Maternidade

Gestante espera por quadrigêmeos em produção independente

Solteira, Luciane Carvalho, 37 anos, levou um susto com o resultado da inseminação artificial e agora divulga sua história em busca de colaborações

01/08/2017 - 16h00min | Atualizada em 02/08/2017 - 13h16min
Gestante espera por quadrigêmeos em produção independente Tadeu Vilani/Agencia RBS
Luciane completa 29 semanas da gestação de Antonella, Valentina, Sofia e Nicolas nesta terça-feira (1) Foto: Tadeu Vilani / Agencia RBS  

O sonho da maternidade de Luciane Carvalho está sendo finalmente realizado _ acrescido de um susto e multiplicado por quatro. Solteira, a administradora de empresas de 37 anos, moradora de Alvorada, resolveu encarar uma produção independente e se submeteu a uma inseminação artificial (com esperma de doador desconhecido obtido a partir de um banco de sêmen) no início deste ano. Além da óbvia alegria por atestar o sucesso do procedimento, os primeiros exames provocaram também um sobressalto: Luciane está grávida de quadrigêmeos. 

Agora na 29ª semana de gestação, internada para repouso absoluto no Hospital Mãe de Deus, em Porto Alegre, Luciane torce para que Antonella, Valentina, Sofia e Nicolas consigam chegar à 34ª semana e digere uma dúvida: como acomodar quatro crianças em um espaço, uma rotina e um orçamento que previam apenas uma? 

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Enquanto coordena, por telefone, uma obra para ampliação de sua casa – estão sendo construídos um quarto e um banheiro extras –, a mãe vem divulgando sua história no blog Quatro Vidas na Minha Vida (4vidasnaminhavida.wixsite.com/quadrigemeos) e em perfis nas redes sociais em busca de colaborações. Já conseguiu dois carrinhos de gêmeos, quatro bebês-confortos, 8,5 mil unidades de fraldas (suficientes para quase um ano) e uma soma em dinheiro. Uma vaquinha online tem o objetivo de arrecadar R$ 40 mil para cobrir os gastos básicos dos 12 meses iniciais, que incluem, além das fraldas, lenços umedecidos, pomadas para assaduras e latas de leite. 

Gestante usa gargantilha com pingentes representando os quatro filhos Foto: Tadeu Vilani / Agencia RBS

– Eu sempre quis muito ter filho, sempre me imaginei com filho. Sempre tive um sentimento de muito amor dentro de mim e vontade de botar isso para fora. Mas, no meu salário, caberia um nenê. Apertando, dois. Nem no meu carro cabem quatro – conta a gestante, proprietária de um Ford Ka.

Depois de relacionamentos que não deram certo, Luciane começou a cogitar a maternidade mesmo sem a presença de um companheiro. Considerou também a adoção, mas a vontade de passar pela experiência da gestação a levou a optar antes pela reprodução assistida. A administradora ainda pretendia aguardar alguns anos, mas o adoecimento do pai, o aposentado João Luiz Carvalho, 68 anos, em setembro passado, foi determinante para uma antecipação dos planos. 

– O que você está esperando? – questionou uma tia. 

Luciane teve o sêmen do doador introduzido em seu útero após receber uma medicação para estimulação da ovulação. Nessas condições, explica o ginecologista e obstetra Eduardo Pandolfi Passos, responsável pelo procedimento, existe o dobro de chance de ocorrer uma gestação de múltiplos em comparação com o método natural de concepção. Por inseminação artificial (caso de Luciane) ou fertilização in vitro (a fertilização se dá fora do útero, em laboratório, e depois o embrião é introduzido na paciente), a chance de gravidez de gêmeos é de 5% a 6%; de trigêmeos, até 3%; quanto a quadrigêmeos, a estimativa é de que a ocorrência seja inferior a 2%. Segundo Passos, o objetivo nunca é gerar mais de dois bebês. Na fertilização in vitro, sabe-se exatamente quantos embriões serão transferidos, enquanto na inseminação artificial não há um controle tão preciso, uma vez que a fecundação se dá no corpo da mulher.

– O organismo dela respondeu de uma forma maior à estimulação da ovulação – explica o médico, professor da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). 

Fotógrafa, Deise Carvalho Cansi faz registro da irmã no Hospital Mãe de Deus, em Porto Alegre Foto: Tadeu Vilani / Agencia RBS

Confirmada a gravidez, Luciane se submeteu à primeira ecografia. Ansiosa para saber se estava tudo bem com o filho, recebeu a notícia de que eram três. O quarto bebê apareceria só no segundo exame. Em choque, a administradora se isolou por dois dias. Não quis falar com ninguém, quase não dormiu. 

– Senti pavor. Me assustei muito. Minha cabeça não parava. É uma produção independente, sempre fui responsável, e agora estou colocando quatro pessoas no mundo. Fiquei pensando em como dar conta – recorda ela, usando uma gargantilha com pingentes dourados representando três meninas e um menino. – Nunca pensei "por que comigo?". Tenho muita fé, Deus é que sabe. 

Em 19 de junho, com quase 23 semanas de gestação – e a barriga já maior do que a de uma grávida de nove meses com um bebê só –, Luciane saiu de uma consulta com a ginecologista e obstetra Karla Simon Brouwers direto para o hospital. Passou por uma cerclagem de resgate, cirurgia de fechamento do colo do útero, para que pudesse sustentar a gestação por mais tempo. Desde então, a gestante permanece deitada. O ideal é que a gravidez avance até as 34 semanas, mas 32 já são consideradas um ótimo resultado para quadrigêmeos, segundo a médica. Nenês e mamãe passam muito bem.

– A Luciane tem uma força incrível, de cabeça e de físico. É uma pessoa muito tranquila, isso ajuda muito. Ela não se desespera, estuda muito, lê muito – diz Karla. 

Após a cesárea, os irmãos, prematuros, serão transferidos para a UTI neonatal. Luciane espera poder amamentá-los, mas os bebês provavelmente precisarão de um complemento. Ela já consegue se imaginar anos à frente: prevê a casa cheia de amigos dos filhos, depois os namorados e as namoradas. 

– Sou positiva. Não fico pensando nas dificuldades. O que eu conseguir de solução agora, ótimo. O que eu não conseguir, Deus vai me ajudando depois. Não adianta eu querer uma solução para tudo hoje – afirma a gestante, que conta com grande apoio da família, especialmente da irmã, a fotógrafa Deise Carvalho Cansi, 40 anos.

Um temor que era marcante, o da solidão, já não existe mais:

– Nunca mais vou estar sozinha.

 
 
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