de apresentação. "É uma ideia de uma linha!", exclamou o coreógrafo francês Boris Charmatz, enquanto assistia a um ensaio de seu novo trabalho na primeira fileira da cavernosa e fria Mayfield Depot, uma antiga estação de trem daqui.

"10000 Gestures", que integra o Festival Internacional de Manchester, pode ser uma ideia de uma linha, mas é uma extremamente complicada. O conceito de Charmatz é que nenhum gesto – uma palavra que usa para se referir a um movimento único, seja um passo de dança ou um dar de ombros – pode ser repetido; e que as sequências de cada bailarino são únicas.

"A peça brinca com o DNA do que supostamente é a dança, com as ideias usuais de padrões coreográficos, estilo e estrutura", explicou Charmatz, que fala rapidamente em um inglês fluente com um sotaque leve. "Se você não repete, está jogando seu material fora o tempo todo. Não dá para fazer uma 'boa' coreografia desse jeito."

Charmatz, de 44 anos, parecia bem satisfeito com a ideia de não querer fazer "boa" coreografia. "Acaba com a pressão", brincou ele.

Mas seu rigor e concentração estavam perfeitamente evidentes enquanto assistia aos dançarinos nos primeiros dez minutos de ensaio. "Não tão displicente, por favor", pediu a um; "15 segundos é um pouco longo demais para essa sequência", disse a outro. Apenas quando uma bailarina correu para a audiência e se atirou em seu colo como parte de sua sequência, ele relaxou o olhar e deu risada.

Charmatz afirmou que a ideia para "10000 Gestures" surgiu enquanto assistia a uma de suas próprias peças, "Levée des Conflits Extended", no Museu de Arte Moderna de Nova York em 2013.

"A ideia de 'Levée' era ter gestos limitados, então estávamos constantemente repetindo a sequência, como uma escultura viva mudando de forma", contou. "Pensei: e se eu transformar isso e criar uma peça onde nenhum dos bailarinos repete um gesto próprio ou os de outra pessoa?"

Como você cria dez mil gestos completamente diferentes? Ao longo de muitas, muitas horas trabalhando em um grupo com temas variados, explicou Charmatz. Os temas incluíam: "fazer nada", movimentos microscópicos (levantar a sobrancelha, mexer os dedos), violência, erotismo, história da dança, obscenidade e política – um gesto de "Brexit significa Brexit" feito por Theresa May também está lá.

"Cada pessoa tem uma ideia diferente sobre o que um gesto erótico ou violento pode ser. Então você tem 25 variações dessas ideias todas acontecendo ao mesmo tempo", afirmou Charmatz.

Todos os temas entram em uma ordem específica e duram um determinado tempo, explicou ele, embora o número de bailarinos no palco e os agrupamentos que criam variem constantemente. Quando alguém disse que estruturar o trabalho por meio de mudanças de configurações pode se aproximar de boa coreografia, ele riu. "Claro que eu quero que seja interessante assistir. Estou colocando todas as minhas habilidades, mesmo as que não tenho, nesta peça."

Um dos principais nomes da dança contemporânea europeia, Charmatz nunca seguiu um caminho tradicional. Ele foi reconhecido ainda muito jovem: em 1993, aos 19 anos, coreografou "À Bras Le Corps" com Dimitri Chamblas, um amigo do Conservatório de Lyon, onde os dois praticaram dança depois de deixar a escola de Balé da Opera de Paris para perseguir uma orientação mais contemporânea da arte. A simplicidade, a dimensão física e o ataque direto de "À Bras Le Corps", apresentado em um ringue de boxe com os espectadores sentados de todos os lados, foi um choque salutar no mundo altamente teatralizado da dança francesa dos anos 1990.

Charmatz continuou em seu caminho iconoclasta. Ele não formou seu próprio grupo nem aceitou convites de companhias. Dançou com várias trupes e colaborou com amigos coreógrafos enquanto criava relativamente poucas peças, que em geral pareciam mais instalações do que apresentações de dança convencionais. De 2002 a 2004, administrou uma escola nômade para 15 alunos; também escreveu um livro sobre dança contemporânea e é coautor de outros dois.

Em 2009, quando foi nomeado para liderar o Centro Coreográfico Nacional em Rennes, sua primeira decisão foi mudar o nome para Museu da Dança. Ao contrário da maioria dos coreógrafos que dirigem centros regionais na França, Charmatz não tem companhia permanente e trabalha com base em cada projeto. (Seu mandato em Rennes termina em 2018.)

"Boris junta movimentos e ideias no espaço de maneiras extraordinárias", afirmou John McGrath, diretor do Festival Internacional de Manchester, que se diz interessado em fazer da dança uma parte importante do evento bianual. "Como as ideias se manifestam na arte? A ambição desse trabalho, o maior que ele já fez, e a ambição da ideia pareceram algo que realmente poderíamos abraçar."

A experiência de criar "10000 Gestures" tem sido extenuante, mas emocionante, contou Chamblas, que ainda dança "À Bras Le Corps" com Charmatz e está em "10000 Gestures". "É tudo uma coreografia completamente fixa, e você tem de ser muito preciso e mudar de um parâmetro para outro muito rapidamente", disse ele.

Chamblas fez um breve resumo: "No começo da peça estão os gestos de não fazer nada, mas muito rápidos, 25 deles; depois 15 movimentos para trás, depois 55 movimentos loucos, e cinco posições de descanso. Tudo isso em cerca de um minuto".

Charmatz explicou que uma decisão importante tomada no início foi apresentar quase tudo em alta velocidade. "O interessante é criar uma tempestade, como flocos de neve caindo sobre você na luz. A ideia é que, se continuarmos correndo, a peça vai se manter unida. Ou a noção de que, quando você está morrendo, a vida passa toda na frente dos seus olhos. Isso também brinca com a ideia, que as pessoas sempre falam, de que a dança é efêmera, que não existem dois movimentos iguais."

O conceito subjacente de morte, explicou ele, pareceu importante, e também a intenção de estar totalmente presente. Referindo-se ao recente ataque suicida no show de Ariana Grande, ele disse: "Estamos em Manchester, com tudo o que aconteceu aqui, então usei o Réquiem, de Mozart, na peça. E não para ser muito político, mas é fácil sentir, especialmente na França, como se fosse impossível se mover pelos problemas – imigração, desemprego, Brexit. De certa maneira é também sobre ir em frente. Todo o momento diz 'agora'".

Por Roslyn Sulcas

 
 
 
 
Zero Hora No jornal Zero Hora você encontra as últimas notícias sobre esportes, economia, política, moda, cultura, colunistas e mais.